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15 de jun. de 2015 | By: @igorpensar

Não consigo congregar! [áudio]



Está frustrado com a igreja?  Ama Jesus mas não consegue amar a Igreja?  Não confia mais na experiência comunitária?  Desistiu de congregar?  Está decepcionado com líderes abusivos ou irmãos?  Acha que não há igreja que presta?  

Escute: "Igreja e unidade: O triunfo da cruz sobre a inimizade."


[Baixe e escute este áudio]!


27 de abr. de 2015 | By: @igorpensar

Comunhão mediada por Cristo

Desmitifique a comunhão. O fundamento da comunhão não é a confraternização. Não é uma agremiação ao redor de gostos comuns. Não é uma reunião de pessoas parecidas. O cristão não congrega para satisfazer expectativas emocionais ou carências afetivas. O fundamento da comunhão é mais simples e mais sério do que se pode imaginar. Reanime-se à vida comunitária e redescubra a comunhão dos santos.



13 de mai. de 2012 | By: @igorpensar

Exegese: Igreja das Nações



O Senhor (YHVH) disse a Abraão: "Eu sou o Deus Todo-Poderoso; frutifica e multiplica-te; uma nação, sim, uma multidão de nações sairá de ti..." (Gn 35:11).

Curiosamente o termo "multidão de nações" aí encontra-se no original como קהל גוים (kehal goyim). Cujo sentido poderia ser "congregação de nações", "congregação de gentios" ou ainda "Igreja de Gentios". Na Septuaginta (LXX) encontra-se συναγωγαι εθνων (synagogai ethnon), o que confirma esta possível tradução de קהל como "igreja". 

Ora, o que me assombra nesta possibilidade exegética, é que Deus promete a Jacó (Israel) que dele procederia uma "comunidade de gentios/nações" antes mesmo de Moisés, antes da Lei. Definitivamente isto concorda com as palavras de Paulo que diz:

"Os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios? Como também diz em Oséias: Chamarei meu povo ao que não era meu povo; E amada à que não era amada. E sucederá que no lugar em que lhes foi dito: Vós não sois meu povo; Aí serão chamados filhos do Deus vivo." (Romanos 9:24-26)

Em Jacó, previa as promessas, a participação das nações no pacto abraâmico, conforme foi dito igualmente pelo apóstolo:

"Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro; Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé nós recebamos a promessa do Espírito." (Gálatas 3:13-14).

Autor: Igor Miguel


23 de abr. de 2012 | By: @igorpensar

Chamado! Futuro-Evangélico Antigo


Assine o chamado!

Fonte e tradução para o português
http://danieldliver.blogspot.com.br/2012/04/um-chamado-para-um-evangelico-futuro.html por Daniel dLIVEr.

Pouco antes de sua morte, em 2007, Robert E. Webber passou boa parte de seu último ano trabalhando em colaboração com mais de 300 teólogos e outros líderes para criar um chamado para um Futuro Evangélico Antigo. O chamado continua alguns temas e amplia os "Call Chicago" de 1977, e estabelece uma visão de uma fé Antiga-Futura em um mundo pós-moderno. Que Webber ajudasse a criar um tal apelo não é incomum, pois ele passou toda a sua vida profissional chamando a igreja para reforma contínua e, sobretudo, incentivando os líderes e leigos a beber do poço refrescante da verdade antiga. Que a Chamada viesse, como ele fez, em um momento de grande mudança no mundo e na igreja, e que também aconteceu um pouco antes de sua morte, dá-lhe uma espécie de peso que o torna especialmente atraente para examinar.


Os teólogos que participaram representavam uma ampla diversidade de filiação denominacional e a listagem de editores do Chamado e membros do conselho de referência foi marcante em sua abrangência e profundidade. Mais encorajador foi que centenas de pastores, teólogos e leigos em todos os EUA, Canadá e no mundo assinaram a chamada antes da organização que originalmente publicou o documento cessasse as suas operações.

Agora, a Rede Fé Antiga-Futura tem o orgulho de hospedar e defender a Chamada e incentiva os visitantes aqui a afirmá-lo mediante a assinatura de seus nomes, acrescentando-os à lista crescente de pessoas afins de todo o mundo.



PRÓLOGO

Em cada época o Espírito Santo chama a Igreja a examinar a sua fidelidade à revelação de Deus em Jesus Cristo, com autoridade registrada nas Escrituras e transmitida através da Igreja. Assim, enquanto nós afirmamos a força global e a vitalidade do evangelicalismo mundial em nossos dias, acreditamos que a expressão norte-americana do Evangelicalismo precisa ser especialmente sensível aos novos desafios externos e internos enfrentados pelo povo de Deus.

Estes desafios externos incluem o ambiente cultural atual e o ressurgimento de ideologias políticas e religiosas. Os desafios internos incluem a acomodação Evangélica à religião civil, o racionalismo, privatismo, e pragmatismo. À luz desses desafios, nós chamamos os evangélicos para fortalecer o seu testemunho através de uma recuperação da fé articulada pelo consenso da Igreja antiga e seus guardiões nas tradições da Ortodoxia Oriental, Catolicismo Romano, Reforma Protestante e os despertamentos evangélicos. Os cristãos antigos enfrentaram um mundo de paganismo, gnosticismo e dominação política. Em face da heresia e da perseguição, eles compreenderam a história através da história de Israel, que culminou com a morte e ressurreição de Jesus e a vinda do Reino de Deus.

Hoje, como na era antiga, a Igreja é confrontada por uma série de narrativas mestras que contradizem e competem com o evangelho. A questão premente é: quem pode narrar o mundo? O Chamado para um Futuro Evangélico Antigo desafia os cristãos evangélicos a restaurar a prioridade da história bíblica divinamente inspirada dos atos de Deus na história. A narrativa do Reino de Deus traz implicações eternas para a missão da Igreja, sua reflexão teológica, seus ministérios públicos de culto e espiritualidade e sua vida no mundo. Ao envolvermo-nos nestes temas, acreditamos que a Igreja será fortalecida para abordar as questões de nossos dias.

1. Da Primazia da Narrativa Bíblica

Fazemos um apelo a um retorno à prioridade da história canônica divinamente autorizada do Deus Triúno. Esta história -- Criação, Encarnação e Recriação -- foi efetuada pela recapitulação de Cristo da história humana e resumidas pela Igreja primitiva em suas Regras de fé. O conteúdo formado no evangelho dessas Regras serviram de chave para a interpretação das Escrituras e sua crítica da cultura contemporânea e, assim, moldou o ministério pastoral da Igreja. Hoje, nós chamamos os evangélicos a se afastar dos modernos métodos teológicos que reduzem o evangelho a meras proposições, e de ministérios pastorais contemporâneos tão compatíveis com a cultura que camuflam a história de Deus ou a esvaziam do seu significado cósmico e redentor. Em um mundo de histórias rivais, nós chamamos os evangélicos a recuperar a verdade da palavra de Deus como a história do mundo, e torná-la o centro da vida evangélica.

2. Da Igreja, a Continuação da Narrativa de Deus

Chamamos os evangélicos a tomar seriamente o caráter visível da Igreja. Fazemos um apelo por um compromisso com sua missão no mundo em fidelidade à missão de Deus (Missio Dei), e por uma exploração das implicações ecumênicas que isso tem para a unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade da Igreja. Dessa forma, chamamos os evangélicos a afastar-se de um individualismo que faz da Igreja um mero adendo ao plano redentor de Deus. O evangelicalismo individualista tem contribuído para os atuais problemas do cristianismo sem igreja (churchless Christianity), redefinições da Igreja de acordo com modelos de negócios, eclesiologias separatistas e atitudes condenatórias em relação à Igreja. Por isso, chamamos os evangélicos para recuperar seu lugar na comunidade da Igreja católica.


3. Da Reflexão Teológica da Igreja na Narrativa de Deus

Chamamos pela reflexão da Igreja para permanecermos ancorados nas Escrituras em continuidade com a interpretação teológica aprendida com os primeiros Pais. Dessa forma, chamamos os evangélicos a afastar-se de métodos que separam a reflexão teológica das tradições comuns da Igreja. Esses métodos modernos compartimentalizam a história de Deus, analisando suas partes separadas, enquanto ignoram a obra inteira de Deus como redentor recapitulada em Cristo. As atitudes anti-históricas também desconsideram o legado bíblico e teológico comum da Igreja antiga. Esse descaso ignora o valor hermenêutico dos credos ecumênicos da Igreja. Isso reduz a história de Deus do mundo a uma das muitas teologias concorrentes e prejudica o testemunho unificado da Igreja para o plano de Deus para a história do mundo. Por isso, chamamos os evangélicos à unidade na "tradição que tem sido crida por toda parte, sempre e por todos", bem como à humildade e à caridade em suas várias tradições protestantes.


4. Do Culto da Igreja como Dito e Promulgação da Narrativa de Deus

Chamamos por um culto público que canta, prega e promulga a história de Deus. Apelamos por uma consideração renovada de como Deus ministra a nós por meio do batismo, da Eucaristia, da confissão, da imposição de mãos, do matrimônio, da cura e através dos dons (carism) do Espírito, pois essas ações moldam nossas vidas e indicam o sentido do mundo. Assim, chamamos os evangélicos a afastar-se de formas de culto que se concentram em Deus como um mero objeto do intelecto ou que afirmam o "eu" como a fonte da adoração. Tal culto tem resultado em modelos  orientados para preleções, a orientados pela música, centrados em peformance, e controlados por programa que não proclamam adequadamente a redenção cósmica de Deus. Por conseguinte, chamamos os evangélicos a recuperar a substância histórica da adoração da Palavra e da Mesa e para atender ao ano cristão, que marca o tempo de acordo com atos salvíficos de Deus.


5. Da Formação Espiritual na Igreja como a Encarnação da Narrativa de Deus

Clamamos por uma formação catequética espiritual do povo de Deus que se baseie firmemente em uma narrativa bíblica Trinitariana. Estamos preocupados quando a espiritualidade é separada da história de Deus e do batismo na vida de Cristo e no seu Corpo. Espiritualidade, feita independente da história de Deus, é muitas vezes caracterizada pelo legalismo, conhecimento meramente intelectual, uma cultura excessivamente terapêutica, o gnosticismo da Nova Era, uma rejeição dualista deste mundo e uma preocupação narcisista com a própria experiência. Estas falsas espiritualidades são inadequados para os desafios que enfrentamos no mundo de hoje. Por isso, apelamos aos evangélicos a retornar a uma espiritualidade histórica como aquela ensinada e praticada no catecumenato antigo (regras e instruções para novos convertidos).


6. Da Vida Encarnada da Igreja no Mundo

Clamamos por uma santidade cruciforme e compromisso com a missão de Deus no mundo. Esta santidade encarnada afirma a vida, a moralidade bíblica e a auto-negação apropriada. Ela nos chama a sermos fiéis mordomos da ordem criada e profetas ousados à nossa cultura contemporânea. Dessa forma, chamamos os evangélicos à intensificar a sua voz profética contra as formas de indiferença para com o dom divino da vida, a injustiça econômica e política, a insensibilidade ecológica e o fracasso em defender os pobres e marginalizados. Muitas vezes falhamos em permanecer profeticamente contra o cativeiro da cultura ao racismo, o consumismo, a correção política, a religião civil, o sexismo, o relativismo ético, a violência e a cultura da morte. Esses fracassos têm silenciado a voz de Cristo para o mundo através da sua Igreja e prejudica a história de Deus do mundo, a qual a Igreja deve coletivamente  encarnar. Portanto, chamamos a Igreja para recuperar a sua missão contra-cultural ao mundo.


EPÍLOGO

Em suma, nós chamamos os evangélicos a recuperar a convicção de que a história de Deus molda a missão da Igreja para dar testemunho do Reino de Deus e para informar os fundamentos espirituais da civilização. Nós apresentamos este Chamado como um contínua conversa aberta. Estamos conscientes de que temos nossos pontos cegos e frquezas. Portanto, encorajamos os evangélicos a se engajar nesteChamado dentro dos centros educativos, denominações e igrejas locais, através de publicações e conferências.

Oramos para que possamos avançar com a intenção de proclamar um Deus amoroso, transcendente, triúno, que tem se envolvido em nossa história. Em conformidade com as Escrituras, o credo e a tradição, é o nosso mais profundo desejo de encarnar os propósitos de Deus na missão da Igreja através de nossa reflexão teológica, o nosso  culto, nossa espiritualidade e nossa vida no mundo, o tempo todo proclamando que Jesus é Senhor sobre toda a criação.

© Northern Seminary 2006 Robert Webber and Phil Kenyon

Este Chamado é emitido no espírito de sic et non, portanto aqueles que afixarem seus nomes a esta chamada não precisam concordar com todo o seu conteúdo. Em vez disso, seu consenso é que essas são questões a serem discutidas na tradição de semper reformanda enquanto a igreja enfrenta os novos desafios do nosso tempo. Durante um período de sete meses, mais de 300 pessoas participaram via e-mail para escrever o Chamado. Estes homens e mulheres representam uma ampla diversidade étnica e de afiliação denominacional. Os quatro teólogos que mais consistentemente interagiram com o desenvolvimento do Chamado foram nomeados como Editores Teológicos. Ao Conselho de Referência foi dada a tarefa especial de aprovação geral.


Editores Teológicos
2006
  • Hans Boersma, James I. Packer Professor of Theology, Regent College, Vancouver, BC, Canada
  • Howard Snyder, Professor of the History and Theology of Mission, E. Stanley Jones School of World Mission and Evangelism, Asbury Theological Seminary, Orlando, FL
  • Kevin Vanhoozer, Research Professor of Systematic Theology at Trinity Evangelical Divinity School, Deerfield, IL
  • Rev. Dr. D. H. Williams, Professor of Religion in Patristics and Historical Theology, Baylor University, Waco, TX

Conselho de Referência 2006


  • Jamie Arpin-Ricci, Co-director, Youth with a Mission Urban Ministries, Winnipeg, Canada
  • Bruce Ellis Benson, Associate Professor of Philosophy, Wheaton College, Wheaton, IL
  • Ryan K. Bolger, Asst. Professor of Church in Contemporary Culture, Fuller Theological Seminary, CA
  • Alfloyd Butler, Affiliate Professor of African American Religious Studies, Northern Seminary, Lombard, IL
  • Rodney Clapp, Editorial Director, Brazos Press, Grand Rapids, MI
  • Charles H. Cosgrove, Professor of New Testament Studies and Christian Ethics, Northern Seminary, IL
  • David Fitch, Lindner Professor of Evangelical Theology, Northern Seminary, Lombard IL
  • John Franke, Professor of Theology, Biblical Seminary, Hatfield, PA
  • Dinelle Frankland, Assoc. Professor of Worship, Lincoln Christian Seminary, Lincoln, IL
  • Chris Hall, Provost of Eastern University and Dean of the Templeton Honors College, St. Davids, PA
  • Charles Hambrick-Stowe, Dean of the Seminary and Professor of Christian History, Northern Seminary, Lombard, IL
  • Roland G. Kuhl, Executive Director, Institute for Missional Initiatives, Round Lake Beach, IL
  • Bryan M. Litfin, Associate Professor of Theology, Moody Bible Institute, Chicago, IL
  • Danut Manastireanu, Ph.D., Director for Faith & Development, Middle East & Eastern Europe Region of World Vision International, Iasi, Romania
  • Claude Mariottini, Professor of Old Testament, Northern Seminary, Lombard, IL
  • Brian McLaren, author, Laurel, MD
  • Bradley Nassif, Associate Professor of Biblical and Theological Studies, North Park University, Chicago, IL
  • David Neff, Editor and Vice-President, Christianity Today, Carol Stream, IL
  • Dennis Okholm, Professor of Theology, Azusa Pacific University, Azusa, CA
  • Bob Price, Assoc. Professor of Evangelism and Urban Ministry, Northern Seminary, Lombard, IL
  • Michael Quicke, Charles W. Koller Professor of Preaching and Communication, Northern Seminary, Lombard, IL
  • R. R. Reno, Professor of Theology, Creighton University, Omaha, NE
  • Edmund Rybarczyk, Assistant Professor of Systematic Theology, Vanguard University, Costa Mesa, CA
  • Joel Scandrett, Associate Editor Academic & Reference Books, InterVarsity Press, Downers Grove, IL
  • Douglas R. Sharp, Professor of Christian Theology, Northern Seminary, Lombard, IL
  • P.L. Sinitiere, Ph.D. candidate (history), University of Houston, Houston, TX
  • Laura Smit, Dean of Chapel, Calvin College, Grand Rapids, MI
  • James K.A. Smith, Assoc. Professor of Philosophy, Calvin College, Grand Rapids, MI
  • Jennifer Trafton, Managing Editor, Christian History & Biography, Carol Stream, IL

Patrocinadores:
Northern Seminary (www.seminary.edu)
Baker Books (www.bakerbooks.com)
Institute for Worship Studies (www.iwsfla.org)
InterVarsity Press (www.ivpress.com)

“La Llamada” en Español
      
28 de mar. de 2012 | By: @igorpensar

Restauração? O que é isto?


Por Igor Miguel

A proposta deste texto é explicar o uso bíblico do termo “restauração”, afinal, ele vem sendo usado de forma indiscriminada e irresponsável, o que acaba comprometendo seu sentido bíblico e original.  Sem mencionar que diversas "seitas" e "denominações" emergem da distorção deste conceito.

Começaremos este texto fazendo a seguinte afirmação: 

Biblicamente, o termo “restauração” não tem nenhuma relação com:

  • restaurar a Igreja como ela era no I século;
  • restaurar a Igreja apostólica ou primitiva;
  • restaurar as raízes bíblicas ou judaicas (hebraicas) do cristianismo;
  • avivar a Igreja; 
  • conduzir a Igreja a sua condição original;
  • voltar para a Igreja de Atos;
  • deixar “Roma” e voltar para “Jerusalém”;
  • o cristianismo abandonar o paganismo;
  • “voltar ao primeiro amor”.

Comumente, a palavra “restauração” se conecta a ideia de “restauração da Igreja”, alega-se que este seria um “chamado bíblico” ou “profético” o que é um equívoco, que pode ser constatado simplesmente analisando a principal ocorrência do termo na Bíblia:
Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados,  a fim de que, da presença do Senhor, venham tempos de refrigério, e que envie ele o Cristo, que já vos foi designado, Jesus,  ao qual é necessário que o céu receba até aos tempos da restauração de todas as coisas, de que Deus falou por boca dos seus santos profetas desde a antiguidade. (Atos 3:19-21).
No Brasil o termo “restauração” é comumente contraposto à “reforma”, valendo-se quase de forma infantil da analogia da “construção”, alegando-se que “restaurar” é melhor que “reformar”, pois um “traz a coisa ao original” e a outra dá “outra forma”.  Claro que a fraqueza deste argumento faz muito sentido para mentes ingênuas, mas precisamente por isto dispensa maiores refutações.

A questão é que há uma apropriação indevida de um termo que nada tem a ver com “restaurar a Igreja”, mas com a “restauração de todas as coisas”, ou seja, Pedro anuncia uma mensagem contida nos vários textos proféticos do Antigo Testamento, em que Deus promete “renovar” e “restaurar” sua criação, dignificando-a.   

O texto de Pedro não tem qualquer implicação eclesiológica, em outras palavras, “restauração” no texto de Pedro não envolve a “restauração” ou o "retorno" da Igreja à sua “originalidade” ou “primitividade”, como se supõe.  Pedro não anuncia a “restauração da Igreja”, o que seria uma contradição histórica, afinal, o apóstolo fala de dentro da primeira comunidade messiânica, ou seja, que tinha Cristo como centro, logo cristã.  Não havia o que “restaurar” em termos de Igreja na mensagem de Pedro, pois ele é a Igreja primitiva, ou do I século.

Como dito, o termo “restauração” vem sendo deturpado e descontextualizado de seu sentido original.  A palavra grega aí traduzida por “restauração” é apokatastaseos [αποκαταστασεως], que além deste sentido, evoca algumas possibilidades tradutórias, como será demonstrado a seguir.   

O uso do radical grego apokatastasis é usado na Bíblia (Novo Testamento Grego e na Septuaginta – Antigo Testamento Grego) com os seguintes sentidos:
A “cura” ou “restauração” da pele de Moisés quando do sinal, em que Deus lhe feriu com lepra e imediatamente ficou curado (Ex 4:7).   Nos profetas aparece associado à restauração dos exilados de Israel, o retorno à terra, a restituição dos territórios e o restabelecimento da justiça (Jr 16:15; Os 11:11; Am 5:15).  Já no Novo Testamento, o verbo “restaurar” ocorre nas palavras de Jesus associando o ministério de João Batista ao de Elias como aquele que primeiro vem para “restaurar todas as coisas”  (Mc 9:12).  E finalmente, no monte das oliveiras, os discípulos perguntam, às vésperas da ascensão de Jesus, se  naquele momento ele “restauraria” o Reino a Israel (At 1:6).
Se reunidas as poucas ocorrências do termo, como substantivo ou verbo, na maioria dos casos ele aparece associado à “restauração” da nação de Israel ou da retomada da ordem na criação.  Pedro evoca esta expectativa judaica, derivada de outros textos dos profetas, onde  o termo "restauração" não aparece diretamente citado, mas o tema é diretamente tratado.

Ao menos, pelo contexto de Atos 3:19-21 Pedro conecta sua ideia de “restauração” ao que fora “dito pela boca dos profetas”.  Ao ouvido de seus ouvintes judeus, a conexão do termo “restauração” com “retorno do exílio” e “restauração da criação” seria inevitável.  

Enfim, o uso do termo “restauração” como se fosse uma expressão bíblica associada à restauração da Igreja a seu formato original é puramente especulativa ou uma apropriação desonesta.   "Restauração" biblicamente envolve a “renovação da criação” e a “restauração das promessas abraâmicas” dirigidas ao retorno dos filhos de Israel do exílio.  

Movimentos “restauracionistas” em geral, desde seus primórdios no movimento de Thomas Campbell (1763-1854) que deu origem a várias seitas e denominações “primitivistas”, até aos atuais movimentos restauracionistas, como “Igreja Local”, “Igreja de Cristo” (Church of Christ), “Israelitas da Nova Aliança”, “Igreja de Deus”, “Testemunhas de Jeová”, movimentos apostólicos e o “Ministério Internacional da Restauração” do pseudo-apóstolo René Terra Nova, as doutrinas da "apóstola" Valnice Milhomens e os menos expressivos, como o “Ensinando de Sião” e similares, valem-se desta apropriação desonesta do termo “restauração”, dirigindo-o à Igreja, como se este fosse um “mandato profético”.   Sem mencionar obras como “Cristianismo Pagão” de Frank Viola e similares, que retomam a velha falácia primitivista.

Não há qualquer texto no Novo Testamento que afirme que deveríamos permanecer ou retornar à “Igreja Primitiva” ou do “I Século”.  Simplesmente as orientações apostólicas orbitam em geral ao redor de permanecer em Cristo, na graça, na fé, na Palavra, no amor, nas boas obras (ações de graça) e no Espírito Santo.  Pois estes são princípios atemporais e universais, não sendo uma exclusividade da comunidade cristã do I século, ao contrário, são virtudes universalmente encontradas em verdadeiros cristãos em diversos lugares do mundo.  Estes elementos “universais” da fé cristã podem ser encontrados em forma de credos, como aquele conhecido como “Credo Apostólico” (~ II séc. d.C.), que seria um resumo da fé cristã:

1. Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra;
2. e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor,
3. que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da virgem Maria;
4. padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado;
5. desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia;
6. subiu aos Céus; está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso,
7. de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos.
8. Creio no Espírito Santo,
9. na Santa Igreja Católica (Igreja Universal), na comunhão dos Santos,
10. na remissão dos pecados,
11. na ressurreição da carne,
12. na vida eterna.
 Amém.

A questão não é se inspirar no que os discípulos fizeram na Igreja Primitiva, simplesmente por ser ela “primitiva”, mas por ser ela “Igreja”, em sua expressividade apostólica e cristocêntrica.  Expressividade encontrada não só no I século, mas em comunidades cristãs entre os II-VI séculos, na igreja medieval, durante a reforma no século XVI e ao longo dos avivamentos do século XVIII e XIX.    

O problema de restauracionistas e primitivistas é que criam, cada um, sua versão “pessoal” e “subjetiva” de “igreja primitiva” ou do “I século”.  Algumas até se apropriam de expressões litúrgicas judaicas medievais e tardias, batizando-as como se fossem do “I século” e todos embarcam ingenuamente.  Todo tipo de esquisitices emergem de tais práticas, como poderia ser constatado em casos extremos em países da América Latina.

Por analogia, pode-se dizer que a proposta de Cristo nunca foi que a Igreja permanecesse na condição de “semente” ou “broto”, mas que crescesse e tornasse uma grande árvore, sendo enriquecida com a “glória das nações”, mas sempre se renovando internamente (reforma) tendo em vista retomar a doutrina apostólica e os valores universais da fé.

Por outro lado, claro que a reforma não deu todas as respostas.  Glória a Deus por não ter confiado todos os tesouros da fé apenas a uma confissão cristã.  Coerente e honesto seria se localizar  comunitariamente a uma confissão de fé, sem cair no denominacionalismo, considerando a catolicidade (a fé universal e comum de todos os cristão) da Igreja. 

Não se duvida que os tesouros do Reino estão por aí na visão sacramental anglicana, na dedicação metodista, no fervor carismático-pentecostal e na doutrina da salvação reformada.  Quanto a exaltar a primeira Igreja, reafirmo, o faça por ser Igreja, mas não por ser a primeira. Que seja celebrada por ser primícias, mas não por ser o propósito último da Igreja, pois sua vocação é tornar-se maior e mais complexa ao longo do tempo.

Obviamente, a Igreja Primitiva precisa ser imitada e admirada não porque simplesmente é “primitiva”, mas porque é “Igreja”, o que torna a(s) Igreja(s) em outros tempos e lugares igualmente digna(s) de admiração.   A questão não é apenas imitar o que os apóstolos viveram naquela época, mas pensar como viveriam ante os desafios do presente tempo.  E penso, que neste aspecto, se precisa da Bíblia como ela é, mas lida comunitariamente, junto com a Igreja de Cristo que está além do tempo e do espaço.  Assim, evita-se o subjetivismo teológico travestido de primitivismo, típico de todas as seitas, em todos os tempos.

Logo, que Deus toque corações em crise e os livre da rebeldia de se opor à vocação da Igreja, afinal, como foi dito: 

“Tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a incontáveis hostes de anjos, e à universal assembléia  e igreja dos primogênitos arrolados nos céus, e a Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados,  e a Jesus, o Mediador da nova aliança, e ao sangue da aspersão que fala coisas superiores ao que fala o próprio Abel.” (Hb 12:22-24)

Soli Deo Gloria
5 de mar. de 2012 | By: @igorpensar

Igreja, Exílio e Redenção (Prezi)

Apresentação da palestra que ministramos no IV Congresso Cristianismo Autêntico sobre o tema "Igreja, Exílio e Redenção".

19 de mai. de 2011 | By: @igorpensar

Porque amo a Igreja!

Por Igor Miguel

Igreja = Corpo Místico de Cristo, a Igreja Invisível
igreja = igreja local, a reunião visível dos santos.

Em tempos quando muita gente anda insatisfeito com suas igrejas e comunidades locais, acho que sigo à contramão da tendência. Ando aos amores pela Igreja e por expressões comunitárias de culto, e especificamente, por minha igreja local. Não somente eu, minha esposa anda às voltas pela experiência comunitária também, nada que boa doutrina e leitura não façam.

Vivo dias de suspiro por esta comunidade que chamam igreja, e não me refiro aqui à Igreja Invisível (Corpo Místico de Cristo). Refiro-me a algo bem visível, concreto e humano, refiro-me à igreja local, com endereço físico, com estrutura litúrgica formalmente organizada, com obreiros ordenados, com canções, salmos, pregação, ceia, ofertório e confissão de fé. Bem clássica mesmo. 

Dirijo minha gratidão a Deus por pessoas que ficam com corações fixos em cada música, cada partícula de pão mastigado e o gosto cítrico do vinho da ceia. Creio em uma comunidade que entoa junto cânticos de gratidão, que não exalta nada além da grandeza do Deus criador, que se revelou redentor em Jesus Cristo.

Sim, desde o livro de James K.A. Smith, Desiring the Kingdom, tenho procurado viver uma espiritualidade na comunidade, por isto, menos individualista, intimista e pietista. Eis o motivo de alguns textos aqui escritos sobre orações, a docilidade da vida comunitária e outras amostras de louvor e gratidão por tudo que tenho aprendido. Outro livro que em ajudou nesta jornada de superação da "frustração com a igreja" foi o livro de Kevin DeYoung & Ted Kluck, intitulado "Por que amamos a Igreja". A obra me surpreendeu por sua simplicidade e objetividade ao apresentar a possibilidade de amarmos a Igreja Local novamente. E, como não mencionar o clássico "Vida em Comunhão" de Dietrich Bonhoeffer que trata bem a inevitabilidade da vida congregacional para os salvos, bem  como a necessidade da reunião visível dos santos.

Em dias em que todo mundo quer dar uma resposta à "crise evangélica", encontramos boas opiniões a respeito, mas também péssimas soluções.  Muitas das "soluções" ou são pós-modernas demais, como o caso do movimento "Igreja Emergente", "Igreja Orgânica" ou movimento primitivistas.  Como o caso do restauracionismo judaizante que insiste no dualismo "Jerusalém x Roma" como a tensão, quando na verdade a crise da Igreja evangélica está em sua rejeição a algo muito mais simples: O EVANGELHO (JESUS CRISTO).

Entre primitivistas, encontramos também soluções radicais, como a galera que quer "desinstitucionalizar" a Igreja, sustentado que estruturas formais de organização eclesiásticas são um problema para a "espiritualidade". Uma canseira!  Esses parecem cair naquilo que Irineu de Lion detectou nos gnóstico: "blasfêmia contra o Criador". Afirmam corretamente a Igreja como Corpo Místico e Invisível de Cristo, mas erram ao negarem qualquer forma de estrutura institucional, local e visível. O Corpo de Cristo se visibiliza no tempo e na criação. Instituições são providências do Espírito Santo na história, e sem algum nível de institucionalização, comunidades cristãs não criariam universidades, escolas confessionais, seminários, bibliotecas, editoras, escolas bíblicas, agências missionárias e comentários bíblicos. Sem a providência da institucionalização, a Igreja de Cristo, não sobreviveria às ondas de tensões históricas e pressões culturais do mundo. Instituição é dádiva do Espírito na criação, e qualquer tentativa de afirmar a invisibilidade mística da Igreja, sem reconhecer que ela é encarnacional no tempo e no espaço, é um quase-platonismo. Uma blasfêmia contra o Criador.

A Igreja se visibiliza na reunião formal do santos, e certamente, onde os santos se reúnem, existirão viúvas, crianças, missões, discipulado, horário de reunião, coletas e por aí vai. Impossível que esta estrutura se mantenha sem uma mínima organização institucional. Entretanto, a instituição serve à Igreja, e não o contrário. É verdade que este é um detalhe que falha às vezes, e por esta falha, já assumem a filosofia "nós vamos quebrar tudo" e voltar pra Jerusalém, pra Igreja Primitiva e para a Igreja de Atos. Assumindo assim uma clara doutrina restauracionista. Voltemos ao evangelho, Jesus Cristo é mais que suficiente, foi Ele mesmo, a causa primeira e última de todas as reformas, curas e renovações da história da Igreja.

Bob Kauflin, citado por Kevin DeYoung, assumiu seu orgulho:
"Durante anos, considerei as tradições religiosas como um impedimento à espiritualidade bíblica. Associava orações repetidas, recitação conjunta dos credos, confissão pública do pecado, leitura das Escrituras, calendário litúrgico e ordens de culto a legalismo e servidão. Propus-me a repensar a adoração coletiva a partir do zero. Buscaria apenas as Escrituras e não dependeria de nada que as pessoas tivessem feito nos séculos anteriores. Achei que estava sendo original. Na verdade, estava sendo apenas ignorante -- e orgulhoso." (DeYoung, p. 121).
Muita gente anda decepcionada com a igreja local, alguns com motivos, outros por transferência psicológica ou por um idealismo quase platônico de Igreja. Idealismo refletido em um modelo de "Igreja Apostólica Pura". Pura? A Igreja do I Século era cheia de problemas identitários, tensões apostólicas, divisões, rebeldia, falsos mestres, incursões heréticas de movimentos pré-gnósticos e judaizante. Muitos desses problemas da Igreja Primitiva já  foram resolvidos pelo consenso comunitário da Igreja ao longo da história. Então, que Deus nos livre de um retorno a problemas já resolvidos.

No idealismo, esquecemos, que a Igreja continua caminhando, e por isso é uma Igreja no tempo e na história. Temo, que no desejo de uma igreja ideal, esquecemos de amar a igreja real, aquela que temos agora. Preocupação que compartilho com o grande mártir cristão moderno Dietrich Bonhoeffer que afirmou certa vez:
"Qualquer um que amar mais o sonho da comunidade que a comunidade cristã em si (com todos os seus defeitos) torna-se destruidor desta, ainda que a devoção àquela seja impecável e suas intenções sejam extremamente honestas, sérias e sacrificiais."
A igreja tem pecadores igual lá fora dela (o mundo), talvez com uma diferença: na igreja você encontrará pecadores assumidamente pecadores, por isso, dentre eles, vários arrependidos. Arrependidos, que se voltaram para Cristo e seu evangelho, encontrando cura para suas vidas em uma caminhada de progressivo crescimento espiritual rumo a consumação desta magnífica salvação.

Então vou resumir a opera: amo viver em igreja. Quando muitos querem viver na "igreja Cristo em casa", eu quero viver Cristo com outros. Quero estapear meu individualismo me expondo e olhando para os rostos. Quero me arriscar, me lançar aos olhares alheios, às vezes amorosos, às vezes nem tanto.

Mas... é bom, bom de mais segurar o pão da ceia e olhar pra ele e saber que é um pedaço do mesmo pão que toda minha comunidade segura simultaneamente (I Co 10:17). Muito bom recitar confissões cristãs milenares junto com minha comunidade ao final do culto, aquelas que afirmam claramente o senhorio, missão universal e divindade de Jesus. É muito bom ouvir um bom sermão, independente da retórica, mas que seja ao menos bíblico e centrado em Cristo.

Então, enquanto muitos correm da Igreja Local, eu corro pra lá. O lugar onde recitamos salmos, cânticos espirituais, bebemos da doutrina apostólica, da suficiência e centralidade de Jesus Cristo.  Pois nEle, por Ele para Ele são todas as coisas (Rm 11:36).

Infelizmente, às vezes o que encontramos é compensação afetiva disfarçada de falso vínculo religioso. Falsa comunhão, fruto de uma unidade sentimental desprovida da iluminação de Cristo. Convívio social travestido de espiritualidade. Na verdade, relacionamento recreativo retroalimentado por orgulho e narcisismo. Se Cristo não for o núcleo de nossa vida comunitária, esquece, é clube, mas não é Igreja.

Enfim, a Igreja Invisível, universal, não-institucional, santa e sem mácula, se visibiliza na Igreja Local, com seus dilemas e virtudes (não muito diferente das Igreja exortadas por Cristo em Apocalipse), mas ainda amada por Cristo, e por isso, dignas de seu amor e severidade. Se Cristo ama a Igreja, certamente também a amo.
10 de jan. de 2011 | By: @igorpensar

O Israel de Deus [Artigo Especial]

Esse pequeno texto nasce como um parto, uma síntese teológica, de várias fontes a respeito da relação real entre Israel, a Igreja (eclesiologia) e a salvação. Se propõe a desmistificar dois erros extremos: de um lado o desprezo antijudaico ainda perseverante em alguns círculos do cristianismo, apesar das grandes discussões teológicas na relação entre judeus e cristãos. Por outro lado, a supervalorização do judeu de forma quase cega, que infelizmente em alguns meios pode por em risco a grandeza e sublimidade do fundamento e a centralidade do evangelho que é Jesus Cristo. Infelizmente, ambos os extremos comprometem uma compreensão clara dos textos paulinos. No primeiro caso, uma negação da fidelidade de Deus a Israel por meio da salvação que deles procede que é Cristo e dos judeus salvos. No segundo caso, o ofuscamento do comprometimento supremo de Cristo com a Igreja.

Peço aos leitores, que por gentileza, não leiam este texto de forma superficial e impulsiva, mas cuidadosamente, meditando e dando a devida atenção a algumas sentenças que podem parecer chocantes em um primeiro momento, mas depois elas comporão um grande quadro que revela a grandeza da salvação operada por Jesus através de sua Igreja.

13 de dez. de 2010 | By: @igorpensar

Doce Comunidade

Por Igor Miguel

Tenho vivido dias modestos. Dias de simplicidade, de valorizar coisas básicas, criar expectativas próximas. Nada muito grande, sem pretensões ou sonhos aprisionadores. Descobri que a forma mais agradável de se viver é viver em comunidade.

A graça me beijou, meu coração enche-se de gratidão. Quando oro a oração que Jesus me ensinou, quando chamo Deus de Pai, alguma coisa me integra a uma multidão de mártires, peregrinos, a uma grande nuvem de testemunhas (Hb 12:1): homens, mulheres de desertos, de monastérios, de cidades, de universidades, de fogueiras, de livros, alguma coisa me inclui na cidade de Cristo, a Cidade de Deus.

Em comunidade vejo rostos familiares, uma família milenar, ao redor da mesa da comunhão, na sacralidade do partir do pão, do misterioso sacramento, que emerge da páscoa, shulchan arúch, mesa posta.

Quando seguro o pão, quanto pego no cálice da Nova Aliança, diante do banquete sacramental, alguma coisa me coloca na mesa da última ceia, ouvindo cantigas e salmos, com a presença de discípulos covardes, amados e traidores, lá estão todos reunidos, com riscos, alegrias, fraquezas e amor.

Comunidade... mesa eucarística[1], de comunhão, edificados não no Monte do Templo, agora, construídos sobre a Pedra Angular, sobre o fundamentos dos apóstolos e profetas: Jesus Cristo.

Uma comunidade universal. Nela a linha entre o existente e não-existente, incluídos e excluídos, se dissolve, porque lá todos se aproximam para se tornar um em Cristo. Evangelho da paz para que os estavam perto e para os que estavam longe (Ef 2).

Lá na comunidade, na comunhão dos santos, como assevera o credo, cresce um interesse pelo que é o outro. Uma curiosidade irresistível de saber como aquele que chamamos irmão vê a Cristo: será que com o mesmo olhar? Será com a mesma alegria? Que história o Espírito de Adoção inscreveu em sua história?

Perguntas silenciosas, que perpassam biografias, causos dramáticos, que compõem uma grande comunidade chamada: IGREJA.

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[1] Eucaristia significa comunhão.
24 de out. de 2010 | By: @igorpensar

Jesus o Construtor

Por Igor Miguel

[Para baixar em PDF clique aqui].

Os evangelhos mencionam que Jesus era filho de um "carpinteiro", o que no contexto da cultura judaica significava que ele mesmo, o próprio Jesus, também o era. Uma responsabilidade do pai judeu era ensinar uma profissão ao filho (Talmud, tratado Kedushim 4a e Midrash Shemot Rabá 28:2). Uma profissão associada ao estudo das Escrituras (Torá) era considerada uma virtude, como observa a tradição: "Uma excelente coisa é o estudo da Torá combinado com alguma ocupação [...] todo estudo da Torá sem trabalho se tornará no fim fútil e a causa do pecado" (Avot II, 2).

A palavra grega que está no original dos evangelhos, traduzido por "carpinteiro", é o termo tektôn [τεκτων] que é uma expressão genérica para uma profissão que envolve todo tipo de arte e construção. Um tekton poderia ser um ferreiro, pedreiro, artista ou um engenheiro, o correspondente hebraico seria charásh [חרש] que é usado no Antigo Testamento para as diversas profissões ligadas ao artífice em geral (I Sm 13:19; II Sm 5:11; I Rs 7:14; II Rs 22:6; Os 13:2).

Seria perfeitamente aceitável que Jesus e seu pai fossem envolvidos com a construção e edificações. Talvez daí, entendemos a frequência com que textos ligados à construção e edificação estejam sempre associados à relação de Jesus e a sua Igreja (I Pe 2; Hb 10:19-24; Ef 2:17-22). O próprio Jesus faz uso desta linguagem, quando disse para Pedro:

Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. (Mt 16:18).

Jesus Cristo é o grande edificador, não somente isto, ele é o próprio fundamento de onde a Igreja se ergue como comunidade que abriga o Espírito Santo. Ao menos esta é a linguagem que encontramos no seguinte texto:

[...] vindo, evangelizou paz a vós outros que estáveis longe e paz também aos que estavam perto; porque, por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Espírito. Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito. (Ef 2:13-22).

O apóstolo Paulo após falar sobre o poder de Cristo e seu sacrifício em criar uma uma unidade misteriosa entre judeus e gentios, afirma que o evangelho (a boa nova) anunciou shalom (paz) aos que estavam longe, ou seja, as nações (hb. goyim - estrangeiros), e aos que estavam perto, isto é, os judeus. Shalom [שלום] aqui deve ser compreendido para além do sentido de "ausência de conflito", o termo hebraico significa: prosperidade, saúde, estabilidade, tranquilidade, firmeza, justiça e outras expressões que estão semanticamente ligadas ao termo. A boa nova (o evangelho) é a proclamação da shalom do Reino nos termos dos profetas (Is 66:12), um Reino futuro, mas que pode ser antecipado em Cristo por sua Igreja. Um dia futuro em que todos os povos, línguas e nações, se integrarão no Israel de Deus, se torna uma realidade presente no igual acesso que ambos (judeus e gentios) possuem em Cristo na Igreja Invisível.

Na Igreja todas as distinções étnicas, sexuais, hierárquicas, distinções importantes na dinâmica da vida vocacional, se desfazem perante o Pai. Pois quando o pai se dirige a um ex-pagão, não o vê como tal, mas o contempla como contempla seu Filho (Jesus). Por isto, na unidade de todos os santos em Cristo no Espírito Santo, em especial quanto aos gentios (não-judeus), Paulo conclui: "Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus." (v.19).

Jesus já tinha dito que edificaria sua Igreja, esta comunidade maravilhosa, cheia de pessoas esperançosas, com corações cativos por este amor. Uma grande família de Deus, onde ninguém é estrangeiro (hb. gêr). O construtor Jesus Cristo, agora se integra à construção, sendo ele a pedra angular (v.20).

O que significa ser pedra angular? Em grego o termo usado é akrogoniaiós [ακρογωνιαιος], seu correspondente hebraico é rosh piná [ראש פינה]. Paulo neste texto recorre ao salmo 118:22 interpretado profeticamente que diz: "A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular." Texto que Jesus tinha usado em Mt 12:10 se referindo indiretamente a ele.

A pedra angular é uma pedra posicionada estrategicamente em determinada parte da estrutura de uma construção, com o fim de equilibrar as partes que a compõe. Um exemplo bem ilustrativo é seu uso na construção de arcos de pedra. Nestas edificações, arcos eram construídos com blocos de pedras pré-moldados, que se encaixavam sem o uso de argamassa, e mantinha-se em equilíbrio, sendo a pedra angular, a pedra em forma de cunha que se encaixava precisamente na parte superior do arco, entre uma metade e outra dos blocos de um arco, mantendo o equilíbrio físico da estrutura.

Baseado nisso, o texto de Paulo começa a tomar forma. A família de Deus é edificada sobre o fundamento dos profetas e apóstolos, que é o testemunho da Antiga Aliança e da Nova Aliança. A atividade profética e a atividade apostólica, a narrativa da Bíblia Hebraica (Antigo Testamento) e do Novo Testamento, convergem para a pedra angular, para Cristo, a pedra que os construtores rejeitaram, o que se encaixa, assim, perfeitamente na profecia e em seu cumprimento.

A Igreja só pode crescer, se estiver bem ajustada nas Escrituras, no testemunho dos profetas e dos apóstolos, centrados em Cristo. Não é um conhecimento literário, uma apreensão teológica a respeito das Escrituras, isto não é suficiente. A Igreja é uma comunidade edificada, construída na revelação proclamada pelos profetas e ensinada pelos apóstolos, porém sob a perspectiva e o ajuste de Jesus Cristo. Se Cristo for tirado do centro, a edificação se desmorona, e as palavras das Escrituras se tornarão apenas conhecimento literário.

Em Jesus Cristo, o construtor, a pedra angular: "... todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito." (v.21 e 22).

Sim! Jesus Cristo é a pedra, a rocha rejeitada, desprezada, mas que completa o "quebra-cabeças". Jesus é o testemunho definitivo, aparentemente insignificante, mas a única peça que se encaixa precisamente no que os profetas falaram e era ele o sentido final da missão dos apóstolos.

Por isto o apóstolo Pedro, cujo nome ironicamente significa pedra, afirma:

Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo. Pois isso está na Escritura: Eis que ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será, de modo algum, envergonhado. Para vós outros, portanto, os que credes, é a preciosidade; mas, para os descrentes, a pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular e: Pedra de tropeço e rocha de ofensa. São estes os que tropeçam na palavra, sendo desobedientes, para o que também foram postos. Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia. (I Pe 2:4-10).
Uma grande comunidade está sendo edificada em Cristo. Aqueles que rejeitam a pedra, tropeçam nela, se torna rocha de escândalo. Entretanto, para os santos, Jesus Cristo se torna o fundamento, a pedra angular, para quem convergem os profetas e os apóstolos, sendo Ele, o núcleo de onde a Igreja cresce e todos os santos na unidade do Espírito. Deixamos assim de ser pagãos, assimilados pelo pecado, para sermos inseridos, na comunidade eleita, a comunidade sacerdotal, a casa espiritual: a Igreja.