Por Igor Miguel
Sei da tirania da história. Esta coisa de nascermos e nos depararmos com a vida não é brincadeira. Apesar de que nas brincadeiras da infância simulávamos a vida adulta como algo prazeroso, cheio de ludismo e trabalho criativo. A vida adulta, vida que temia quando criança, é cheia de desafios e desatinos, muito pouco lúdica, com ilhas de devaneios.
Ou nos entregamos à filosofia do “deixa a vida me levar” ou admitimos que nossa presença na história tem um desígnio, tem uma causa e um fim de ser. Como nos portaremos diante do tempo que se foi e que virá? O que faremos diante da realidade do hoje?
O “entregar-se” à historicidade, ao tempo, é uma passividade preguiçosa, um suicídio biográfico. Seria como receber um papel em branco e esperar que dele saia espontaneamente alguma obra de arte, algum tipo de rabisco, pelo menos. Talvez, mais interessante seria pensar que esse papel já vem com algum esboço, com alguma escrita, incompleto, tentadoramente inacabado. Irresistível como quando nos entregam um desenho pra colorir e uma caixa de lápis de cor. Deliciosamente tentador.
Não damos conta do inacabamento, não suportamos a “falta” e o “hiato”. Temos um chamado para cultivar o jardim!
Há três tipos de reação diante do mundo. A primeira, aceitar a estabilidade e a estagnação, a confortabilidade dogmática, aprisionada por um determinado gueto cultural. Um estado de permanência no útero materno. A segunda, um salto no escuro, uma vida sem raiz, sem memória, sem tradição, lançado no novo, no relativismo e no vazio. Um estado de orfandade. Ou finalmente, a terceira reação, sermos como ''o escriba versado no reino dos céus, que é semelhante a um pai de família que tira do seu depósito coisas novas e coisas velhas.” [1] Um estado de sabedoria.
Nem estagnação, nem desenraizamento. O desafio é manter uma postura hermenêutica, como um intérprete que sabe lidar com as novas demandas sem perder a memória. Ele sabe tocar no mundo novo sem perder a referência da história. Consegue ler as novas tendências sem perder o frescor dos clássicos.
Não dá para viver o novo sem as ferramentas do antigo. Não dá para ler o mundo sem as letras que a história nos legou. Nem como feto, nem como órfão, apenas como ancião sábio pelas mechas brancas.
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[1] Mt 13:52.