Mostrando postagens com marcador Yom HaShoah. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Yom HaShoah. Mostrar todas as postagens
11 de abr. de 2010 | By: @igorpensar

Holocausto: Onde estava o homem?

Por Igor Miguel

Em dias de negação do holocausto, de oposição ao sionismo, penso que é fundamental esta breve reflexão.

Hoje se comemora o Yom HaShoá - יום השואה - Dia de Memória pelo Holocausto. Na verdade "holocausto" não traduz o termo Shoá. Shoá se traduz psicologicamente como um golpe de aniquilação e violência intraduzíveis. Sendo assim, a melhor forma de lidar com a expressão é preservá-la em seu formato original, mantendo sua intraduzibilidade.

Todo ano, para aguçar minha lembrança do que é a Shoá, lembro-me da frase de Abraham Joschua Heschel:
A pergunta sobre o holocausto não é 'Onde estava Deus?', mas 'Onde estava o homem?'.
Esta máxima de Heschel é multifacetada, como as máximas judaicas costumam ser. Esta frase desencadeia muitos processos na mente e no coração.

Na primeira metade do século XX a humanidade e a modernidade lançavam-se em uma fé cega no desenvolvimento, na ciência, na racionalidade e na tecnologia. Os dogmas antes afirmados pela religiosidade convencional, traduziam-se na era dos nacionalismos em termos de ideologias políticas e teorias científicas (desculpem a redundância necessária).

A solução final, a aniquilação dos judeus como resposta ao "problema judaico", foi posta em prática em uma articulação científico-multidisciplinar, em que engenheiros, químicos, biólogos, prestaram serviço à engenharia da destruição. De fato, o mundo foi uma coisa antes e depois de Auschwitz. Após os campos de extermínio houve uma decepção com as certezas científicas e com as pretensões da ciência, afinal, o mundo dito civilizado cometeu a maior barbárie da história.

Barbáries sempre existiram. Mas barbárie racionalizada, calculada, projetada cientificamente, nunca antes. Loucura? Não! Tudo foi matematicamente calculado.

Sem uma ideologia "lógica" não haveria a "insanidade", sem a "racionalidade" da filosofia nazi, não haveria a "irracionalidade" da Shoá. A ideologia do Partido Nacional Socialista bebia em várias fontes, tendo em vista satisfazer os diversos públicos da nação alemã:

1) Para os místicos e espiritualistas: a noção místico-pagã da teosofia da Madame Blavatsky de superioridade espiritual do povo ariano e a inferioridade espiritual da "raça semita".

2) Para os protestantes: bastava o panfleto luterano intitulado 'Os Judeus e Suas Mentiras'.

3) Para os políticos: o mito de conspiração judaica através da obra forjada 'Os Protocolos dos Sábios de Sião'.

4) Para os católicos: o anti-judaísmo presente em obras dos grandes teólogos da patrística, a noção dos judeus como "assassinos de Cristo", "deicidas", etc.

5) Para os filósofos: a concepção de homem superior de Friedrich Nietzsche e seu antissemitismo em obras como O Anticristo.

6) Para os cientistas: a teoria darwinista, que era a base da teoria eugênica de pureza racial e superioridade de raças.

Quando a doutrina nazista ascendeu e dissolveu a República Weimar em 1933, o fez a partir de uma cocha de retalhos, de discursos presentes nos vários setores da sociedade alemã. Do mar revolto subiu a besta que perseguiu os santos, sua fúria era contra a mulher, quis matá-la, abortar seu filho*.

O golpe foi violento! Um terço dos judeus do planeta foram aniquilados em 4 anos. Como a tecnologia de matança evoluiu nos 2 últimos anos da guerra (de 1944-45), no ritmo desta última fase, possivelmente os nazistas teriam aniquilado os judeus de todo planeta em mais 2 anos. Exagero? Não, absolutamente. Havia uma rede de trens, navios, transportes e espiões em todo mundo. O negócio foi sofisticado.

Hannah Arendt falava sobre a banalização do mal, que desumanizava tantos vítimas quanto agressores. A racionalização tinha a capacidade de anular a paixão, a paixão deveria se submeter à lógica. O afetividade e a sensibilidade deveriam ser domadas. Por isso, Sigmund Freud ao expor o poder deste lado "irracional" do homem, teve suas investigações tratadas como "doutrina judaica" e conseguiu fugir antes que fosse tarde. Era comum, pais de família que serviam a SS acordarem de manhã, beijarem seus filhos, rezarem o "Pai Nosso" e irem aos campos de extermínio matar judeus, como se fossem a um matadouro, assim o faziam por achar que prestavam um serviço à humanidade.

É impossível mensurar os prejuízos culturais e espirituais da Shoá. Se 70% dos prêmios Nobel são dados a judeus, imagine o prejuízo! Dos 18 milhões de judeus no mundo, 6 milhões foram aniquilados. Mas, como ouvi uma vez de uma pedagoga no Yad Vashem (Museu do Holocausto) em Israel:

Esqueçam os números, cada pessoa é um mundo!

Holocausto nunca mais!


_________
* Inspirado em Apocalipse 12 e 13.