Por Igor Miguel
*Este texto é uma adaptação a uma pergunta importante enviada por um dos participantes do post "Clareando...", identificado como Jonas.
Minha resposta ampliada seria:
Olá Igor, gostaria de saber onde fica Deus, ou como queira "Deus Pai", nesse contexto de fé. Leio seu blog e até agora só vi espaço para Jesus, "o filho", e o Pai como fica? Ou não fica? Já parou para pensar que a proposta cristã, onde a salvação é Jesus, só tem 2000 anos? Quem salvava antes? (Jonas)
Primeiro: quem é o Pai? A "paternidade" de Deus só foi bem desenvolvida no Novo Testamento, principalmente pela revelação do Filho de Deus, Jesus Cristo.
O termo "Pai" era uma referência a todos os aspectos invisíveis de Deus., aqueles atributos que nenhum homem pode conhecer diretamente. João 1:18 é claro quando diz que "ninguém jamais viu a Deus". Entretanto, o Pai se dirige a sua criação, deseja se relacionar com ela, porém a condição caída dos homens e suas limitações os impede de ter tal acesso.
Então, como os homens poderiam se relacionar com Deus no Antigo Testamento? Como este Deus se revelava? Ele se revelava principalmente por meio de "teofanias". Teofania é o termo usado para "manifestações de Deus", eram manifestações em que Deus se revelava de forma que o homem pudesse suportar. Dentre as teofanias mais conhecidas estão aquelas quando Deus se revelou como "Anjo do Senhor", como homem (quando mostrou as costas para Moisés), o anjo que lutou com Jacó etc.
Então os rabinos judeus levantaram um problema: se Deus é transcendente, ou seja, se Ele está para além da criação e das criaturas, como podem os homens terem acesso a Ele? Uma resposta seria: por meio das "teofanias". Por isso, as traduções aramaicas do Antigo Testamento, conhecidas como Targum (no plural Targumim), em muitas passagens em que Deus se revela em forma "humana" (antropomorfismo) ou coisa do gênero, geralmente se faz uso da expressão aramaica: Memra מאמרא.
Memra é o termo aramaico para a expressão em português "palavra", seu correspondente grego seria logos λογος. Com esse termo os escribas judeus indiretamente afirmavam enfim, que sem a mediação da "Palavra" (memra), Deus jamais seria conhecido.
Da teologia do memra, desenvolveu-se a compreensão de João, de que esta "Palavra" este "Verbo" que revela o Deus Transcendente (o Pai), se faz carne e habita entre nós (João 1:1-14). O que significa, que mesmo no AT, toda compreensão do Pai dava-se por meio do Verbo de Deus - o Messias. O conhecimento de Deus era então mediado e não imediato.
"Ninguém jamais viu a Deus; o filho unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou." (Jo 1:8 - ARC)O Pai é possuidor de todos os atributos invisíveis da divindade. Ele é a fonte de tudo, dEle procedem o Filho (gerado e não criado Hb 1:5) e o Espírito Santo, dádiva do Pai, por intercessão do Filho (Jo 14:16). Dessa forma, o conhecimento do Pai é impossível autonomamente. Ninguém pode conhecê-lo sem o Filho, sem o "verbo de Deus".
O texto abaixo, mostra um tempo, em que o Pai se desvelará diretamente aos seus eleitos, observe, que antes disso, Jesus (o Filho), tem toda primazia, até que tudo seja julgado e colocado debaixo de seus pés, quando enfim, Deus será tudo em todos e o próprio Filho (Jesus) se sujeitará ao Pai.
"Porque todas as coisas sujeitou debaixo dos pés. E, quando diz que todas as coisas lhe estão sujeitas, certamente, exclui aquele que tudo lhe subordinou. Quando, porém, todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então, o próprio Filho também se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos." (I Co 15: 27-28)A primazia é de Jesus, para Ele todas as coisas convergem, quem honra o Filho honra o Pai, que vê o Filho vê o Pai. O que não significa que Ele é o Pai em sua função trinitária, mas, é ELE (Jesus) quem O revela (o Pai).
Jesus como gerado, é co-substancial (tem a mesma natureza divina) do Pai, mas seu papel e função são distintos, seu papel pessoal é distinto. Importante mencionar, que quando as pessoas se relacionavam com Deus, por meio do memra ou suas teofanias (como a shechiná que merece um estudo), não o tratavam como uma "semi-divindade" ou um "demiurgo", ou simplesmente um anjo, o tratavam nos termos da divindade, de Deus mesmo. Abraão, quando da visita do anjo, se dirige a Ele como YHVH. Neste sentido, Jesus, o Verbo, é algo para além de uma "teofania" (manifestação), pois nEle habita corporalmente a plenitude da divindade (Cl 2:9).
Lembro-lhes, que JESUS o VERBO não é apenas uma "representação" (como afirmei em um artigo escrito há alguns anos atrás). Ele é co-eterno e co-substancial com o Pai, o que significa que Ele é fundamentalmente e essencialmente DEUS. Sem qualquer fragmentação de sua natureza. Porém, simultaneamente, se distingue dEle em seu papel divino. Se assim não for, fomos libertos por um "representante" e não por Deus. E temos vários textos como Filipenses (Fp 2:6-7) que deixam claro que Ele (Jesus) abriu mão (grego kenosis) de sua subsistência divina para se tornar semelhante aos homens.
Em suma, quanto a divindade: UNIDADE (monoteísmo). Quanto a seu papel redentor e pessoalidade: DISTINTO (complexidade).
Existe um "paradoxo" na trindade, mas nunca uma "contradição". No paradoxo coisas aparentemente distintas podem conviver sem se anularem, na contradição isto não ocorre. Jesus está em unidade na divindade, Ele não é um "Deus Autônomo" o que incorreria em "idolatria", e também não é simplesmente um "representante", um arquétipo, pois Ele é co-substancial em absoluta unidade com o Pai.
Para entendermos esta "economia" (lit. 'a ordem da casa') da trindade, cito um trecho interessante do livro MATOS, Alderi Souza. Fundamentos da Teologia Histórica: São Paulo: Ed. Mundo Cristão, 2008. sobre o desenvolvimento da doutrina entre os pais capadócios:
"Uma característica distintiva dessa abordagem da Trindade é a prioridade atribuída ao Pai: ele é a fonte ou origem da Trindade, o fundamento de sua unidade. O ser do Pai é comunicado tanto ao Filho quanto ao Espírito de maneira distinta: o Filho é 'gerado' do Pai e o Espírito 'procede' ou 'emana' do Pai." (p. 68)
O que significa que a primazia do Pai, se reconhece no Filho, que dEle procede.
"Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a PRIMAZIA." (Cl 1:18).