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12 de mai. de 2014 | By: @igorpensar

O Alienista e a Alienação

Por Igor Miguel


Foi veiculado pela impressa televisiva e eletrônica, o recente projeto de elaboração de uma versão mais "fácil" da obra "O Alienista" de Machado de Assis. O projeto aprovado será financiado com fundos públicos de incentivo à cultura. A proposta é tornar acessível obras clássicas da literatura brasileira. A começar, por esta obra deliciosa de Machado.

A polêmica se polariza entre progressistas que são favoráveis à adaptação e conservadores que são favoráveis ao formato clássico da obra.  Bem, minha opinião vai mais pro espectro conservador. E digo os motivos educacionais de meu favorecimento a este posicionamento mais do que àquele.

As objeções de pedagogias mais progressistas irão no sentido de que a postura conservadora inclina-se a um tipo de elitismo excludente. Mas prefiro um posicionamento mais cirúrgico: o que é excludente neste país é uma pedagogia que não desafia, mas se simplifica baseado no argumento de inclusão de classes menos favorecidas. E isto acontece necessariamente porque ao invés de "puxarmos" os que estão em níveis de aprendizagem menos favoráveis, reduzimos a qualidade do ensino, alegando fins sociais inclusivos.

Nesse ponto, recorro ao psicólogo da educação Reuven Feuerstein que defende a tese de que inclusão não é necessariamente a que aceita ou se conforma com a estrutura cognitiva do educando. Mas, que em um tom de inconformismo, propõe desafios cognitivos que criam instabilidades, uma desarranjo estrutural, pois aprendizagem só acontece em tais situações (retomo a tese de Piaget de acomodação e assimilação). Logo, em algum sentido, não aceitamos nossos alunos como estão, queremos que cresçam, que se desenvolvam e tenham seu repertório simbólico enriquecido. Claro que existe aí um princípio da psicologia mediacional que sou favorável: o processo formativo de um aluno não pode ser tão desafiador a ponto de frustrar o aluno e nem tão fácil a ponto de enrijecê-lo. A ideia é criar uma liminaridade didática que o aluno consiga dar saltos viáveis em um processo de enriquecimento explorando a plasticidade de sua capacidade de aprendizagem. 

Baseado nesta postura de "aprendizagem baseada no desafio" que os educadores e a educação deveriam viabilizar o fornecimento de pré-requisitos simbólicos, ampliação do repertório linguístico e um bom programa de educação cognitiva (desenvolver a capacidade de pensar), e assim, possibilitar a leitura de obras da altura de Machado de Assis, em seu texto original.

Neste ponto, chegamos a uma falácia pedagógica muito recorrente em nossas escolas públicas, aquela que sustenta a inclusão como mera facilitação ou infantilização das interfaces pedagógicas. Ao contrário, uma educação inclusiva é aquela que amplia o universo do estudante, promove competências intelectuais e fornece ferramentas cognitivas, e neste caso, interpretativas, para que ele possa ter acesso ao que já existe. E não, adaptar a cultura às limitações que aí estão por falta de educação básica de qualidade.

Não vou nem chegar nas perdas inerentes a uma adaptação literária. Que qualquer um que lida com traduções ou versões reconhece.

Então fica aí o desafio: o que precisamos não é o empobrecimento de nosso patrimônio cultural, mas o enriquecimento da capacidade intelectual de nossos alunos. Mas, sabe como é, isto demandaria alta qualificação docente e da própria dinâmica escolar. Isto implicaria em uma radical reforma educacional. Fica aí o desafio.
19 de ago. de 2012 | By: @igorpensar

Ingênua Fé

Trecho do poema
de
Machado de Assis
(1839-1908)



"Tão poderosa é essa
Ingênua fé, que inda negando o nome
Do seu Deus, confiada aceita a morte,
E guarda puro o sentimento interno
Com que o véu rasgará da eternidade?
Ó Nazareno, ó filho do mistério,
Se é tua lei a única da vida
Escreve-ma no peito; e dá que eu veja
Morrer comigo a filha de meus olhos
E unidos irmos, pela porta imensa
Do teu perdão, à eternidade tua!"