Por Igor Miguel
Martin Buber já denunciava o uso instrumental do "outro", que neste caso não é encarado com dignidade enriquecedora, alteridade. Se o "outro" se torna objeto, o "eu" se torna sujeito, sujeitando todos ao redor de sua messianidade.
Grande tratamento é a desconstrução narcísica, o despir-se do velho homem e a constatação de que a plenitude não está em mim. Sim! Chegar à bela conclusão que meu desempenho e performance são pueris ante a grandeza da humilhação de Deus na cruz. Ele abriu mão, esvaziou-se. E eu? Continuo procurando me encher, continuo com sentimentos triunfalistas de que vou mudar o mundo, mudar a história, carregando um complexo de divindade.
Enquanto homens, queremos nos manter na história, perpetuar nossa altivez no tempo, mas, só Jesus Cristo, conseguiu mudá-la e instaurou-se no meio do calendário, dividindo a cronologia em antes e depois dEle. A introdução de Deus na história, a encarnação, é o mem entre o alef e o tav[1]. Certamente, Jesus uma vez crucificado, na horizontalidade da história, verticalizou-se formando uma cruz, encruzilhada entre rotina e teofania.
O cristianismo tornou-se despensa de homens que renunciaram o narcisismo, sacrificaram sua própria imagem, para tornar a áurea glória de Cristo conhecida. Negaram a admiração, para convidar os homens a se tornarem à imagem de Deus em Jesus. Em outras palavras, vale a pena "descer a serra" e deixar os apetrechos, memórias, aplausos, honra tudo caindo pelo caminho, para que no fim, só permaneça o Deus da eternidade, resplandecendo em toda sua majestade nos altos montes.
Enfim, o cristão é este sujeito sui generis que trocou a supremacia da história, pela supremacia da intrometida eternidade. Aparentemente, um pequeno cisco que mudou o ângulo de visão do espelho:
E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito. (II Co 3:18)
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[1] A palavra hebraica para verdade (emet - אמת) é formada pelas letras alef, mem e tav, que são justamente, uma letra do início, meio e fim do alfabeto hebraico. O pensamento judaico, por isso, considera o conceito de verdade como uma totalidade, uma plenitude, com início, meio e fim.