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13 de mar. de 2015 | By: @igorpensar

Repentina Estreia

Então imagine a cena: todos vivendo suas rotinas, e lá vai ele, um cristão ordinário, junto a suas tarefas diárias. Liberto dos ideais de sucesso, de projetos fúteis e secularizados de felicidade. É verdade, ele vê a deformidade, a feiura, mesmo quando seu mundo parece esteticamente limpo, como em ruas civilizadas, mas tudo é excessivamente árido, impessoal e frio. Mesmo assim, ele vê a vida pelas lentes da esperança, realista é verdade, mas ele espera. Pacientemente espera um dia quando a tela se rasgará, o véu se romperá e tudo ruirá à voz estrondosa. Sim, as cortinas da nova realidade se abrirão! Então, o real de outrora se parecerá uma ilusão, uma apática e entendiante sombra.

Naquele dia, uma luz de doer invadirá o mundo, neste dia, tudo será muito rápido, repentino, não haverá tempo para artimanhas, brincadeiras conspiratórias e engenharia social. Ela descerá pronta, a Cidade de Deus virá edificada com sangue de mártires e com orações de santos. Naquele dia, tudo que não foi feito sobre fundamento eterno, se tornará transitório e se dissolverá. Só haverá uma cidade e um trono. Até as experiências antes consideradas mais concretas, se tornarão utopias diante da densidade desta nova realidade. Nela se ouvirá a Canção de Moisés e a Canção do Cordeiro. A justiça e a misericórdia serão seu fundamento.

Bem, é bem assim, que um cristão toma seu café e sai para o trabalho todos os dias: apenas esperando as cortinas se abrirem e um novo mundo fazer a sua estreia.

"Aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Senhor Jesus Cristo" (Apóstolo Paulo, Tt 2:13).


25 de nov. de 2010 | By: @igorpensar

Apocalipse now!

Por Igor Miguel

"... a questão da literatura apocalíptica não é a predição, mas um desmascarar - desvelar a realidade ao redor de nós como ela realmente é [...] O que nós precisamos então, é um tipo de apocalipse contemporâneo - uma linguagem e um gênero que vê através das engrenagens e nos revele o caráter idólatra e religioso das instituições contemporâneas..." (SMITH, James K.A. Desiring the Kindom: worship, worldview and cultural formation. Grand Rapids: BakerAcademic Pub., 2009. p. 92. tradução nossa).

O que me impressionou neste trecho do livro de James K.A. Smith, dentre outras coisas que me impressionaram, é que ele propõe uma outra abordagem de livros como Apocalipse. Comumente tratamos esta obra bíblica como um livro apenas de predições proféticas ou de uma escatologia futurista. Entretanto, nos esquecemos que o termo "apocalipse", um termo grego que significa "revelação", além de ter o sentido de uma revelação do futuro, envolve uma descortinar de estruturas iníquas. Grande parte das visões de bestas, prostitutas, insetos demoníacos, reis e cavaleiros apocalípticos, são impressões divinas em uma mente judaica, conectadas às predições proféticas do passado ou de uma substancial tradição e imaginário apocalíptico outrora anunciado, tendo em vista denunciar, desvelar a verdadeira face do mundo, da Babilônia, do reino paralelo ao Reino de Deus, que os homens querem constituir:
Caiu! Caiu a grande Babilônia e se tornou morada de demônios, covil de toda espécie de espírito imundo e esconderijo de todo gênero de ave imunda e detestável, pois todas as nações têm bebido do vinho do furor da sua prostituição. Com ela se prostituíram os reis da terra. Também os mercadores da terra se enriqueceram à custa da sua luxúria. Ouvi outra voz do céu, dizendo: Retirai-vos dela, povo meu, para não serdes cúmplices em seus pecados e para não participardes dos seus flagelos; porque os seus pecados se acumularam até ao céu, e Deus se lembrou dos atos iníquos que ela praticou. [...] Ora, chorarão e se lamentarão sobre ela os reis da terra, que com ela se prostituíram e viveram em luxúria, quando virem a fumaceira do seu incêndio, e, conservando-se de longe, pelo medo do seu tormento, dizem: Ai! Ai! Tu, grande cidade, Babilônia, tu, poderosa cidade! Pois, em uma só hora, chegou o teu juízo. E, sobre ela, choram e pranteiam os mercadores da terra, porque já ninguém compra a sua mercadoria. (Ap 18:2-11).
O gênero apocalíptico precisa ser retomado, esta é a ideia, precisamos deste gênero literário que levanta a "saia" da prostituta babilônica e denuncie suas vergonhas. Neste caso, as implicações políticas de Apocalipse são inimagináveis.

O que Deus mostra pra João em Apocalipse é que o que parece próspero e excitante, bem como toda busca frenética por expansão comercial, os prazeres, cheiros e cores, e a exploração sensual de seu tempo e mesmo as relações de poder de impérios que ascendiam e caíam, eram a face ilusória de um mundo tomado por demônios, governado por homens possessos, por palavras de blasfêmia e instituições que mais parecem Leviatãs e bestas feras do que estruturas burocraticamente organizadas.

Apocalipse é um gênero que revela que toda estrutura iníqua, o vinho da prostituta babilônica, a ideologia sedutora da pax romana, é construída ao preço de martírio dos santos, daqueles que denunciaram as vergonhas dos poderosos e afirmavam o senhorio de Cristo.

A literatura apocalíptica mais do que um livro de desespero é uma denúncia esperançosa, afirma o juízo eminente sobre estas estruturas do pecado, e por outro lado, o triunfo final dos santos, a vingança sobre o sangue dos mártires que perderam suas vidas por causa de seu compromisso com a justiça:

Aleluia! A salvação, e a glória, e o poder são do nosso Deus, porquanto verdadeiros e justos são os seus juízos, pois julgou a grande meretriz que corrompia a terra com a sua prostituição e das mãos dela vingou o sangue dos seus servos. (Ap 19:1-2)

A corrupção política, as campanhas pela naturalização do pecado, articulações políticas pela criminalização de valores judaico-cristãos, o consumismo e a mercantilização de bens culturais, a venda de títulos sacerdotais e a prostituição religiosa, precisam ser denunciadas em tom apocalíptico, com a mesma veemência e linguagem escatológica dos primeiros cristãos. O desafio é aproximar escatologia e história, apocalipse e política. A missão do apóstolo João e nossa missão.
19 de nov. de 2010 | By: @igorpensar

Morar no céu ou na terra?*

Por Igor Miguel

Lembro-me quando mais jovem, ao dar início a meus estudos bíblicos, eu pensava: Se um dia houver um destino final para os santos, este destino tem que estar nos últimos capítulos da Bíblia. Minha resposta prévia e expectativa era encontrar o que lá? O céu, naturalmente, afinal, os cânticos, os pastores, minha mãe, todos falavam que um dia os justos morariam naquele lugar.

Para minha surpresa o que encontrei lá foi o seguinte texto:
Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo. Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. (Apocalipse 21:1-3)
O que me surpreendeu em uma leitura simples do texto, foi que a história bíblica não encerrava com pessoas indo ao céu, mas ao contrário, alguma coisa do céu vinha de encontro a uma terra renovada. Depois as descrições dos últimos capítulos mostram uma terra maravilhosa, com povos e nações subindo a Nova Jerusalém para levar suas riquezas e honras.

Assim, descobri que a Bíblia não é um livro que convida os homens a escaparem do mundo, a salvação envolve uma restauração da própria criação. O mundo criado por Deus é muito bom, conforme encontramos em Gênesis, e mais, assim como Deus inaugura um novo homem pela ressurreição de Cristo, ele inaugura também uma terra nova.

Outra coisa que descobri é que temos que ter cuidado com o termo "novo" na Bíblia, esta expressão não tem o sentido moderno de "algo que substitui o velho", o termo tem raízes no hebraico, a expressão chadásh [חדש]. Chadásh tem ligações semânticas com o termo hebraico para lua - chôdesh - que é um astro cuja aparição se renova de um ciclo ao outro, daí as celebrações da lua nova [rosh chodêsh] no calendário judaico, como uma celebração da renovação dos meses neste calendário lunar.

A expressão "novo céu e nova terra" não é a inauguração de um novo planeta, mas a renovação da criação de Deus inaugurada no Gênesis, que depois de processos de fusão e purificação, será reapresentada renovada, restaurada e recondicionada para os santos. Paulo em sua carta ao Romanos assevera este ponto quando diz:

A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus. Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora. E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo. (Rm 8:19-23).

Interessante como o cristianismo em suas principais correntes, como aquelas oriundas do pietismo evangélico, tem dificuldade com esta abordagem. Entretanto, os discípulos e os apóstolos, bem como os ramos reformados do cristianismo, entre seus pioneiros, não acreditavam em uma fuga do mundo, um escapismo doutrinário, ao contrário, encaravam a criação e sua presença na história de forma positiva, pois sabiam que sua ação na "terra" é antecipatória do Reino que está para ser desvelar perante os homens.

Uma teologia de fuga da realidade, que propõe que a terra se destruirá em um hecatombe final, afeta profundamente a atuação dos homens em seu tempo presente. Privando-os de atuarem como co-regentes da terra que será em breve redimida e que está em gemidos, aguardando a plena revelação dos filhos de Deus.

"Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra." (Mateus 5:5)

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*Esta reflexão nasce inspirada na excelente palestra do amigo Rodolfo Amorim no V Ciclo de Palestras do L'Abri.