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11 de abr. de 2011 | By: @igorpensar

Diz o Rabi: Se eu fosse cristão...

O rabino Herman Sanger (1909-1980) escreveu um panfleto em novembro em 1943 com uma reflexão intitulada "Se eu Fosse um Cristão". Sanger fez algumas palestras transmitidas pela Rádio ABC. Vejam que incrível as palavras deste renomado rabino:

“Se fosse cristão tão devota e legalmente como sou judeu, o quê faria? Tomaria grande orgulho, como estou certo que vós fazeis, no maravilhoso relato da Cristandade e do Cristianismo como força construtiva na história da civilização. Nos dias da escuridão estética e moral mais escura, conventos e mosteiros cristãos eram refúgios de aprender, o lar de arte, e de santuários e igrejas a reta luz de fé elevadora e enobrecedora reluzia. Relembraria isso e me gloriaria no fato. Devotaria ainda qualquer esforço da minha vida para o fim que a força civilizadora da minha Igreja fosse feita para contar efetivamente no esforço contemporâneo da humanidade para construir um mundo digno da humanidade, criando uma vida que reflita a inspiração divina. [...] Se fosse cristão, estaria agitado no profundo da minha alma pelo pensamento que eu e a minha Igreja eram silenciosos por tanto tempo, e que encontramos expressão só quando a tragédia alcançara o seu clímax abominável. Resolveria fazer qualquer coisa no meu poder para ajudar e salvar - abrir portões de países livres, onde os torturados pudessem encontrar refúgio, possibilitar aos que manejam escapar a encontrarem lar na Palestina, a terra dos seus antepassados.”

Maiores informações: http://www.jcrelations.net/pt/?item=2166
29 de nov. de 2010 | By: @igorpensar

James Parkes: judaísmo e cristianismo

Por Igor Miguel*

James Parkes (1896-1981) foi clérigo anglicano, historiador e ativista social. Em 1929 escreveu sua primeira publicação intitulada The Jew and His Neighbour (O Judeu e seu Próximo), onde propõe a abertura de um diálogo entre cristianismo e judaísmo, especificamente interessado em uma reavaliação de cristãos em relação a religião que foi matriz cultural de sua fé.

Parkes se engajou fortemente na denúncia de algumas produções cristãs de cunho antijudaico e antissemitas, tratou estas questões de forma muito equilibrada, assumindo as tensões entre ambos os lados (judaísmo e cristianismo), fruto deste trabalho nasceu sua famosa obra: The Conflict of the Church and the Synagogue (O Conflito da Igreja e a Sinagoga) escrito em 1934. Sendo esta sua obra magna dentre seus 33 livros e centenas de artigos publicados.

Graças a Parkes, hoje há um centro de estudos de relação entre judeus e não-judeus na Universidade de Southampton (Parkes Institute), fundado por ele em sua carreira acadêmica independente. Um dos maiores centros de referência desta modalidade de estudos na Europa, perdendo talvez só para Institutum Judaicum Delitzschianum de Franz Delitzsch na Alemanha.

Traduzo abaixo um trecho de um de seus artigo sobre o diálogo entre judaísmo e cristianismo, um de seus melhores artigos. Compartilho os mesmos sentimentos deste cristão anglicano pioneiro na aproximação destas duas tradições há décadas atrás:
"Neste tempo e geração, eu não apenas não desejo ver a conversão de todos os judeus a presente forma de cristianismo, e tão pouco busco a união de duas religiões. Isto pode acontecer no futuro. Mas, isto só poderia vir a acontecer quando eu posso abertamente trazer tudo que valorizo da tradição cristã a um tanque comum onde o judeu possa igualmente trazer abertamente tudo que ele valoriza da tradição judaica. E, certamente este dia não chegou ainda, e em nossa atual circunstância uma religião feita de remendos e compromissos e sínteses superficiais seria um monstro carente das muitas qualidades que cada tradição poderia legar de seus respectivos permanentes valores para a humanidade." (James Parkes – Judaismo e Cristianismo – tradução e grifo nosso).
Amei este trecho!
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*A introdução biográfica foi baseada em textos da web e da wikipedia em Inglês no verbete James Parkes (clergyman)
14 de dez. de 2009 | By: @igorpensar

Cristianismo sim! Algum problema?

Por Igor Miguel


Em círculos judaicos é recorrente uma abordagem negativa a respeito do cristianismo. Às vezes tão honesta que beira à injustiça. Não há dúvidas de que judeus sofreram muitas agruras em nome de falsos seguidores de Cristo. Não há dúvidas que a Alemanha Nazista - por exemplo - era composta de mais de 50% de luteranos (claro, já identificados com um teologia liberal, em sua maioria). Parece óbvio que muito do discurso antissemita medieval sustentava-se por "frases isoladas" ou mesmo explícitas de uma postura "anti-judaica" entre alguns Pais da Igreja.

Porém, reduzir o cristianismo a falsos-cristãos, seria tão incoerente quanto reduzir o judaísmo a falsos-judeus. O joio era previsto pelo próprio Jesus, e mesmo Paulo, o apóstolo, já alertava a Igreja de Roma a respeito de uma possível jactância da parcela gentílica da Igreja em relação aos judeus (Rm 11). Ainda sim, deve-se admitir que não é surpresa, nem entre os primeiros discípulos, a existência de falsos-irmãos. No cristianismo há muitos "Judas", como no judaísmo, deve haver muitos "Tsvi Shabatai", "Saduceus Aristocratas", fundamentalistas religiosos, que desqualificam a essência do judaísmo. Reduzir da mesma forma o judaísmo a tais "sujeitos" seria desonesto.

O termo cristianismo foi usado pela primeira vez no período pós-apostólico, no II século d.C. Inácio de Antioquia, que foi responsável pelo uso inédito do termo (ao menos estes são os registros). Alguns críticos veem na criação do termo um problema para os seguidores de Jesus. Supõe-se que a procura por uma identidade, independente do judaísmo, traria prejuízos à fé chamada "cristã". Mas, como veremos, este é um receio parcialmente compreensivo, e em grande medida, exagerado.

Inácio não tinha qualquer pretensão conspiratória quando criou o termo 'cristianismo', na verdade, não havia outra opção. Desde o ano 95 d.C. quando os judeus se reuniram em Yavne (Jamnia) para um conselho que redefiniria o rumo do judaísmo pelos próximos séculos, fora elaborado mecanismos religiosos e litúrgicos para repelir a presença dos "nazarenos" (judeus crentes do I século) do círculo judaico (por exemplo a criação da Birkat Ha-Minim - Benção dos Hereges). A rejeição inicial não foi da Igreja, foi do próprio judaísmo. Se a situação era difícil para esses primeiros judeus seguidores de Jesus, o que dirá aos gentios recém chegados do paganismo. Eles eram um grupo com grandes problemas identitários: por um lado não eram judeus (pois não se submetiam à conversão formal ao judaísmo), por outro, nem eram pagãos (pois não frequentavam os cultos pagãos).

A sinagoga não queria mais os seguidores de Jesus, o mundo pagão também repelia os gentios seguidores de Jesus, a única saída seria a afirmação de uma identidade independente, tanto do mundo pagão como do judaico. Inácio, quando afirmou o aspecto "universal" (católico) da Igreja, queria deixar claro que a "Igreja" era uma instituição para além dos limites "étnicos" e das lealdades nacionalistas. Mas, 
quais foram as principais consequências da inauguração, ao menos terminológica, do cristianismo?

Consequências positivas:
a expansão da fé cristã, que sem exagero (basta uma olhadela nos atuais estudos), seria um tipo de "judaísmo minimalista" para acolhimento dos gentios à fé em Jesus e ao monoteísmo derivado deste. O cristianismo é o cumprimento das promessas de salvação universal (católica) dada aos patriarcas. De alguma maneira, a catolicidade da Igreja é abraâmica. Tal judaísmo minimalista (cristianismo) dialogava bem com as culturas pagãs, principalmente em províncias e territórios onde a sinagoga já não estava presente (países nórdicos - por exemplo).

Consequências negativas: o distanciamento da matriz hebraica produziu gradualmente um perda da cosmovisão judaica; uma cristologia excessivamente preocupada com a transcendência, ofuscando a humanidade e a identidade cultural do verbo quando se fez carne. O diálogo com a cultura grega, por vezes foi promissora, por outras vezes, a síntese entre "cristianismo" e "cultura grega" trouxe grandes problemas para o seio do cristianismo. Nada que o movimento espiritual de reforma na Igreja na cuide ao longo da história. Basta se familiarizar com os temas da teologia histórica.

Dessa forma, o cristianismo torna-se um movimento legítimo, enquanto resposta do Espírito Santo na história em um momento de tensão entre a Igreja e Sinagoga. A ruptura seria inevitável e necessária. Neste sentido, o cristianismo deve ser honrado e respeitado como um fenômeno legítimo de acolhimento e reunião das nações ao redor do Messias judeu, Jesus.

Por outro lado, o cristianismo depara-se com uma tendência mundial, de visita e releitura de sua própria fé a partir das fontes judaicas. Vários escritores judeus, protestantes, católicos e reformados, dedicam-se ao estudo da língua hebraica, da tradição rabínica, dos Manuscritos do Mar Morto e outros recursos da tradição judaica para compreender e enriquecer sua própria vivência com o cristianismo, e por que não, do próprio judaísmo?

O que quero afirmar com esse breve texto é que o cristianismo é um movimento historicamente estabelecido, levantado por crentes piedosos, que na tensão com o judaísmo, viram-se obrigados a criar um espaço de acolhimento dos gentios convertidos a fé cristã. Nem tudo que é cristão é necessariamente apostólico, como nem tudo que é judaico é necessariamente mosaico. Pois ambos, desenvolveram suas tradições. Neste sentido, Alister McGrath apresenta que a melhor forma de lidar com a tradição é compreendê-la dinamicamente. Afinal, a tradição enriquece a fé ao afirmar experiências anteriores e é enriquecida em novos contextos culturais, demandas e experiências teológicas.
A tradição é relativa à revelação.

Não obstante, o cristianismo não está isento de algum tipo de crítica histórica ou religiosa, pois há elementos heterodoxos na diversificada tradição cristã que são incompatíveis com a fé apostólica, como por exemplo: as influências do tomismo aristotélico, o neo-platonismo, o gnosticismo, o marcionismo, o arianismo, o antinomismo, o legalismo pietista e assim por diante.

O cristianismo foi o grande precursor dos direitos humanos. E, em seu formato reformado, promoveu o avanço das pesquisas científicas e da produção de riquezas. O cristianismo implantou universidades em toda Europa e nas Américas; as primeiras academias brasileiras eram confessionais. O cristianismo erradicou a confusão politeísta e expandiu um monoteísmo transformador em lugares assolados pelo caos teórico e por crenças perversas que oprimiam mulheres e escravos. O cristianismo conseguiu popularizar e cumprir em muitos lugares, como a experiência do neo-calvinismo holandês, um tipo de atuação antecipadora das profecias. Os profetas judeus jubilariam se vissem o que Abraham Kuyper realizara na Holanda e o impacto de sua visão de mundo no universo reformado.

O cristianismo criou comunidades modestas, fervorosas, pensantes, atuantes e inspiradoras como L'Abri na Suíça com a família Schaeffer. Não foi em vão que Calvino ao fazer teologia em suas Institutas, o fazia a partir das Escrituras Hebraicas (Antigo Testamento), mostrando uma unidade entre os "testamentos", evitando a heresia marcionista, que ainda aterrorizava outras tradições dentro do protestantismo e do cristianismo medieval.

Penso, finalmente, que é possível uma experiência cristã real dentro do cristianismo. Uma pessoa pode desfrutar perfeitamente de Deus através da modalidade cristã de fé, pois de fato o cristianismo se estabeleceu criativamente como um movimento com tradição e espiritualidade próprias, e que vive um momento de redescoberta de suas raízes em Jerusalém, mas em um movimento que passa por Calvino, Agostinho, os Pais Capadócios, Niceia, os bispos judeus (citados por Eusébio), os apóstolos, o Messias, os profetas e a Torá
, curando assim, cismas históricos que com a ajuda da graça de Deus, em Cristo, reconcilia judeus e gentios (Ef. 2).