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16 de mai. de 2014 | By: @igorpensar

Curtíssima: a cruz e ação política

Tem uma dimensão política na cruz que é uma antítese a muita forma de se agir politicamente. A cruz é uma passividade ativa. Não é inércia, é de uma reatividade silenciosa. O crucificado não é um agente revolucionário, cuja plataforma é a violência militante. Ao contrário, os poderes o estão violentando na cruz. Todos os poderes temporais e espirituais estão despedaçando sua carne na cruz.

A violência que incidiu sobre Cristo é o que todas as pessoas querem fazer com Deus. Quando violento o outro, violo uma alusão ao Criador. No horizonte da experiência temporal, o ser humano é o que temos de mais próximo de Deus. Com a encarnação do Verbo, isto se radicaliza, o próprio Deus está entre nós em Cristo. Neste momento, nossas pulsões deicidas vão à última potência e massacramos o filho de Deus com requintes de crueldade.

Quem venceu? O crucificado venceu! Pois em sua aparente passividade, que em nada correspondia às expectativas revolucionárias dos zelotes, triunfava sobre seus algozes. Assim, tomava a chave da morte e do inferno. Triunfava sobre os que alegavam ter poder sobre a vida e a morte (característica do império romano). Não era uma revolução, era juízo e redenção. Deus estava vencendo e amando seus inimigos. E é precisamente este triunfo do amor que deveria estar no centro de nossas ações políticas.
25 de mar. de 2013 | By: @igorpensar

Páscoa: vencido e vencendo

Por Igor Miguel

A raiz da palavra hebraica para Páscoa* quer dizer "passar sobre".  Uma referência à passagem do anjo sobre o Egito, ferindo os primogênitos.  Páscoa é uma celebração importante, até hoje faz parte do calendário judaico e cristão.   Porém, entre cristãos, ela teve seu sentido dirigido ao evento da crucificação, sepultamento e ressurreição de Jesus Cristo.


As conexões são fortes.  Jesus é identificado no Novo Testamento e na tradição cristã como o "Cordeiro de Deus" ou Agnus Dei, uma referência ao cordeiro que era sacrificado durante a páscoa israelita.   Jesus Cristo se torna o inocente "cordeiro sem defeito de um ano" (Ex 12) que foi entregue pela libertação do povo.  Como foi dito pelo sacerdote Caifás: "Vos convém que morra um só homem pelo povo e que não venha a perecer toda a nação" (Jo 11:50), uma frase ambígua, que acabou se tornando uma profecia.


Não sei se algum dos leitores já viu o abate de um cordeiro.  Eu já vi.  Também já vi o abate de porcos uma vez.  E a diferença é impressionante.  Porcos lutam para não morrer, gritam e esperneiam.  Já cordeiros, ficam em absoluto silêncio.  Na ocasião, parecia que o cordeiro já sabia que iria morrer.  Parecia que ele estava pronto para seu destino.  Entendi a frase bíblica: "como ovelha muda perante seus tosquiadores" (Is 53:7).  O cordeiro fica absolutamente mudo.  O corte na jugular é definitivo e ele se entrega passivamente à morte.

Muitas pessoas podem alegar que nós cristãos nos gloriamos de uma coisa feia: a crucificação.  Aquilo ali não pode ser considerado um triunfo, mas uma derrota radical, alguns poderiam alegar.  Vaias, cusparadas, navalhadas, nudez, cravos e coroa de espinho.  O Filho de Davi não está no trono, está na cruz.  Como diria o hino clássico: "um emblema de vergonha e dor".

Na cruz e no esvaziamento, Deus estava anunciando que Ele, mesmo em sua fraqueza, é mais forte do que todos os poderosos deste século.  Cristo triunfou sobre o mal absoluto, não há mal no mundo comparado à morte inocente de Cristo.  Ele não era um simples homem, era o Filho de Deus, gerado de seu amor desde a eternidade.  E agora, lá estava ele, o mais inocente, puro e justo dentre todos no universo, exposto e vítima de nossa corrupção e maldade.  E, um pequeno e grande detalhe: fez tudo aquilo por puro amor incondicional. Ele amou os que o repudiavam.

Compartilho esta reflexão pascal com os seguintes ditos do saudoso John Stott em sua obra "A Cruz de Cristo":
O que parece (e deveras foi) a derrota do bem pelo mal, também é, e mais certamente, a derrota do mal pelo bem. Vencido, ele estava vencendo. Esmagado pelo poder inflexível de Roma, ele mesmo estava esmagando a cabeça da serpente (Gênesis 3:15). A vítima era o vencedor, e a cruz ainda é o trono do qual ele governa o mundo.
Uma boa reflexão e um edificante tempo pascal.
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* פסח [pêsakh]
4 de out. de 2010 | By: @igorpensar

Pão da Aflição

O que pensas pequeno jovem?
Agora desprovido de tua autonomia,
Te despistes de todos os amparos que te legitimavam.

Por que te retratas? Eis tu um estúpido!
Que na estupidez mantinha-se de pé erguido em seu próprio ego,
Sendo admirado pelos que te legitimavam.

Mas, um dia, um dia ele te pegou pelo cabelos.
Te colocou irresistivelmente de joelhos diante da cruz.
Lá, no "lugar" só o que ouvistes foram teus pecados sendo golpeados.
Sim, nos golpes e nos cravos de Teu Senhor, sob sangue inocente.

Agora, orgulhoso jovem, o que tens?
Não tens nada do que eles possam te aplaudir.
Não tens as lisonjas, os aplausos, estás em ruína.

Agora, que tudo rompeu sobre ti.
Agora, que estás em cacos.
Te colocarei sob os meus pés.
Lá encontrarás repouso e dignidade.
Silêncio, cura e reconstituição de tua alegria.

Sim, um dia você me pediu para não cair.
Não sabias das implicações daquela oração.

Agora, olha pra ti!
Não tens nada, nada que possam te aplaudir.
Apenas a minha mensagem escandalosa...
Que afirma minha perene misericórdia como aquilo...
Aquilo que escandaliza judeus e enlouquece gregos.

Não te preocupes meu filho, ele também foi amaldiçoado.
Não te preocupes, os religiosos também conspiraram contra ele.
Agora, "eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome"*.

Sim, tu tens apenas o madeiro,
A punhalada que Isaque não recebeu.
Te refugias no violentado.
Em suas chagas, tu também serás curado.
Mas, por enquanto, te fartarás no Lechem Oni**.

Aleluia!

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* Atos 9:16.
** Pão da Aflição [לחם עני]: o pão ázimo (sem fermento) comido na noite de páscoa, deste pão Jesus instituiu a ceia. Este pão simbolizava a aflição/tribulação dos filhos de Israel no Egito. Jesus se identificou com este pão, como um sinal de sua "aflição" na cruz, por isso disse: "Este é meu corpo que é partido por vós".