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8 de mar. de 2012 | By: @igorpensar

VI Simpósio Estudos Judaicos 2012


VI Simpósio Nacional de Estudos Judaicos 2012

O Centro de Estudos Judaicos da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (CEJ/FFLCH/USP) informa:

Chamada de Trabalhos e Formulário de Inscrição

VI Simpósio Nacional da Área de Estudos Judaicos do Programa de Pós-Graduação em Estudos Judaicos e Árabes - 19 a 21 de Junho de 2012

APRESENTAÇÃO

O Departamento de Letras Orientais (DLO) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo procura, através da realização do VI Simpósio Nacional da Área de Estudos Judaicos do Programa de Pós-Graduação em Estudos Judaicos e Árabes, dar visibilidade às atividades de pesquisa dos pós – graduandos, propiciando a troca de experiências de pesquisa entre Mestrandos e Doutorandos e de áreas afins, para que possam discutir diversas abordagens teóricas e metodológicas concernentes a Língua Hebraica, a Cultura e Literatura Judaicas.

Os pesquisadores-expositores terão a oportunidade de apresentar, em mesas temáticas, o estado atual de seus trabalhos e de ouvir colegas, orientadores e professores convidados, em um diálogo produtivo entre indivíduos que transitam pela mesma área de conhecimento.

OBJETIVOS

Com o VI Simpósio Nacional de Estudos Judaicos propomos um diálogo, uma troca de exercício de experimentação com áreas afins a Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaicas, propiciando intercâmbio entre pesquisadores/alunos Mestrandos e Doutorandos em nível nacional.

Destacamos como nossos objetivos:

1. Realizar o debate acadêmico sobre a pesquisa discente.
2. Atualizar as questões que envolvem os objetos de pesquisa dos docentes e discentes.
3. Contribuir para estimular o diálogo entre os alunos Mestrandos e Doutorandos, e desses alunos com especialistas internos e externos ao Departamento de Letras Orientais.
4. Dar visibilidade à produção discente.

JUSTIFICATIVA

O VI Simpósio Nacional de Estudos Judaicos é importante na medida em que fomenta o debate acadêmico, a partir de discussões, contribuições e orientações, possibilitando o aperfeiçoamento na formação, na pesquisa e na atividade de ensino dos discentes. Por isso, considera-se o VI Simpósio Nacional de Estudos Judaicos como uma prática acadêmica que procura dar visibilidade a produção das pesquisas do Departamento de Letras Orientais da FFLCH – USP. Nesse sentido, esse evento contribui significativamente para disseminar, socializar e compartilhar com outras Universidades do país as pesquisas realizadas na Universidade de São Paulo.

COMUNICAÇÕES

As comunicações versarão sobre temas de livre escolha de seus autores, com a ressalva de que deverão estar vinculados ao contexto das áreas concernentes aos estudos judaicos, a saber: língua, literatura, cultura, história, filosofia e áreas afins. Este critério será observado como condição necessária para a aceitação do trabalho.

CRONOGRAMA

20/02/2012

Chamada de trabalhos e abertura de inscrições.

30/04/2012

Prazo máximo para envio de ficha de inscrição e resumo da apresentação, preenchendo o formulário abaixo.

30/05/2012

Prazo máximo para envio do texto integral para publicação na Revista Vértices - página de submissões online:


(Aqueles que ainda não possuem login e senha de acesso, serão redirecionados para a página de cadastro, e deverão se cadastrar como autores para submissão de textos. Aqueles que preferirem, podem enviar o trabalho para o email do simpósio: simposiojudaica@gmail.com).

19 a 21/06/2012

Simpósio

LOCAL

FFLCH - Prédio de Ciências Sociais - Salas 8 e 14 – Térreo

Avenida Professor Luciano Gualberto nº 315
Cidade Universitária, São Paulo-SP / CEP: 05508-900
E-mail: simposiojudaica@gmail.com / Fone: (11)3813-6528

PUBLICAÇÃO

Os artigos apresentados comporão o CD de Anais do VI Simpósio Nacional de Estudos Judaicos e também os Números 12 e 13 da Revista Vértices, Revista dos Pós-Graduandos da Área de Estudos Judaicos do Programa de Pós-Graduação em Estudos Judaicos e Árabes do Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

As normas para publicação encontram-se no site da Revista Vértices, em Diretrizes para Autores, no endereço:http://revistas.fflch.usp.br/index.php/vertices/about/submissions#authorGuidelines.

Os artigos submetidos estarão sujeitos à aprovação da comissão editorial da referida revista.



11 de abr. de 2011 | By: @igorpensar

Diz o Rabi: Se eu fosse cristão...

O rabino Herman Sanger (1909-1980) escreveu um panfleto em novembro em 1943 com uma reflexão intitulada "Se eu Fosse um Cristão". Sanger fez algumas palestras transmitidas pela Rádio ABC. Vejam que incrível as palavras deste renomado rabino:

“Se fosse cristão tão devota e legalmente como sou judeu, o quê faria? Tomaria grande orgulho, como estou certo que vós fazeis, no maravilhoso relato da Cristandade e do Cristianismo como força construtiva na história da civilização. Nos dias da escuridão estética e moral mais escura, conventos e mosteiros cristãos eram refúgios de aprender, o lar de arte, e de santuários e igrejas a reta luz de fé elevadora e enobrecedora reluzia. Relembraria isso e me gloriaria no fato. Devotaria ainda qualquer esforço da minha vida para o fim que a força civilizadora da minha Igreja fosse feita para contar efetivamente no esforço contemporâneo da humanidade para construir um mundo digno da humanidade, criando uma vida que reflita a inspiração divina. [...] Se fosse cristão, estaria agitado no profundo da minha alma pelo pensamento que eu e a minha Igreja eram silenciosos por tanto tempo, e que encontramos expressão só quando a tragédia alcançara o seu clímax abominável. Resolveria fazer qualquer coisa no meu poder para ajudar e salvar - abrir portões de países livres, onde os torturados pudessem encontrar refúgio, possibilitar aos que manejam escapar a encontrarem lar na Palestina, a terra dos seus antepassados.”

Maiores informações: http://www.jcrelations.net/pt/?item=2166
26 de ago. de 2010 | By: @igorpensar

Raízes que Permanecem

Por Igor Miguel

Estou acabando de ler o livro Surpreendido pela Esperança de N.T. Wright e fiquei muito feliz em encontrar insights teológicos que já vinha escrevendo e ensinando desde 2001, e claro, muita coisa nova que não tinha se quer lido. Mas de fato, fui surpreendido pela "Esperança" e isto tem mais sentido do que o leitor, que passa por aqui, pode imaginar.

Como alguns sabem, venho dedicando alguns anos de minha vida em um esforço para manter o equilíbrio apropriado nas relações entre a teologia cristã e a teologia judaica. Entretanto, o mais difícil é este equilíbrio, afinal, ou supervalorizamos a herança judaica, ofuscando a centralidade de Cristo e os valores do cristianismo, ou supervalorizamos a tradição cristã de forma dogmática e seu anti-judaísmo não tratado, sem permitir que esta fé cristã seja enriquecida com um contato apropriado com suas raízes.


Ao ler alguns autores do cristianismo que entendiam os vínculos entre judaísmo e cristianismo, percebi, que não são poucos os estudiosos do meio cristão engajados nesta compreensão e que no final das contas, admitiam que um bom cristianismo não pode ignorar estes fundamentos. De fato autores como Oskar Skarsaunne, Francis Schaeffer, N.T. Wright, Brad Young, James Parkes, W.D. Davies e muitos outros, me surpreenderam quanto a esta abordagem.

O que me preocupa é o tom ácido adotado por algumas pessoas envolvidas neste tipo de diálogo. O que excetua os autores citados acima. Pois ao não serem cuidadosas com sua pretensa agenda teológica, acabam atingindo o único movimento historicamente constituído que pregou, carregou, anunciou Jesus Cristo por quase dezoito séculos. Neste ponto, tenho que ser honesto: não foi o judaísmo que se encarregou desta tarefa. Entretanto, será que o cristianismo rejeitou tanto assim suas raízes judaicas como escutamos frequentemente no senso comum?

Ora, que rejeição "total" é esta? Afinal, vejamos alguns elementos evidentemente judaicos ainda presentes no cristianismo:

Jesus Cristo: pode parecer óbvio, mas um obviedade omitida por muitos. Jesus Cristo é o que há de mais judaico no cristianismo. A afirmação de Jesus como salvador e Senhor tem origem nos profetas judeus, algo que os pais da Igreja e os reformadores, por mais "anti-judaicos" que fossem, jamais renegaram, Jesus é o cumprimento das palavras do profetas da Bíblia Hebraica (Antigo Testamento). Sem mencionar que Ele descende dos judeus segundo a carne (como afirma Paulo) e seus vínculos com este povo não é em vão. A propósito, se não houvesse nenhum vínculo genético entre Jesus e o povo judeu, isto tiraria todo crédito de seu papel messiânico.

Os Apóstolos: não há dúvidas, de que ao afirmar a fidelidade cristã à doutrina dos apóstolos, afirma-se com isso, uma fidelidade a apóstolos judeus, oriundos da terra de Israel, que foram convocados por Cristo propositalmente dentre os filhos de Israel, por questões óbvias, o que reserva maiores explicações.

A Bíblia: em especial o protestantismo, neste sentido, foi tão fiel a seus fundamentos judaicos, que adotou o cânon rabínico do Antigo Testamento, instituído no Conselho de Jamnia (Iavnnê), rejeitando o cânon grego (Septuaginta/LXX), que incluía os livros chamados "apócrifos". Neste sentido, a reforma teve profunda reverência ao que fora produzido pelo judaísmo. Não há nada mais judaico no cristianismo do que admitir um cânon de livros sagrados, compostos em sua quase totalidade por autores judeus (exceto Lucas). Apesar de que há um debate sobre as intensões judaicas (em Jamnia/Yavne 90 d.C.) sobre este cânon.

Liturgia: Elemento litúrgico cristão importante é a homilia, a leitura e explicação pública das Escrituras, eis uma prática oriunda das sinagogas judaicas, de um momento chamado de kriát Torá (leitura da Torá), sem mencionar os cânticos e recitações de confissões, credos e perguntas catequéticas, que remetem a própria forma rabínica de estudo (perguntas-e-respostas).

Ceia (eucaristia): o cristianismo, em geral, reconhece ao menos dois sacramentos com raízes no judaísmo: a ceia e o batismo. A primeira nasceu do Sêder judaico de Páscoa (pêssach). Curiosamente, a utilização de vinho, por exemplo, não tem origem bíblica, mas foi inserida no judaísmo pelo famoso rabino Hilel, é irônico como mais tarde, a eucaristia cristã eternizou e universalizou uma prática da tradição oral judaica. Sobre os vínculos entre a ceia e a tradição judaica, vale a observação de N.T. Wright:

[...] quando Jesus celebrou a Páscoa, os discípulos não imaginavam que estavam fazendo algo diferente da celebração original. Durante a celebração da Páscoa, os judeus costumavam dizer: "Esta é a noite em que o Senhor nos tirou do Egito", o que torna as pessoas sentadas ao redor da mesa não apenas herdeiros distantes da geração do deserto, mas também parte do mesmo povo. Tempo e espaço se unem. No mundo dos sacramentos, passado e presente são uma só coisa. Juntos, eles apontam para a libertação, que acontecerá no futuro.[1]

Batismo: Herança de uma longa tradição de imersões rituais presentes na prática judaica de purificação. Basta uma olhada no testemunho arqueológico ao redor do Monte do Templo em Jerusalém e em lugares como a região de Qunram no Mar Morto, que se saberá os verdadeiros fundamentos desta prática. A tevilá (imersão em hebraico) era uma prática largamente utilizada inclusive nas cerimônias de conversão ao judaísmo. Sendo um rito de passagem e renúncia ao passado pagão. Prática que foi incorporada pelo cristianismo e resinificada, quando assumiu a forma de sacramento.

Calendário: não parece, mas Igrejas Cristãs históricas ainda preservam um calendário litúrgico, com celebrações como páscoa e pentecostes. Celebrações de profunda relevância para a narrativa evangélica oriundas da cultura do povo judeu.

Poderia citar ainda muitos outros pontos e práticas cristãs que estão lá enraizadas na cultura judaica, mas, resignificadas e contextualizadas à novas circunstâncias culturais. Afinal, apesar do cristianismo originar-se entre os judeus, ainda assim, o cristianismo é uma outra coisa, não pode ser judaísmo, mas é judaico em seu fundamento.

A propósito, o termo "judaísmo" após o ano 90 d.C. (como já discutido em um post por aqui), assume conotações complicadas para a fé cristã. Associar-se ao judaísmo após este período tornou-se insuportável. O judaísmo tinha assumido uma agenda explicitamente apologética a respeito de tudo que se referia a Jesus e a seus seguidores. O judaísmo assumiu uma agenda político-revolucionária contra o império romano, o que não podia ser amparado pela comunidade cristã, crescentemente menos judaica e mais gentílica. Sem contar que a fé proposta por Jesus, desde o início, não tinha pretensões revolucionárias em termos políticos, como claramente afirmado por ele. A inserção de orações litúrgicas que ofendiam a fé "nazarena" tornou a tensão Igreja-Sinagoga cada vez mais complicada, a ruptura seria inevitável e providencial, naquele momento histórico, como já demonstrei no post acima mencionado.

Lembro-lhes, que a proposta deste artigo é deixar claro, que admitir e dialogar estas duas tradições, não significa assim, que o cristianismo deva abrir mão de sua herança histórica, de sua identidade e tornar-se uma sinagoga. O que seria literalmente uma aberração cultural e traria sérias implicações teológicas como: tensões identitárias, sobrecarga cultural judaica em ambientes não judaicos, elementos litúrgicos de um judaísmo resistente a Jesus (judaísmo rabínico) e a temida judaização etc. Porém, o diálogo é importante e o conhecimento de uma visão de mundo judaica, enriquece hermeneuticamente a compreensão das Escrituras e da própria espiritualidade cristã.

Cito agora, um trecho traduzido do artigo do Dr. Daniel Juster, renomado líder e judeu-messiânico (judeu que crê em Jesus como Messias) americano a respeito das relações entre o cristianismo e suas raízes judaicas:

No entanto, muitas pessoas que acusam a Igreja de ser pagã, me deixam com "a pulga atrás da orelha". Eles precisam entender que uma tradição ou ritual deve ser entendido de acordo com o significado que lhe é dada pela comunidade de praticantes. Nem mais nem menos. O culto dominical, por exemplo, independentemente das razões como ele surgiu no I século, ele é hoje universalmente entendido como uma festa que comemora a ressurreição de Yeshua (Jesus) no primeiro dia da semana. Muitos gentios, que pensam que estão descobrindo as implicações das raízes judaicas e, ao mesmo tempo, criticam a Igreja, simplesmente não têm um conhecimento profundo do patrimônio da Igreja. Na verdade, às vezes, a questão de uma restauração apropriada das raízes judaicas deveria começar por levantar a consciência das raízes judaicas mantidas pela Igreja agora. Fonte: Rediscovering the Roots that Remain (Redescobrindo as Raízes que Permanecem): http://www.tikkunministries.org/newsletters/dj-nov09.asp

Se desejamos aproximar estas duas tradições, ela deve ser feita sem fundamentalismo, com bom senso, com conhecimento apropriado do patrimônio da Igreja, levando-se em consideração o que a Igreja produziu em seus quase dois milênios de existência, tratando o anti-judaísmo que trouxe consequências já conhecidas (cruzadas, pogrons, holocausto etc) e claro explorando as raízes judaicas já preservadas pela Igreja.

Tenho críticas a uma "neutralidade" teológica, como se fosse possível acessar a Bíblia sem considerar a herança hermenêutica de gerações. Em breve escreverei um texto sobre a relação entre "tradição" e "revelação", infelizmente na atualidade, muito da crise cristã evangélica deve-se a isto: uma rejeição moderna a tudo que é tradicional.

Para terminar, cito a conclusão de Oskar Skarsaunne (teólogo luterano) em sua obra monumental "À Sombra do Templo", a respeito do tema aqui tratado:

A triste história do anti-semitismo cristão é bem conhecida e bem documentada. Contudo, houve em muitas ocasiões, e nos lugares mais inesperados, uma tendência implícita em sentido contrário. Não devemos, é preciso enfatizar mais uma vez, exagerar sua força; entretanto, não se pode também subestimá-la. Para os cristãos que, no início do século 21, sentem-se estimulados e fascinados com a redescoberta das raízes judaicas de sua fé e prática, é importante que saibam que não foram eles os primeiros. Houve precursores, e esperamos que haja sucessores.[2]

_______________
[1] WRIGHT, N.T. Supreendido pela Esperança. Viçosa: Ed. Ultimato, 2009, p.288.
[2] SKARSAUNNE, Oscar. À Sombra do Templo: as influências do judaísmo no cristianismo primitivo. São Paulo: Ed. Vida, 2004, p. 460.
14 de dez. de 2009 | By: @igorpensar

Cristianismo sim! Algum problema?

Por Igor Miguel


Em círculos judaicos é recorrente uma abordagem negativa a respeito do cristianismo. Às vezes tão honesta que beira à injustiça. Não há dúvidas de que judeus sofreram muitas agruras em nome de falsos seguidores de Cristo. Não há dúvidas que a Alemanha Nazista - por exemplo - era composta de mais de 50% de luteranos (claro, já identificados com um teologia liberal, em sua maioria). Parece óbvio que muito do discurso antissemita medieval sustentava-se por "frases isoladas" ou mesmo explícitas de uma postura "anti-judaica" entre alguns Pais da Igreja.

Porém, reduzir o cristianismo a falsos-cristãos, seria tão incoerente quanto reduzir o judaísmo a falsos-judeus. O joio era previsto pelo próprio Jesus, e mesmo Paulo, o apóstolo, já alertava a Igreja de Roma a respeito de uma possível jactância da parcela gentílica da Igreja em relação aos judeus (Rm 11). Ainda sim, deve-se admitir que não é surpresa, nem entre os primeiros discípulos, a existência de falsos-irmãos. No cristianismo há muitos "Judas", como no judaísmo, deve haver muitos "Tsvi Shabatai", "Saduceus Aristocratas", fundamentalistas religiosos, que desqualificam a essência do judaísmo. Reduzir da mesma forma o judaísmo a tais "sujeitos" seria desonesto.

O termo cristianismo foi usado pela primeira vez no período pós-apostólico, no II século d.C. Inácio de Antioquia, que foi responsável pelo uso inédito do termo (ao menos estes são os registros). Alguns críticos veem na criação do termo um problema para os seguidores de Jesus. Supõe-se que a procura por uma identidade, independente do judaísmo, traria prejuízos à fé chamada "cristã". Mas, como veremos, este é um receio parcialmente compreensivo, e em grande medida, exagerado.

Inácio não tinha qualquer pretensão conspiratória quando criou o termo 'cristianismo', na verdade, não havia outra opção. Desde o ano 95 d.C. quando os judeus se reuniram em Yavne (Jamnia) para um conselho que redefiniria o rumo do judaísmo pelos próximos séculos, fora elaborado mecanismos religiosos e litúrgicos para repelir a presença dos "nazarenos" (judeus crentes do I século) do círculo judaico (por exemplo a criação da Birkat Ha-Minim - Benção dos Hereges). A rejeição inicial não foi da Igreja, foi do próprio judaísmo. Se a situação era difícil para esses primeiros judeus seguidores de Jesus, o que dirá aos gentios recém chegados do paganismo. Eles eram um grupo com grandes problemas identitários: por um lado não eram judeus (pois não se submetiam à conversão formal ao judaísmo), por outro, nem eram pagãos (pois não frequentavam os cultos pagãos).

A sinagoga não queria mais os seguidores de Jesus, o mundo pagão também repelia os gentios seguidores de Jesus, a única saída seria a afirmação de uma identidade independente, tanto do mundo pagão como do judaico. Inácio, quando afirmou o aspecto "universal" (católico) da Igreja, queria deixar claro que a "Igreja" era uma instituição para além dos limites "étnicos" e das lealdades nacionalistas. Mas, 
quais foram as principais consequências da inauguração, ao menos terminológica, do cristianismo?

Consequências positivas:
a expansão da fé cristã, que sem exagero (basta uma olhadela nos atuais estudos), seria um tipo de "judaísmo minimalista" para acolhimento dos gentios à fé em Jesus e ao monoteísmo derivado deste. O cristianismo é o cumprimento das promessas de salvação universal (católica) dada aos patriarcas. De alguma maneira, a catolicidade da Igreja é abraâmica. Tal judaísmo minimalista (cristianismo) dialogava bem com as culturas pagãs, principalmente em províncias e territórios onde a sinagoga já não estava presente (países nórdicos - por exemplo).

Consequências negativas: o distanciamento da matriz hebraica produziu gradualmente um perda da cosmovisão judaica; uma cristologia excessivamente preocupada com a transcendência, ofuscando a humanidade e a identidade cultural do verbo quando se fez carne. O diálogo com a cultura grega, por vezes foi promissora, por outras vezes, a síntese entre "cristianismo" e "cultura grega" trouxe grandes problemas para o seio do cristianismo. Nada que o movimento espiritual de reforma na Igreja na cuide ao longo da história. Basta se familiarizar com os temas da teologia histórica.

Dessa forma, o cristianismo torna-se um movimento legítimo, enquanto resposta do Espírito Santo na história em um momento de tensão entre a Igreja e Sinagoga. A ruptura seria inevitável e necessária. Neste sentido, o cristianismo deve ser honrado e respeitado como um fenômeno legítimo de acolhimento e reunião das nações ao redor do Messias judeu, Jesus.

Por outro lado, o cristianismo depara-se com uma tendência mundial, de visita e releitura de sua própria fé a partir das fontes judaicas. Vários escritores judeus, protestantes, católicos e reformados, dedicam-se ao estudo da língua hebraica, da tradição rabínica, dos Manuscritos do Mar Morto e outros recursos da tradição judaica para compreender e enriquecer sua própria vivência com o cristianismo, e por que não, do próprio judaísmo?

O que quero afirmar com esse breve texto é que o cristianismo é um movimento historicamente estabelecido, levantado por crentes piedosos, que na tensão com o judaísmo, viram-se obrigados a criar um espaço de acolhimento dos gentios convertidos a fé cristã. Nem tudo que é cristão é necessariamente apostólico, como nem tudo que é judaico é necessariamente mosaico. Pois ambos, desenvolveram suas tradições. Neste sentido, Alister McGrath apresenta que a melhor forma de lidar com a tradição é compreendê-la dinamicamente. Afinal, a tradição enriquece a fé ao afirmar experiências anteriores e é enriquecida em novos contextos culturais, demandas e experiências teológicas.
A tradição é relativa à revelação.

Não obstante, o cristianismo não está isento de algum tipo de crítica histórica ou religiosa, pois há elementos heterodoxos na diversificada tradição cristã que são incompatíveis com a fé apostólica, como por exemplo: as influências do tomismo aristotélico, o neo-platonismo, o gnosticismo, o marcionismo, o arianismo, o antinomismo, o legalismo pietista e assim por diante.

O cristianismo foi o grande precursor dos direitos humanos. E, em seu formato reformado, promoveu o avanço das pesquisas científicas e da produção de riquezas. O cristianismo implantou universidades em toda Europa e nas Américas; as primeiras academias brasileiras eram confessionais. O cristianismo erradicou a confusão politeísta e expandiu um monoteísmo transformador em lugares assolados pelo caos teórico e por crenças perversas que oprimiam mulheres e escravos. O cristianismo conseguiu popularizar e cumprir em muitos lugares, como a experiência do neo-calvinismo holandês, um tipo de atuação antecipadora das profecias. Os profetas judeus jubilariam se vissem o que Abraham Kuyper realizara na Holanda e o impacto de sua visão de mundo no universo reformado.

O cristianismo criou comunidades modestas, fervorosas, pensantes, atuantes e inspiradoras como L'Abri na Suíça com a família Schaeffer. Não foi em vão que Calvino ao fazer teologia em suas Institutas, o fazia a partir das Escrituras Hebraicas (Antigo Testamento), mostrando uma unidade entre os "testamentos", evitando a heresia marcionista, que ainda aterrorizava outras tradições dentro do protestantismo e do cristianismo medieval.

Penso, finalmente, que é possível uma experiência cristã real dentro do cristianismo. Uma pessoa pode desfrutar perfeitamente de Deus através da modalidade cristã de fé, pois de fato o cristianismo se estabeleceu criativamente como um movimento com tradição e espiritualidade próprias, e que vive um momento de redescoberta de suas raízes em Jerusalém, mas em um movimento que passa por Calvino, Agostinho, os Pais Capadócios, Niceia, os bispos judeus (citados por Eusébio), os apóstolos, o Messias, os profetas e a Torá
, curando assim, cismas históricos que com a ajuda da graça de Deus, em Cristo, reconcilia judeus e gentios (Ef. 2).