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26 de mai. de 2012 | By: @igorpensar

Olhe e dê graças!


Por Igor Miguel

Dar graças.  Uma das coisas mais incríveis que recorrentemente me acontece. De fato, as vezes sou acometido por um olhar sobre os objetos, relações, pessoas e seres da natureza, como se eles se exibissem, como se sorrissem pra mim.  Para muita gente seria algo próximo de uma barato narcótico, mas a coisa é suave, sutil e um tanto real.

De fato, as coisas parecem assumir um sentido diferente quando olho para cada uma delas sob o ângulo certo.  Não estou dizendo que “relativistas” estão certo, que há varias formas de olhar sobre as coisas e que “cada um tem seu ponto de vista”.  Não!  O que digo é exatamente o oposto.  O que tenho percebido é que existem olhares e “olhares”.  

Na verdade, existe um ângulo que evoca sentido intraduzível.  Cheiro, movimento e cores se harmonizam em um quadro denso, a imagem é tão carregada de sentido, que não pode ser simplesmente traduzida em termos científicos ou filosóficos.  Não há campo de saber humano a que tudo isto possa ser reduzido.

De repente, alguma coisa fica clara, que as contradições, maldades e sofrimentos, não são um fim em si mesmo.  Que a tensão entre otimismo e pessimismo é inevitável, e a única saída, é a esperança.  Se estas coisas ainda acontecem, se anjos sorriem, se Deus ainda fala, se os céus gracejam, sim, pode existir alguma coisa além.  Além de mim mesmo e além de toda esta escuridão.

Fico pensando com meus botões, e nestas horas são excelentes companheiros de conversa, que aquela coisa simples, como a oração solitária, ler um salmo, comer com o coração cheio de gratidão e claro, amar através da vida que foi dada como dádiva, tornam-se altares.  E lá, nestes altares, meu culto também acontece.

Sinto-me impotente diante de minhas reclamações.  Me arrependo dos momentos infelizes quando  supus um Deus distante.  Sim, Ele sempre esteve presente.  Eu, que persisto em lidar com Ele como se Ele fosse intransponível.  Eu estive completamente alheio.  Eu sim, deixei-me seduzir pela alienação de achar que Ele, meu Deus, estava longe.

Até que olhei pra cruz.  Pra exposição pública de minha vergonha, sobre aquele que é o mais inocente, o mais perfeito, ele levou sobre si minhas enfermidades, doenças, neuroses e obsessões.  Ele levou meu velho homem, cravando-o na cruz.  Por isto, quando olho pra vida em um ângulo cruciforme, a graça farta meu coração.

Nestas horas, os salões empoeirados de minha alma fartam-se de esperança.  Quando vejo danças, cores, sons e cheiros.  O sorriso sutil de minha esposa, meu filho saltando em sua barriga, isto sim é encontrar-se cheio do Espírito Santo.   Cheio da graça de poder mais uma vez dizer “graças!”.  Afinal, não existe nada real fora da realidade que Deus constituiu para sua glória. 

Soli Deo Gloria
20 de set. de 2011 | By: @igorpensar

Crianças diante do Criador

Por Igor Miguel


Não quero que meus filhos brinquem que Deus é um ser imaginário, fruto do acaso e da decepção com o tempo.   Quero que brinquem com Deus mesmo, que rolem no chão ao rirem de suas proezas, chorem desnudados diante de sua absoluta pureza e se emocionem com sua habilidade em confundir as probabilidades.

Quero vê-los correndo sobre grama verde e sentirem o vento como um hálito soprado por Deus.  Que sejam tomados de assombro quando os relâmpagos rasgarem os céus em estrondoso e tardio trovão.   Quero que sejam visitados por sua presença em noites silenciosas, sintam as letras do Livro Sagrado cuja sacralidade procede de seu admirável conteúdo.  

Gostaria de me ver em meus filhos rompendo em olhar curioso o rumo das gaivotas, e cheios de senso de sentido, perguntarem o destino da revoada.  Que eles lancem os olhos em noite escura para um céu infestado de estrelas exibidas, brincando de ligação de pontos, procurando por ordem ao que parece arbitrário e aleatório.

Que meus filhos se deixem encantar.  Que sejam cheios de gratidão por verem um mundo tão excitante e tão cheio de vida.  Mesmo no drama da dor e da perda, que saibam dar graças, pois mesmo a perda e a morte não podem dar cabo da vida que ainda floresce.

Que juntem mãozinhas em sinal de gratidão e digam com toda doçura: "papai do céu."  Que vejam no "papai deles", este sujeito trôpego e vacilante, o olhar que o Senhor do Tempo lhes dirige, mesmo quando ele - o pai deles -  não pode mais vigiá-los.

E que finalmente, se descubram maculados e percebam, o mais cedo possível, que nasceram com defeito.  Que não podem muitas coisas, que são egoístas, iracundos, ressentidos e ambiciosos.  Que descubram rápido que o vaso é belo, mas está trincado.   E finalmente, ao serem tomados pela vergonha de sua própria condição... que possam correr para a cruz.  E lá, ao abraçarem o Filho com fé inabalável, que se encontrem com o verdadeiro Pai, com Aquele que verdadeiramente os amou.  E assim, quando já estiverem jovens e independentes, que corram sob grama verde, como no início, e voltem a ser crianças recém chegadas ao mundo... ao novo mundo que Deus inaugurou.
E Jesus, chamando uma criança, colocou-a no meio deles.   E disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus. (Mt 18:2-3).
13 de dez. de 2010 | By: @igorpensar

Doce Comunidade

Por Igor Miguel

Tenho vivido dias modestos. Dias de simplicidade, de valorizar coisas básicas, criar expectativas próximas. Nada muito grande, sem pretensões ou sonhos aprisionadores. Descobri que a forma mais agradável de se viver é viver em comunidade.

A graça me beijou, meu coração enche-se de gratidão. Quando oro a oração que Jesus me ensinou, quando chamo Deus de Pai, alguma coisa me integra a uma multidão de mártires, peregrinos, a uma grande nuvem de testemunhas (Hb 12:1): homens, mulheres de desertos, de monastérios, de cidades, de universidades, de fogueiras, de livros, alguma coisa me inclui na cidade de Cristo, a Cidade de Deus.

Em comunidade vejo rostos familiares, uma família milenar, ao redor da mesa da comunhão, na sacralidade do partir do pão, do misterioso sacramento, que emerge da páscoa, shulchan arúch, mesa posta.

Quando seguro o pão, quanto pego no cálice da Nova Aliança, diante do banquete sacramental, alguma coisa me coloca na mesa da última ceia, ouvindo cantigas e salmos, com a presença de discípulos covardes, amados e traidores, lá estão todos reunidos, com riscos, alegrias, fraquezas e amor.

Comunidade... mesa eucarística[1], de comunhão, edificados não no Monte do Templo, agora, construídos sobre a Pedra Angular, sobre o fundamentos dos apóstolos e profetas: Jesus Cristo.

Uma comunidade universal. Nela a linha entre o existente e não-existente, incluídos e excluídos, se dissolve, porque lá todos se aproximam para se tornar um em Cristo. Evangelho da paz para que os estavam perto e para os que estavam longe (Ef 2).

Lá na comunidade, na comunhão dos santos, como assevera o credo, cresce um interesse pelo que é o outro. Uma curiosidade irresistível de saber como aquele que chamamos irmão vê a Cristo: será que com o mesmo olhar? Será com a mesma alegria? Que história o Espírito de Adoção inscreveu em sua história?

Perguntas silenciosas, que perpassam biografias, causos dramáticos, que compõem uma grande comunidade chamada: IGREJA.

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[1] Eucaristia significa comunhão.