Por João Calvino, reformador, século XVI d.C.
Enquanto isso, não esqueçamos, porém, que estes são mui excelentes dons do Espírito Divino, os quais, para o bem comum do gênero humano, ele dispensa àqueles a quem quer. Ora, se a Bezalel e a Ooliabe foi indispensável que se instilassem neles, pelo Espírito de Deus, a inteligência e o conhecimento que se requeriam para a construção do tabernáculo [Ex 31.2-11; 35.30-35], não é de admirar caso se diga que nos é comunicado através do Espírito de Deus o conhecimento dessas coisas que são mui relevantes na vida humana.
Nem há por que alguém pergunte: Que os ímpios, que se alienaram totalmente de Deus, têm a ver com o Espírito? Ora, quando lemos que o Espírito de Deus habita somente nos fiéis [Rm 8.9], é preciso que se entenda isso como referência ao Espírito de santificação, através de quem somos consagrados por templos ao próprio Deus [1Co 3.16]. Entretanto, nem por isso menos preenche, aciona, vivifica a todas as coisas pelo poder do mesmo Espírito, e isso segundo a propriedade de cada espécie, a que a atribuiu pela lei da criação. Pois se o Senhor nos quis assim que fôssemos ajudados pela obra e ministério dos ímpios na e nas demais áreas do saber, física, na dialética, na matemática façamos uso delas, para que não soframos o justo castigo de nossa displicência, caso negligenciemos as dádivas de Deus nelas graciosamente oferecidas.
Mas, por outro lado, para que alguém não julgue ser o homem sumamente ditoso, quando se lhe concede tão grande poder de compreender a verdade sob os elementos deste mundo, deve-se, ao mesmo tempo, apreender que não só toda esta capacidade de compreensão, como também a compreensão que daí resulta, é coisa sem consistência e sem estabilidade diante de Deus, quando não subjaz nela o sólido fundamento da verdade. Pois, com muita procedência ensina Agostinho, a quem, como dissemos, o mestre das Sentenças e os escolásticos foram obrigados a subscrever: como, após a queda, foram subtraídos ao homem os dons graciosos, assim também foram corrompidos estes dons naturais que lhe restavam. Não que, até onde procedem de Deus, possam de si mesmos corromper-se, senão que ao homem corrompido deixaram de ser puros, de modo que daí não logre ele algum louvor.
Fonte: As Institutas, Livro II, Capítulo II, Cap. 16 (grifo nosso).
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Uma AnálisePor Igor Miguel
O que me impressiona neste texto de João Calvino é a forma responsável com que nega a percepção escolástica de que aquilo que é produzido por não-cristãos não tem graça, o que incluiria a cultura, o trabalho e a ciência humana em geral. Calvino refuta isto, asseverando que uma percepção apropriada da "lei da criação", aquilo que muito mais tarde Herman Dooyeweerd chamaria de cosmonomia, testemunha que há uma graça comum de Deus despejada na criação. O que significa que a habilidade humana em geral deve ser reconhecida como graça, dádiva divina, e não fruto de uma auto-dotação.
Entretanto, Calvino chama a atenção para o fato de que com a queda, o homem se corrompeu, por isso nem tudo que o homem produz consegue expressar a perfeição e santidade de Deus. Aquilo que estes homens produzem, mesmo que operados pela graça, podem estar comprometidos pelo pecado no homem.
Porém, no parágrafo anterior a este, o reformador genebrino assevera que o cristão não deve ser negligente, antes deve encarar as ciências e as artes, como dádivas, que devem ser desfrutadas, porém com a consciência do trecho posterior. Daí, a necessidade de discernimento do cristão ante ao que o mundo produz.
João Calvino no século XVI, à luz de sua habilidade hermenêutica, não concordaria com a abordagem pietista e legalista presente em alguns círculos evangélicos da atualidade, de que aquilo que é produzido por "mundanos" e "ímpios" não deve ser desfrutado, como a música, a arte, o conhecimento científico. Hoje, o reformador alertaria os cristãos a não serem relapsos, mas que aprendessem a desfrutar destas boas dádivas, sem esquecer porém, que há imperfeições, manchas, que precisam ser discernidas, julgadas e analisadas à luz da boa consciência cristã.
Enfim, a espiritualidade reformada neste sentido não isola o santo do mundo, mas também não permite que ele seja absorvido por ele. Antes o insere lá, porque há graça lá. Porém, o insere consciente de que deve discernir seu tempo, os conhecimentos, tornando-o sóbrio a respeito das consequências da queda.
Soli Deo Gloria
Kol HaKavod LaShem