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17 de jul. de 2017 | By: @igorpensar

A Janela

Levantou-se ainda vacilante, em uma espécie de limbo entre sonolência e sobriedade. Ali em corpo, pés desnudos que relutantes tocavam o chão gelado, ergueu-se, foi até a janela. Seu olhar vagava como que procurando uma terra a se ir, um destino. Seduzido por suas oscilações, suas matizes e degradês, irrompeu em um suspiro que vinha de lugares virgens, terras raramente visitadas. Aspirou por sentido, mas lamentou por nem sempre ter condições de ver tal mundo sorrindo. 

Com olhar marejado, lamentou não poder eternizar aquele momento, lamentou seu cinismo, incredulidade e o coração embrutecido. Viu cores, formas, nuvens que não lhe eram peculiares. Percebeu que não tinha como ficar entendiado ante tal brincadeira que a graça lhe aprontava. Quis entrar na dança, mas lhe faltava o ritmo, quis solfejar uma cantiga, mas sua voz desafinava. Com um discreto sorriso, ainda constrangido, corou-se diante da glória. Preferiu aquietar-se, e batizado de gratidão voltou-se para seu recôndito, desta vez, trazendo consigo a luz da coreografia que acabara de testemunhar em uma janela.
29 de mai. de 2015 | By: @igorpensar

Aos Cacos

No esforço de mantê-lo em pé, sem força, escorregou entre os dedos.
Não há como juntar os cacos e refazê-lo, só resta juntá-los para destiná-los ao lixo.
Tornou-se refugo, escória e descarte.
Tantas mãos por seu liso e translúcido corpo passaram.
Tantas bocas se saciaram em ti.
Mas, agora, encontra-se aos cacos, despedaçado, e serás esquecido.  
Sim, friamente substituído.  Teus cacos se espalharam no mundo. 
Puro esquecimento, este é o teu fim.
O que restou de ti?  O nada, o vazio e a não existência.
Gente?  Talvez um copo que se quebrou por minha distração.
7 de abr. de 2015 | By: @igorpensar

A Alma do Orante

Silenciosa encontra-se a alma do orante.

Quieta porém aquecida.
Branda porém fascinada.
Deus está distante?
Ele não é contido por nada.
Ele é a causa de tudo e do nada.
Diante dEle não há tempo ou espaço.
Perante Ele há apenas comunhão.
Encontro marcado: Eu, Tu e Nós.
Pai nosso, em comunhão contigo e com os santos.
Sem tempo e espaço.
Nossa comunhão é no Cristo morto e ressuscitado.
Nos encontramos em um único evento, aquele que é eterno.

Continua silenciosa a alma do orante.

Calada e arrebatada de amores por Ti.
Em chamas apareces, a alma em pé agora quase desfalece.
Desmaia-se, até ser tomada pela brandura do Espírito Santo.
Ergue-se e é acolhida por um olhar penetrante.
Nada escapa, nenhum segredo, nenhum pecado.
Tudo é nitidamente iluminado por Ti.

Perdoada a alma se aquieta, e encontra-se novamente silenciosa.

Sim, silenciosa encontra-se a alma do orante.
14 de nov. de 2014 | By: @igorpensar

Da Aridez ao Frescor

Solitário, inóspito e banido em exílio.  
Puro abandono e alienação.  
Estranho a si, consigo mesmo e com o mundo.  
O horizonte se repete, deserto, miragens e ilusões.
A vitalidade se esvai, escorre entre os grãos de areia.
Tudo se seca, trai e fere.  Um mundo hostil.
Escaldante, sufocante, falta-lhe água e ar.
As forças acabam: tomba e cai.
Tudo se escurece, fica mais confuso e fragmenta-se.
Seu espírito quase descola-se, desvincula-se, sai de si.

Ante a perda dos sentidos, algo lhe recobra.
Discreta nitidez, tudo limpo.  Claro e fresco.
Uma face suave e risonha mira-lhe.
Luz, muita luz, mas sem o calor.
A temperatura é perfeita.

Já com força, sem o cansaço, levanta-se facilmente.
Da fadiga, só a lembrança.
Olha ao redor, fica intrigado. "Estou em casa?"
Um lugar que nunca residiu.
Mas que nunca deveria ter deixado.

As cores, texturas e músicas são fascinantes.
Sempre as quis ouvir, apesar de nunca conseguir em seu mundo.
Mundo ordeiro, harmonioso, cheio de cores e algumas nunca vistas.
Que variedade de perfumes, formas e seres jamais apreendidas.
Nela, cidade e jardim se confundem.
Céus e terra se encontram em um casamento. 
Um só corpo, um só espírito.
3 de nov. de 2014 | By: @igorpensar

Cilindro Ordinário

O irrisório, porém ainda, inóspito desejo de esticar as mãos e segurar sua frieza.  Seu corpo soado, escorrendo gotículas em uma aparência úmida e fresca.  Queria tocar em sua transparência, segurar-te firme, para não te ver deslizando entre meus dedos, és escorregadio.  Tomo-te, deixo que o que está em ti seja sentido, a dor prazerosa de tê-lo em minhas mãos.  Mesmo com todo desconforto, aprecio as muitas cores que brilham em teu interior e iluminam a vida de quem aspira sorver tua alma.   Entorno-te, não há melhor descrição, deixo escorrer seu frescor goela abaixo na ânsia de ver minha angústia aliviada.  

Nosso encontro tornou-se intenso e rápido, como às vezes são encontros de prazer.  Porém, a pressa me feriu, doeu-me as entranhas e a cabeça.   Logo, vi teu ressinto vazio, inóspito, apenas com sinais daquilo que de ti tomei.  Agora, abandono-te, desprezo-te e largo-te ao relento, sem nenhuma expectativa de encontrá-lo novamente.  Mas, nosso reencontro, cíclico, quase inevitável, acontecerá em breve.  Posso imaginar um sorriso irônico vindo de tua inanimada cilíndrica rigidez, como que se pensasse:" -- Ele voltará, espero-o."   Miserável recipiente, sabes que voltarei.  Quando a sede me assaltar, terei que me render mais uma vez a este ordinário copo d'água.

____
Igor Miguel
8 de mar. de 2014 | By: @igorpensar

Infinitivo


Infinitivo

Conjugar é conjurar,
evocar verbos em versos.
Chamar o diverso do universo:
Um verso...
Dois versos...
Infinito declamar.
Enfim, sem fim, atemporal, supratemporal: eterno.
Com ar, no ar, infinitivo.
Pode ser substantivado.
Conjugar é conjurar, evocar, tornar finito.

Casa

Casa

Dentro, abraçado e ritos.
Familiar. Cada objeto, cada ser.
Estar, não é a sala, está nela.
Sorriso, suave, muito suave.
Bela e sutil, não enjoa.
Cheiro de bolo de fubá.
Café em caneco xadrez.
Livros que seduzem, convidam.
Desprezo-os, deixo-me seduzir.
Um cheiro levemente doce no cangote.
Em cada quina aroma, calor e luz de abajur.
Chuveiro quente e um livro.
Sala de estar, sala de ser. 

Casa.
19 de ago. de 2012 | By: @igorpensar

Ingênua Fé

Trecho do poema
de
Machado de Assis
(1839-1908)



"Tão poderosa é essa
Ingênua fé, que inda negando o nome
Do seu Deus, confiada aceita a morte,
E guarda puro o sentimento interno
Com que o véu rasgará da eternidade?
Ó Nazareno, ó filho do mistério,
Se é tua lei a única da vida
Escreve-ma no peito; e dá que eu veja
Morrer comigo a filha de meus olhos
E unidos irmos, pela porta imensa
Do teu perdão, à eternidade tua!"


4 de out. de 2010 | By: @igorpensar

Pão da Aflição

O que pensas pequeno jovem?
Agora desprovido de tua autonomia,
Te despistes de todos os amparos que te legitimavam.

Por que te retratas? Eis tu um estúpido!
Que na estupidez mantinha-se de pé erguido em seu próprio ego,
Sendo admirado pelos que te legitimavam.

Mas, um dia, um dia ele te pegou pelo cabelos.
Te colocou irresistivelmente de joelhos diante da cruz.
Lá, no "lugar" só o que ouvistes foram teus pecados sendo golpeados.
Sim, nos golpes e nos cravos de Teu Senhor, sob sangue inocente.

Agora, orgulhoso jovem, o que tens?
Não tens nada do que eles possam te aplaudir.
Não tens as lisonjas, os aplausos, estás em ruína.

Agora, que tudo rompeu sobre ti.
Agora, que estás em cacos.
Te colocarei sob os meus pés.
Lá encontrarás repouso e dignidade.
Silêncio, cura e reconstituição de tua alegria.

Sim, um dia você me pediu para não cair.
Não sabias das implicações daquela oração.

Agora, olha pra ti!
Não tens nada, nada que possam te aplaudir.
Apenas a minha mensagem escandalosa...
Que afirma minha perene misericórdia como aquilo...
Aquilo que escandaliza judeus e enlouquece gregos.

Não te preocupes meu filho, ele também foi amaldiçoado.
Não te preocupes, os religiosos também conspiraram contra ele.
Agora, "eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome"*.

Sim, tu tens apenas o madeiro,
A punhalada que Isaque não recebeu.
Te refugias no violentado.
Em suas chagas, tu também serás curado.
Mas, por enquanto, te fartarás no Lechem Oni**.

Aleluia!

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* Atos 9:16.
** Pão da Aflição [לחם עני]: o pão ázimo (sem fermento) comido na noite de páscoa, deste pão Jesus instituiu a ceia. Este pão simbolizava a aflição/tribulação dos filhos de Israel no Egito. Jesus se identificou com este pão, como um sinal de sua "aflição" na cruz, por isso disse: "Este é meu corpo que é partido por vós".
21 de set. de 2010 | By: @igorpensar

Meteoro

Deus desceu ao mundo como um meteoro.
Explodiu em sofrimento sobre a cruz.
O barulho foi tão estrondoso, tão terrível,
que os reis tiveram seus tronos abalados.
Eles ficaram tão surdos que não perceberam os exércitos chegando.
Vinham aos montes, não estavam montados a cavalos,
mas seguravam espadas de dois gumes:
o terrível e poderoso decreto divino.

O pacto com o homem de Ur se cumpriria, a notícia se espalharia,
as famílias mais remotas chegariam ao Anjo do Senhor.
E como o velho patriarca, o convidaria a sentar-se debaixo da tamareira.
De lá destilaria mel silvestre que insistia em ficar nos lábios do profeta.
Arrancaram-lhe a cabeça, por anunciar o escandaloso Ungido.

_________
Por Igor Miguel
17 de ago. de 2010 | By: @igorpensar

Pés sujos (um conto)

Por Igor Miguel

Um menino passou correndo com seus pés preto de um chão cheio de fuligem da poluição. O chão ao menos é sujo, quanto ao coração do menino, bem pode ser que seja límpido.

La vai ele, como corre, olha para um lado e para o outro, ante o frenético movimento dos carros barulhentos. Ansioso, cruza a rua, uma motocicleta quase o pega, o motoqueiro buzina estridentemente.

Ele chega. Pega sua caixa de papelão cortada e adaptada com um pedaço de arame, faz uma caixa onde organiza de forma atraente doces e pastilhas de hortelã. A caixa me parece de sabão em pó.

Com a mesma agilidade, ao sinal vermelho, percorre os carros, exibindo seu mostruário, carro após carro, contando com a sensibilidade e o interesse dos motoristas por suas balas baratas, mas gostosas, como dizia.

Um "sim" aqui, moedas ali, mais "não" do que "sim", acaba vendendo mais do que se esperava. Em sua bermuda, um tanto surrada e suja, em um bolso mole, sambam pratinhas aos montes.

Se orgulha de seu lucro, exibia para seu amigo malabarista. La vai ele!

Corre, põe a caixa na cabeça e de novo, de pé ainda mais sujo, volta para o lado de cá, cruza os carros, para por onde os pedestres se concentram. Eles se afastam, olham-no com uma visão precavida, damas seguram firme suas bolsas. Ele vai rindo, como debochando e assumindo o poder que lhe atribuíam.

Chega em sua casa, com porta de MDF velha. Mitico, uma vira-lata de pelo branco e um "tapa-olho", um verdadeiro pirata, pula de alegria. Ele brinca e ri e ouve uma voz enfurecida de dentro de casa... era o namorado de sua mãe.

Correu, olhou e lá estava ele. Com olhos avermelhados, trôpego, macho, violento, valente e bêbado. Olhou para o menino, carregado de raiva, gritando, dando ordens, para que desse o dinheiro das balas. O menino o encarou colocando a mão no bolso e disse não. Pois o dinheiro era para o remédio da mãe.

Sua mãe padecia em leito, cirrose hepática, sofria as agruras de estar à margem da sociedade. Ele, o pequeno jovem dos pés sujos, a defende como um grande homem, mas o namorado de sua mãe insiste e sugere um espancamento. Lhe defere um golpe, mas ele reage, vira-se como um gato e consegue escapar. O homem lhe segue pra fora e lá, ao cruzar a rua, o menino vê um ônibus e grita para o homem tomar cuidado, mas seu berro não chegou ao cérebro do bêbado a tempo por efeito letárgico do álcool.

Mitico late sobre o corpo ensanguentado. Os outros moradores do condomínio, como chamavam o emaranhado de barracos debaixo do viaduto, chegam-se como curiosos ante a cena do menino que chora.

Não o odiava a este ponto, pensara na possibilidade de tê-lo por pai. Sentia um misto de pena e culpa. Sua mãe, grita se apoiando na parede de concreto, em prantos, acusava o menino, perguntando o que fez.

O menino chorava e corria, corria muito. Correu tanto que perdeu o caminho de casa, perdeu-se entre as pedras da cidade, perdeu-se entre os muros e o cheiro de urina das marquises. Perdeu-se no tempo e no espaço, foi absorvido, pelos olhares que o ignoravam. Perdeu-se ante os vidros fechados dos carros sob o hálito do ar condicionado levando meninos bem arrumados indo pra escola. Perdeu-se de casa, perdeu-se na vida sombria. Perdeu-se na impureza de seus pés sujos. Virou fuligem...
9 de jul. de 2010 | By: @igorpensar

Benedito: um poema

Muitos podem falar do dito cujo.
Dele não escutarás nada.
Daqueles que dele falam, ouvirás tudo.
Cujo dito não acredito.

Palavras constroem imagens.
Imagens são palavras.
Palavras mal-ditas,
Imagem maldosa.

Quando a palavra má for dita.
Não verás o bendito da mesma forma.
Só verás o que foi dito.

Maldito o homem de língua perversa.
Pois veste-se do mal, quando verte amargura.

Só há um jeito de lidar com a verdade.
Não vejas pelo que dita dor.
Mas, pelo que vive Benedito*.

_______________________________
*Ben - filho em hebraico. Édito - decreto inquisitorial.
6 de jul. de 2010 | By: @igorpensar

Inovadoramente Tradicional

Por Igor Miguel

Sei da tirania da história. Esta coisa de nascermos e nos depararmos com a vida não é brincadeira. Apesar de que nas brincadeiras da infância simulávamos a vida adulta como algo prazeroso, cheio de ludismo e trabalho criativo. A vida adulta, vida que temia quando criança, é cheia de desafios e desatinos, muito pouco lúdica, com ilhas de devaneios.

Ou nos entregamos à filosofia do “deixa a vida me levar” ou admitimos que nossa presença na história tem um desígnio, tem uma causa e um fim de ser. Como nos portaremos diante do tempo que se foi e que virá? O que faremos diante da realidade do hoje?

O “entregar-se” à historicidade, ao tempo, é uma passividade preguiçosa, um suicídio biográfico. Seria como receber um papel em branco e esperar que dele saia espontaneamente alguma obra de arte, algum tipo de rabisco, pelo menos. Talvez, mais interessante seria pensar que esse papel já vem com algum esboço, com alguma escrita, incompleto, tentadoramente inacabado. Irresistível como quando nos entregam um desenho pra colorir e uma caixa de lápis de cor. Deliciosamente tentador.

Não damos conta do inacabamento, não suportamos a “falta” e o “hiato”. Temos um chamado para cultivar o jardim!

Há três tipos de reação diante do mundo. A primeira, aceitar a estabilidade e a estagnação, a confortabilidade dogmática, aprisionada por um determinado gueto cultural. Um estado de permanência no útero materno. A segunda, um salto no escuro, uma vida sem raiz, sem memória, sem tradição, lançado no novo, no relativismo e no vazio. Um estado de orfandade. Ou finalmente, a terceira reação, sermos como ''o escriba versado no reino dos céus, que é semelhante a um pai de família que tira do seu depósito coisas novas e coisas velhas.” [1] Um estado de sabedoria.

Nem estagnação, nem desenraizamento. O desafio é manter uma postura hermenêutica, como um intérprete que sabe lidar com as novas demandas sem perder a memória. Ele sabe tocar no mundo novo sem perder a referência da história. Consegue ler as novas tendências sem perder o frescor dos clássicos.

Não dá para viver o novo sem as ferramentas do antigo. Não dá para ler o mundo sem as letras que a história nos legou. Nem como feto, nem como órfão, apenas como ancião sá
bio pelas mechas brancas.
_______________
[1] Mt 13:52.
13 de jul. de 2009 | By: @igorpensar

O Mal-dito pelo Bem-dito

Por Igor Miguel

Perder a ingenuidade é sacrificante. Perder a inocência de ouvir as coisas e deixá-las passar como se fossem apenas palavras é dolorido. O não-dito diz muito coisa. O mal-dito é mais fácil de processar do que o bem-dito. Atos falhos, opiniões caóticas, falas-egocêntricas e gestos inesperados, têm muito a dizer. Sinceramente, isso me assombra.

Depois de perder a ingenuidade, adquire-se certa sensibilidade para ouvir a alma, para detectar o que está borbulhando lá para trás do véu dos tabus. Lá na distante memória, no lugar que os cacos de imagens, símbolos, fobias e terror, que não passam batido, estão armazenados.

Dói! Dói, ouvir o que está por trás da fala. Dói, entender as palavras para além da aparente superficialidade. Não é fácil lidar com o simbólico, com o rito e os gritos por trás do rotineiro.

Quando se perde a ingenuidade, sofre-se, sabe-se quando mentem, odeiam, omitem e amam. Fingir que o dito não foi dito, que o dito as vezes não é maldito é de um esforço artificial, plástico, insuportável.

Por isso, retomo Martin Buber: quando o eu encontra o tu, quando o verdadeiro encontro acontece, as palavras acabam e a totalidade do outro é absorvida, é pura relação, pura alteridade.

Mas, é proibido apelar! Apelou perdeu playboy! Por isso, ele cria um castelo, um enredo teatral para sustentar sua questionável estabilidade. Sustenta-se a firmeza, quando o que se tem é um monte de farelo e pó. Mas, até quando continuarás sustentando a beleza deste quadro? Até quando suportarás? As palavras são como espinhos entre os teus dedos. Podes suportá-las?

Abre o teu coração! Reorganize o sentido de tua presença na história. Não pode ser o tempo passando, você também passa pelo tempo. Deixe lá tuas impressões! Como em pavimento recém cimentado, escreve teu nome com data, para que todos se lembrem, que um soldado anônimo lutou e venceu, ou pelo menos morreu tentando.

Teu gesto pode ser simples como de um jardineiro, que em gestos pacientes prepara o cenário, para que uma surpreendente flor brote em teu canteiro. Eis a alegria do que colhe, do que rega e do que vê.

Benedito, desabroches! Pois tua infância acabou, em breve darás frutos. Assim, aos ouvidos menos ingênuos deixarás palavras bem-ditas: "Bendito o que ouve estas minhas palavras ...".
2 de jul. de 2008 | By: @igorpensar

Rotina, Férias e Amém.

Por Igor Miguel

A rotina é interessante. Rouba nosso tempo, afoga-nos nos papéis e nos trâmites legais, e tira aquilo que nos é essencial, o poema, o amor, a inspiração, uma boa leitura e a vida. A rotina tem o péssimo costume de arrancar nossos sentimentos, de nos posicionar como estranhos e de brutalizar o homem.

Sinceramente, não sou muito poeta, mas quem já não teve vontade de ir para um lugar arejado? Para uma planície verde em contraste com um céu azul de entontecer. Sabe aquele céu azul, sem nuvens, que remete nossa infância? Pois é, esse lugar pode ser bem melhor do que onde estamos.

Esgotar minha vida naquilo que não me aproxima dos céus, ou que transgride o cheiro-de-mato, é frustrante. Dói-me ver-me longe do jardim, das cores e dos assobios do ventos entre as folhas da cazuarina.

A civilização roubou o poema, a rotina arrancou o sonho, tirou a fé e esvaziou nossa imaginação, aquela que tínhamos quando criança. Ou ainda a temos?

Quero correr descalço, sentir o vento, pular no mar azul e encostar meu corpo sobre uma boa rede. Quero o ócio, os tempos de nostalgia, para renovar minhas forças e voltar à rotina inevitável com um pouco da paciência que contraí da natureza e de um tempo que de tão bom, parece sem fim.

Quero pedalar minha velha bicicleta, quero ver meu pai com seus "trambolhos" e velhos brinquedos, quero enfim lembrar que tenho família e que é possível ser gente, e viver a gentileza da gentil mãe que diz: Bom dia!

Puxa, é bom ser feliz, é gostoso dizer amém, e continuar vivendo o final da oração como se não terminasse.

Acho que férias é assim, um tempo, um bom tempo para dizer... Amém! E adeus (ou até logo) à velha rotina.
5 de mai. de 2008 | By: @igorpensar

Uma Guerreira de Carpina



Por Igor Miguel

Lá vai ela, menina que corre em terra preta,
Desce até o Capibaribe com lata vazia,
Para de lá voltar com ela cheia de dignidade.

Vai lá mulher-menina, guerreira com seus sonhos,
Mulher valente que com dores deu a luz.
Vai mulher coragem, que com teu amor teceste o destino.
E Ele converteu teu lamento em riso e tuas lágrimas em cantigas.

Cantos de cordel, rimas doces, que aprendeste com tua avó.
Sim, sua avó cabocla, mulher marcada pelo tempo.
Valente como tu, acabou vencendo seu maior inimigo.

Com fé movestes montanhas, com riso afugentaste a dor.
Com teu exemplo encheste de vida a outros.
Você foi para Limoeiro aprendeu com o Urubu que toca tango.
Você gostou de forró de lá... Os teus cordéis me dão saudades.

Menina-mulher, que com coragem e um ano a mais saiu de lá,
Para se aventurar na cidade grande para o sustento levar.
Sua mãe cozinhou com lágrimas de orgulho, com um fogo.
Que apesar de não ser com a dor da lenha, era com a alegria.
A alegria e o orgulho de uma filha que com dignidade venceu a vida.

Mãe guerreira tu és, teu esforço e sua paixão pela vida me ensinaram,
Sim, ensinaram muitas coisas. Vai menina e volta da terra preta!
Deixe seus filhos irem a uma terra que mana leite e mel.
Este é teu prêmio, galardão do seu sofrimento.

Te amo! E como amo!

Do filho,
Igor