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Evangelho na Perifa
Todos que já trabalharam como voluntários ou educadores em comunidades deste perfil, já perceberam o número impressionante de crianças e adolescentes que se afirmam cristãos evangélicos. Porém, algo que já percebia nas comunidades evangélicas de classe média, acabei encontrando, com um pouco mais de expressividade, dentre estes de aglomerados e complexos da Grande Belo Horizonte.
Nitidamente, comecei a perceber um tipo de evangelicalismo placebo, algo bem comum e familiar a todos nós: aquele tipo de crente que tem um linguajar peculiar, reproduz determinadas expressões e trejeitos muito comuns na maioria das igrejas evangélicas. É predominante, em tais meios, um tipo de visão de mundo afetado por demônios, batalhas espirituais, com tempero de teologia da prosperidade e uma pitada de auto-ajuda e por aí vai.
Se a coisa anda meio complicada nas comunidades centrais, nas periféricas vemos a face mais sombria disso tudo. Lá, eles reproduzem o que algumas igrejas centrais produzem, porém, muito mais estereotipado, chega ser meio trash e perturbador.
Mas, Igor, você está sendo um pouco intolerante, não? Que nada, agora que vou mostrar minha verdadeira intolerância. Então segura negada!
Pois é, o lance é o seguinte, o que vejo nestas comunidades é algo muito mais sombrio. Vejo uma igreja evangélica “desevangelizada”. Simplesmente, não há evangelho lá. Há uma outra coisa, um teatro, um tipo de emocionalismo de massa travestido de linguagem gospel. E sinceramente, acho tudo isso aterrorizante, sombrio e alarmante.
Um dia, fui convidado para falar a respeito da páscoa para um grupo de crianças e adolescentes de um determinado aglomerado. Então lá fui eu. Preparei um vídeo, na verdade um animê, que reproduz a crucificação na perspectiva do “ladrão da cruz”, que se converteu. Mas antes de exibi-lo, quis introduzir a temática da páscoa, crucificação e ressurreição. Caí na boa “besteira” de fazer algumas perguntas para curto-circuitar cérebros e espíritos cativos de uma mistura de “eu quero tchu, eu quero tcha” com “
Primeiro lhes perguntei como uma pessoa poderia ser aceita por Deus, a resposta foi quase unânime, com poucas variações: uma pessoa é aceita por Deus quando cumpre seus mandamentos, quando lhe obedece. Claro que a esta altura, fiz inúmeras conexões sócio-religiosas e doutrinárias. Ali estava eu, testemunhando o tipo de evangelho moralista que domina a periferia, mas que também, é uma reprodução da teologia das igrejas ditas “centrais”. Então, tive a coragem de fazer uma pergunta, que só confirmaria o que já sabia por intuição: quantos deles frequentavam alguma igreja evangélica? Maldito empirismo! Claro, os dados estavam diante de mim, todas as mãos, dos quase vinte, levantadas. Pasmem, eles não são católicos, são evangélicos! Nominais, é claro, em sua maioria esmagadora. Ué? Existe isso entre evangélicos? Agora existe meu filho.
Claro, aproveitei a oportunidade, e disparei uma pergunta básica: Se somos aceitos por Deus pelo que fazemos, então qual é o valor do que Jesus fez? Por que precisamos de Jesus Cristo? Por que Ele morreu na cruz? A esta altura, ouve-se aquele barulhinho do “Windows” quando dá um erro... “fam!”. Pois é, quase ouvi os grilos... então, o silêncio foi interrompido com um corajoso que disse: Ele morreu para perdoar nossos pecados. Síntese? Tá bom.
Vamos esclarecer as coisas. O negócio é o seguinte, você se chega a Deus pelo que você faz ou deixa de fazer. Beleza, uma religião moralista bonitinha. Aí, quando você pisa na bola, corre pra Jesus e pede o perdão pelo sangue dele. Depois que você é perdoado, lá vai o crente, mais uma vez, tentando fazer tudo bonitinho, e como em um círculo vicioso, ele vai fracassar, e pronto, sente-se mais uma vez dentro do inferno. Este é o evangelho da “perifa”, mas também das “centrais”. Das igrejas dos aglomerados, é verdade, mas também das de classe média. Uma bela religião de formalismos, aparências, linguagens sem conteúdo, frases reproduzidas e toda esta tranqueira adornada com um adesivo do tipo “Deus é fiel!”. Uma frase de efeito desprovida de qualquer conteúdo para as pessoas que a ostentam.
Então, tive que abrir o jogo, e comecei a anunciar o evangelho e comecei afirmando: todos nós nos chegamos a Deus por um único mediador, Jesus Cristo. O que Deus fez ao enviar o seu Filho é gigantesco, e não há nada que possamos fazer, que impressione a Deus mais do que Jesus crucificado. Nem um de nós pode fazer o que Jesus fez. Deus só aceita uma obra e uma obediência no universo: aquela que seu filho Jesus Cristo realizou. Logo, se você quer impressionar a Deus pelo que você faz, já é hora de desistir. Deus já está impressionado e seus olhos estão fixos e uma única coisa: a obediência de Cristo. Se você quer ser aceito por Deus, corra pra Jesus! Abrace a obra de Jesus, e finalmente, acredite que tudo que Ele fez foi suficiente. Não só para te perdoar, mas para te colocar diante de Deus como filho, igual a Ele. Somente assim, você receberá o dom do Espírito Santo e terá as condições para obedecer a Deus. Não movido por algum medo, mas por pura gratidão e vontade de servi-lo. Certamente, você ainda pecará, mas sentirá repulsa pelo pecado. Afinal, agora você é filho de Deus, você nasceu de novo, já está salvo, já foi aceito por Deus e o pecado será algo que não lhe pertence mais.
Então, soltei o desenho da crucificação. No final, só ouvi as fungadas, crianças esfregando os olhos, e finalmente, fiz uma oração com eles. Solicitei, que só orassem aqueles que realmente acreditavam que de fato Jesus Cristo é a única obediência e obra aceita por Deus, e que só há um jeito de uma pessoa ser aceita por Ele: crer em Jesus, dar crédito à sua obediência. A questão não é aceitar Jesus, é ser aceito por Deus em Jesus.
Conclusão? Muitos ditos evangélicos, nunca foram evangelizados. Muitos que sabem de cor as canções pop do meio evangélico, não sabem o que significa a cruz, Jesus, o Evangelho em todas as suas implicações. Muita gente vive um tipo de religião moralista, baseada em obras pessoais, e ainda acreditam, em um “jezuizinho”, que só serve pra perdoar pecados eventuais em uma fracassada tentativa de atrair a atenção de Deus por “obras legalistas”. Definitivamente, evangélicos centrais e periféricos, precisam ser evangelizados. Pode acreditar! Quem sabe assim, os centrais sejam evangelizados pela periferia. Porque o contrário, até agora, não funcionou.
Deus no Exílio
Princípios na Missão
Como trabalhamos diretamente (face-to-face) com crianças e adolescentes que carecem de atenção e processos educativos adicionais, procuramos integrar nossa vocação pedagógica com vocação missionária. Como sei que muitos dos que visitam este blog estão engajados em missões urbanas, missão transcultural, missão integral, transformação comunitária e similares, desejamos compartilhar alguns princípios missiológicos que nos ajudam muito durante os trabalhos que realizamos com crianças/jovens/adolescentes em situação de risco:
1) Se vida transcende vida biológica, se o termo envolve a integralidade da vida humana, tudo que fragmenta, desintegra, violenta, perverte e distorce a vida é morte. Neste sentido, a missão com jovens em situação de risco e em comunidades de periferia envolve o testemunho e a ação da ressurreição: beleza, amor, alegria, sabedoria, plenitude e justiça.
2) Aborde a dura realidade destas comunidades sob uma visão de mundo reformada: criação-queda-redenção-consumação ou seja, quando olho pro rosto de um menino que reproduz a violência de sua família, não vejo uma criança indisciplinada, mas um ser a imagem de Deus (por isso digno do amor) trincado pelos efeitos da queda. Trincado, mas ainda digno do evangelho e da grandeza da ressurreição de Cristo, filho da ira, mas filho de Deus em potencial. Nossa missão por isso é esperançosa, pois pela esperança, sabemos de que alguma forma o que fazemos redundará em glória para Deus na consumação/restauração de todas as coisas. Não posso deixar de amar, pois é criação. Não posso ser utópico, pois há queda. Não posso ser pessimista, pois há esperança.
3) Intervenções comunitárias precisam ser carregadas de intencionalidade educacional. Se há intento pedagógico, há uma antropologia filosófica clara. Ou seja, se o homem é um ser em estado de inacabamento, que tipo de homem desejamos formar nestes adolescentes e jovens? Um homem do consumo? Um homem do conhecimento? Um homem integral? Um homem restituído de sua dignidade como filho de Deus? Sem clareza a respeito de que homem intentamos formar, a intencionalidade educacional fica difusa ou comprometida.
4) Encarnação como princípio missiológico: Se o Verbo de Deus se fez carne em Jesus (Jo 1:14) e se Ele se esvaziou e assumiu forma servil (Fp 3), é um mandamento que todo vocacionado nestas comunidades se revista da linguagem, da realidade cultural e de sua própria humanidade. Sua encarnação é simultaneamente contextualizada e subversiva, pois afeta estruturas pecaminosas e iníquas Encarnação missiológica, significa que não olho de "cima pra baixo", eu desço a montanha como Moisés, com as "tábuas da palavra" em mãos. Missão é tradução, ou nos termos de João Calvino, envolve uma "acomodação" da linguagem a fim de tornar grandes verdades compreensíveis a um público que vive outra realidade cultural. Daí, o vocacionado em comunidades com esta realidade, deve se valer de toda sua criatividade e recursos, para comunicar com clareza a mensagem do Reino em Cristo em toda sua plenitude.
5) A mensagem do Reino é comunicada de forma integral, em algum sentido, a ressurreição é a Nova Criação (N.T. Wright), se assim o é, é inerente ao evangelho: a salvação, cultura, justiça, sabedoria, beleza, plenitude, saúde, educação, responsabilidade ética, cidadania e por aí vai.
6) Amor... amar envolve um princípio de hospitalidade. Um tratamento bíblico de que cada pessoa é um mundo, cada pessoa é um universo em potencial. Amar é romper com o tratamento massificante (tão recorrente em instituições públicas) e ver em cada indivíduo um universo, um mundo próprio e singular. Amor significa derramar sua vida, sua energia, seu tempo, sua disposição, seu calor pelo outro. Esta deve ser uma meta constante...
São princípios dinâmicos, não-abstratos, conectados com a prática, apegados com a rotina de trabalhos de natureza sócio-educativas nestas comunidades.Que possamos prosseguir neste alvo e perspectiva de que Jesus Cristo é o agente principal de transformação destas vidas e comunidades.
A Encarnação e uma Igreja Relevante
Pra muita gente, a Igreja Local é aquele lugarzinho que todo mundo vai lá, faz uma coreografia de culto e adoração a Deus, ficam em silêncio ouvindo um sermão e depois de alguns tapinhas nos ombros e saudações automáticas, cada um segue seu rumo, e correm para ver se dá tempo de ver o "Fantástico".
Ao admitirmos que Jesus Cristo é o centro e fundamento donde tudo faz sentido, temos que admitir que sua comunidade, chamada por Ele de "corpo", tem uma papel magnífico de estender sua missão e a relevância de sua mensagem através do tempo e do espaço.
O mundo muda, as coisas mudam, a cultura muda, igualmente os desafios de tornar o evangelho relevante também mudam. Amei a definição de meu amigo e historiador José Cristiano, quando conceitua o cristianismo como uma "visão de mundo", um locus, a interface entre a linguagem de Sião (a linguagem dos santos) e a linguagem dos gregos. Lá se acumulam as experiências, o conhecimento, os argumentos, os concílios, os fracassos e acertos, lá estão as impressões que "joios" e "trigos" imprimiram, e é isto que me faz acreditar no cristianismo, como um espaço fértil, donde a Igreja, noiva misteriosa de Cristo, pode se enriquecer e ser enriquecida. Não é porque ele - o cristianismo - é "certinho", unânime, uniforme e "purinho", que me faz o cristianismo um movimento interessante, é justamente por sua capacidade de lidar com a complexidade da cultura.
Não dá para brincarmos de "Igreja", não dá para nos distrairmos dentro de um gueto religioso, não dá. Não dá porque estamos diante de um mundo cheio de questões culturais complexas. Nossos jovens não conseguem nos entender mais, nossa linguagem se tornou massante, hermética, sem sentido. Quando se fala de "Igreja" o mundo responde com as impressões saturadas da linguagem gospel. Definitivamente não dá.
Nos grandes centros, nos caldeirões culturais a coisa ainda é mais grave. Lá a comunidade local não sabe lidar com os movimentos artísticos, com os desafios que nossos jovens encaram na universidade. Nossos pastores não sabem (tirando raras exceções) que suas ovelhas andam se corroendo pela lógica fria, pelos determinismos numéricos, pelos filósofos pós-estruturalistas, pelos marxistas doutrinários. Sem contar, aquelas ovelhas imaturas, que são seduzidas pela ambição de se tornarem "bem sucedidas" como último sentido da vida.
Enquanto algumas comunidades estão preocupadíssimas com movimentos internos, com "possíveis rebeldes" no rebanho, esquecem que suas ovelhas já estão sendo devoradas por dentro, pelos valores deste século. Infelizmente, estes líderes não conhecem mais a música de sua geração, não conhecem as tribos urbanas e a cultura narcisista de seu tempo.
A resposta? Lembre-se, Deus está em missão! Ele se voltou para o mundo e se lançou no meio da história. O Verbo em Carne, Jesus, é Deus dramatizado, é a vontade de Deus em 3D. Com que propósito?
"... a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus." (Ef 3:18-19).A encarnação é escandalosamente desafiadora. Ela nos adverte que Deus quis se tornar tão conhecido que "apelou". Ele enviou seu Verbo de forma que pudéssemos apreendê-lo. Se Deus virou gente para se tornar conhecido, então, no que deveríamos nos transformar para que a comunicação de Cristo se torne relevante? Paulo responde:
"Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns. Tudo faço por causa do evangelho, com o fim de me tornar cooperador com ele."(I Co 9:22-23).De alguma forma, o drama da encarnação do verbo, continua pela Igreja. A comunidade batizada (empréstimo de Vanhoozer), a cidade de Deus, agora testemunha aos cidadãos da cidade dos homens, por meio de uma linguagem clara e relevante: Jesus Cristo já tomou os poderosos deste século, tudo e todos estão agora sob seu poder.
Neste sentido, nossa missão muda e o desafio é que, mais e mais, cristãos precisam se tornar engajados, precisam saber circular na cultura, nas artes e na política. Como Daniel, que na corte babilônica, no epicentro da cultura do mundo antigo, não comia das iguarias do Rei, pois tinha uma missão. A missão de Daniel, como a nossa, é sermos jovens, sábios, integrados com Deus, sem nos deixarmos desintegrar pela Babilônia, e lá, desvendar e desnudar, os mistérios, até que Nabucodonozor tenha que admitir:
"Certamente, o vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos reis, e o revelador de mistérios, pois pudeste revelar este mistério." (Dn 2:47-48).Honestamente, não dá pra ser "crente burro" na atual conjuntura. Do contrário seremos engolidos por este século, destruídos e nossa identidade ficará aos cacos.
Coragem! Jesus Cristo é o Senhor.


