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20 de mai. de 2014 | By: @igorpensar

Missão Integral & Entrevista

Compartilho a excelente entrevista dada ao programa Academia em Debate da TV Mackenzie. E logo abaixo, ponderações pessoais a respeito do conteúdo da entrevista.




Missão Integral: ponderações à entrevista de
Jonas Madureira e Filipe Fontes1

Por Igor Miguel2


Acabei de assistir a entrevista do mano e Prof. Jonas Madureira e o Prof. Filipe Fontes disponível neste endereço https://www.youtube.com/watch?v=34PPk-sCNhU. Não sou nenhum especialista em temas teológicos. Como digo, da teologia deleito-me com o que julgo ser fundamental para minha existência e fé em Cristo. Sou obrigado como cristão a dar razão para minha fé e missão. Logo, minha posição aqui é passível de inúmeras objeções ou contra-argumentos, e estou aberto a elas.

Lembrando que Jonas é um amigo de fé e jornada, e sou admirador de seus textos e falas, aprendo muito com ele. Ele sabe disso. Quanto ao Filipe, não o conheço, mas gostei de sua participação na entrevista. De qualquer forma, considerem meus apontamentos aqui fruto de um interesse profundo de aprendizagem mútua. E claro, uma conversa doméstica ao cheiro virtual de um bom café. Sendo assim, trato ideias e não pessoas, até pelo motivo de respeitá-las.

Primeiro, considero a entrevista de boa qualidade. As perguntas levantadas pelo Rev Augustus Nicodemus foram pertinentes e tocaram em aspectos sensíveis no debate a respeito da teologia da missão integral.

Segundo, em geral, a entrevista foi precisa nas objeções apresentadas. Posso dizer que a entrevista é indicadíssima em termos teológicos. Não tenho dúvida de que há uma dependência de ideologias orientadas à esquerda entre os propagadores da teologia da missão integral. Isto a tal ponto, que o termo “missão integral” se tornou, como observado na entrevista, quase um sinônimo de uma espécie de “teologia de esquerda”, ou ainda, uma equivalência evangélica da teologia da libertação. Concordo com a ausência ou falta de clareza metodológicas entre os proponentes da missão integral e que há um certo ufanismo anti-imperialista, traduzido, muitas vezes, em um insistente desejo de elaboração de uma “teologia sul-americana”. Claramente, reproduções, ou no mínimo, reverberações ideológicas revolucionárias.

Além disso, uma objeção forte refere-se à dependência de certa epistemologia sociológica, e seu discurso como interface científica de modo a aproximar uma teologia que lida com questões de natureza social. Eu percebi isso, e não somente eu, que no documento provisório apresentado na recente Consulta do Movimento Lausanne, em Atibaia-SP, havia um tom excessivamente sociológico, quando deveria ser mais teológico. Claro, isto sem desconsiderar as implicações sociológicas da teologia da prosperidade, objeto daquele documento. De qualquer forma, um documento que represente o posicionamento da igreja evangélica brasileira deveria ser elaborado a partir da gramática da igreja, que é fundamentalmente teológica.

Chamo a atenção para o cuidado dos entrevistados em afirmar que há algo aí que a teologia da missão integral detectou que é legítimo, e que em geral, evangelicais históricos e ortodoxos, ignoram. O problema da pobreza deve ser tratado por cristãos de alguma forma. Claro, os encontros de Lausanne eram pra lidar com os rumos da missão no mundo moderno e globalizado, o que implicava também, em certa complexidade missiológica. O mundo tornou-se deveras multifacetado, obviamente, os desafios missionários tornaram-se igualmente complexos. Logo, isto exigia uma definição geral dos rumos da Grande Comissão, principalmente ante os novos desafios, o que incluiria o problema da pobreza.

Também percebo no discurso da teologia da missão integral a busca por um apoio em Lausanne, que não considera seriamente todas as implicações de um “Cristo todo, para o homem todo”. E, ironicamente, às vezes o que é chamado de missão integral acaba sendo uma missão reducionista. Pois ao reconhecer a necessidade de uma missão abrangente, acaba por concentrá-la apenas à dimensão social, o que pode ser mais uma evidência da influência da sociologia materialista histórica. Os entrevistados chamaram a atenção para esta fraqueza.

Agora, minhas observações. Bem, reconheço que a adoção de uma distinção entre missão e evangelismo é consistente. Bom lembrar que o termo “missão” foi elaborado historicamente para descrever aquilo que Deus confiou à Igreja e aos cristãos como tarefa a ser cumprida. Um termo exógeno à revelação que sintetiza uma verdade escriturística: o cristão e a igreja têm uma tarefa a cumprir. Entretanto, sou favorável a uma percepção mais abrangente (não digo em importância, mas em aspectos) do termo “missão”. Guilherme de Carvalho (2009) defende esta distinção também, a missão é abrangente, inclui tudo aquilo que Deus comissionou o novo homem recriado em Cristo e que vive sob seu senhorio: o que abrangeria os mandatos criacionais (religioso, cultural e social), e claro, o anúncio do Evangelho.

Não vou aqui repetir, o que todos deveriam ler: a genealogia da evolução teológica de Lausanne já elaborada e publicada em português, bem como uma proposta teológica alternativa e reformada ao predominante e enviesado discurso da missão integral (ibid., 2009). Não vi ninguém fazendo uma séria objeção ao que me refiro aqui, considerem seriamente os textos mencionados.

Mas, enfim, nesses artigos, o autor demonstra que a evolução do debate sobre a relação evangelismo e ação social passou por várias propostas: desde umas mais fundamentalistas, que insistiam em uma clara distinção, quase que ignorando totalmente o cuidado cristão com os mais pobres; até aqueles em um espectro mais à esquerda (com alguma aproximação de uma teologia mais liberal), que quase fundia o sentido de Evangelho com cuidado com os pobres. O que ao norte seria imediatamente associado ao que é chamado de Evangelho Social.

Por fim há os que preferem um posicionamento mais sóbrio. O que significaria que a missão cristã é abrangente e deve ter em seu escopo o evangelismo. O evangelismo não deveria ser confundido com ação social, mas esta também não deveria ser colocada em tensão com aquela. Antes, deveriam ser concomitantes. Afinal, a fé deve ser acompanhada de obras. O anúncio não deveria estar desassociado do testemunho. Timothy Keller (2013) também trata esta questão de forma bem simples, mas com uma precisão magistral: “o evangelho produz interesse pelo pobre e as obras de justiça dão credibilidade à pregação do evangelho. Em outras palavras, justificação pela fé nos leva a fazer justiça, e fazer justiça leva muitos a buscar a justificação pela fé.” (p.142).

Na entrevista, parece que não ficou clara esta distinção. De qualquer forma, alegar que a única tarefa da igreja, ou seja, sua missão, é exclusivamente “evangelística”, seria ignorar textos bíblicos sérios. Como, por exemplo, aqueles que dizem que Deus tem remido para si um povo “zeloso e de boas obras” (Tt 2:14); que Deus nos criou em Cristo para “boas obras” (Ef 2:10); que as obras do discípulo fazem os homens glorificar a Deus, como ensinado por Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5:16); e finalmente, a conhecida exortação de Tiago a respeito das obras como evidências da fé.

Quando se fala de obras, fala-se de todo mandato adâmico que fora reconstituído na nova humanidade que emerge de Jesus. Temos que cultivar um jardim para a glória de Deus. E isto inclui, apesar de não exclusivamente, o cuidado com o mais vulnerável, como nos ensinou Jesus por meio da parábola do bom samaritano.

No que tange a nossa tradição reformada, esta ênfase abrangente da tarefa cristã, é claramente reconhecida no “amor ao próximo”. Claro que o melhor que podemos oferecer aos homens é a boa-nova, mas ela não deveria ser concorrente ou ameaçadora em relação a outras tarefas implicadas na missão cristã. Que como disse, sou favorável a uma concepção lato sensu.

Assim, repito, deveríamos reconhecer que a missão é integral sim, independente do termo estar deveras intrincado com teologias ideologicamente enviesadas, ainda assim, deveríamos considerar o sentido do termo. Uma missão integral é a tarefa cristã que reconhece que não há dimensão neutra da existência humana. Reduzir a missão à dimensão da justiça social, seria contradizer a natureza integral da missão. Ela toca nesta dimensão, mas também, opera na academia, na ciência, na política, nas artes e em todas estas esferas.

Se reconhecemos que a missão cristã é integral, o fazemos por considerar que Cristo reina integralmente. Se o senhorio de Cristo é o que orienta nossa missão, é bom mencionar que temos subsídio em nossa tradição, em particular a reformada, para uma missiologia integral. Refiro-me, em particular, ao que encontramos em Abraham Kuyper, ou no que chamamos de neocalvinismo. Mas, isto seria outra conversa. Aos mais corajosos, deixo a indicação dos textos: A Missão Integral na Encruzilhada: reconsiderando a tensão no pensamento teológico de Lausanne e O Senhorio de Cristo e a Missão da Igreja na Cultura: a ideia de soberania e sua aplicação (Carvalho, 2009). Pois estou longe de ser o primeiro a defender uma tese missiológica neste sentido.


REFERÊNCIAS

CARVALHO, Guilherme de. A Missão Integral na Encruzilhada: reconsiderando a tensão no pensamento teológico de Lausanne e O Senhorio de Cristo e a Missão da Igreja na Cultura: a ideia de soberania e sua aplicação In.: RAMOS, Leonardo. CAMARGO, Marcel. AMORIM, Rodolfo. Fé Cristã e Cultura Contemporânea: cosmovisão cirstã, igreja local e transformação integral. Viçosa: Ultimato, 2009. p.11-95.

KELLER, Timothy. Justiça Generosa: a graça de Deus e a justiça social. São Paulo: Vida Nova, 2013.

1 Fiz um breve comentário no mural do Facebook do amigo Paulo Dib a respeito do vídeo. Jonas considerou minhas ponderações sinteticamente lá publicadas. Agradeço pela concordância com os pontos lá levantados. Este texto é uma versão expandida.

29 de set. de 2013 | By: @igorpensar

Conheça o Povos & Línguas

O Programa Povos & Línguas é uma iniciativa interdenominacional engajada na promoção da cultura missionária e no despertamento de vocacionados para a grande comissão.  Neste episódio foi tratado o trabalho missionário brasileiro na Suazilândia, um pequeno país africano, localizado próximo a Moçambique e África do Sul.   Participamos deste vídeo, como vocês podem ver na parte final, com uma reflexão sobre a grande comissão.  O programa é sempre exibido na TV pela Rede Super e todos os vídeos ficam disponíveis na íntegra no YouTube.


23 de set. de 2013 | By: @igorpensar

Ajude um Educador Moçambicano

Prezados amigos e irmãos de fé,

Você já teve vontade de fazer algo significativo para alguém?  Já sentiu seu coração ardendo por fazer a diferença na vida de uma pessoa?  Você até tem a disposição para fazê-lo, mas não sabe como?  Há muitas formas de ajudar na transformação de vidas e comunidades, mas as vezes não sabemos como fazê-lo.  Então, esta é uma oportunidade concreta em que você poderá fazer algo por alguém e que terá implicações reais.

Visitei a base missionária do CEMU em Nhamatanda - Sofala - Moçambique nesta primeira quinzena de setembro de 2013.  Dentre as experiências e conhecimentos surpreendentes, senti-me movido em ajudar um educador nativo, o irmão Noé Alvista.  


Noé ama estudar.  Em um lugar onde a educação básica não obrigatória, a maioria dos adolescentes não quer frequentar a escola, ainda mais na cidade de Nhamatanda, um vilarejo modesto e tradicional.  Noé me relatou que a escola mais próxima de onde morava era uns 12 quilômetros e ele ia de bicicleta e voltava todo dia.  Muitas vezes, ele fez este trajeto total de 24 quilômetros por dia debaixo de chuva e com lama.  Noé aprendeu inglês e francês, ao lhe perguntar como fez para aprender estes idiomas, ele me disse que não tinha dinheiro para comprar livros, mas que seu primo os possuía.  Então, ele copiava à mão capítulos inteiros, só para estudá-los depois em casa.  

Atualmente, Noé ensina português, inglês e orienta educacionalmente crianças de sua comunidade na Casa de Aser, a base missionária do CEMU em Nhamatanda. 


Noé precisa aperfeiçoar sua vocação para a docência e o ensino.  Para isto, ele tem que buscar formação acadêmica, ele precisa ter um curso superior em pedagogia, de modo a ajudar não só no ensino, mas na coordenação pedagógica da escola que está sendo construída nas instalações da Casa de Aser em Nhamatanda.   

Quando ouvi e conheci a vocação de Noé, que é um cristão que ama educar,  pensei no que poderíamos fazer para ajudá-lo.  Senti-me movido em mobilizar pessoas que possam contribuir com um valor fixo mensal até ele se formar.  O curso tem duração de 4 anos. Quem sabe esta é a oportunidade que você tem de fazer real diferença na vida de uma pessoa e uma comunidade?



Não importa com quanto você queira e pode contribuir, o que importa é seu compromisso mensal com esta ajuda.  A ajuda pode ser enviada até ele se formar (4 anos) ou pode ser entregue por um tempo determinado.  O custo total com transporte, compra de material didático e mensalidade é o equivalente a R$ 700,00 por mês.  Os estudos do Noé começam em outubro e eu gostaria de enviar este valor para ele todo mês até o final do curso.

Se você quer ajudar o Noé, por favor, me envie um e-mail igor@teologo.org e envio maiores informações.  Todo processo acontecerá em total transparência, inclusive se alcançarmos o teto, vocês serão informados.  Além disso, os recursos e a tutoria com o Noé seria mediada pelo CEMU que nos informará como anda a formação e os estudos do Noé.

Ore a respeito disso e se você quer participar desta vocação do Noé, que é uma dádiva para a transformação de Nhamatanda, faça sua contribuição.


Para contribuir com a formação do Noé envie seu e-mail para igor@teologo.org

Abraços,
Igor Miguel
17 de abr. de 2013 | By: @igorpensar

Evangelho na Perifa

 Por Igor Miguel


Sou educador e lido com crianças e adolescentes em situação de risco e vulnerabilidade social todos os dias úteis há quase três anos.  Dentre muitas coisas que aprendemos sobre a periferia, como o tráfico, a violência, a pobreza e o abuso, também aprendemos sobre como a visão de Deus, a religião e a fé são temas muito presentes nestes contextos.

Todos que já trabalharam como voluntários ou educadores em comunidades deste perfil, já perceberam o número impressionante de crianças e adolescentes que se afirmam cristãos evangélicos.  Porém, algo que já percebia nas comunidades evangélicas de classe média, acabei encontrando, com um pouco mais de expressividade, dentre estes de aglomerados e complexos da Grande Belo Horizonte.

Nitidamente, comecei a perceber um tipo de evangelicalismo placebo, algo bem comum e familiar a todos nós: aquele tipo de crente que tem um linguajar peculiar, reproduz determinadas expressões e trejeitos muito comuns na maioria das igrejas evangélicas.   É predominante, em tais meios, um tipo de visão de mundo afetado por demônios, batalhas espirituais, com tempero de teologia da prosperidade e uma pitada de auto-ajuda e por aí vai.

Se a coisa anda meio complicada nas comunidades centrais, nas periféricas vemos a face mais sombria disso tudo.  Lá, eles reproduzem o que algumas igrejas centrais produzem, porém, muito mais estereotipado, chega ser meio trash e perturbador.

Mas, Igor, você está sendo um pouco intolerante, não?  Que nada, agora que vou mostrar minha verdadeira intolerância.  Então segura negada!

Pois é, o lance é o seguinte, o que vejo nestas comunidades é algo muito mais sombrio.  Vejo uma igreja evangélica “desevangelizada”.  Simplesmente, não há evangelho lá.  Há uma outra coisa, um teatro, um tipo de emocionalismo de massa travestido de linguagem gospel.  E sinceramente, acho tudo isso aterrorizante, sombrio e alarmante.

Um dia, fui convidado para falar a respeito da páscoa para um grupo de crianças e adolescentes de um determinado aglomerado.  Então lá fui eu.  Preparei um vídeo, na verdade um animê, que reproduz a crucificação na perspectiva do “ladrão da cruz”, que se converteu.  Mas antes de exibi-lo, quis introduzir a temática da páscoa, crucificação e ressurreição.  Caí na boa “besteira” de fazer algumas perguntas para curto-circuitar cérebros e espíritos cativos de uma mistura de “eu quero tchu, eu quero tcha” com “muda toda mexe com minha estrutura".

Primeiro lhes perguntei como uma pessoa poderia ser aceita por Deus, a resposta foi quase unânime, com poucas variações: uma pessoa é aceita por Deus quando cumpre seus mandamentos, quando lhe obedece.  Claro que a esta altura, fiz inúmeras conexões sócio-religiosas e doutrinárias.  Ali estava eu, testemunhando o tipo de evangelho moralista que domina a periferia, mas que também, é uma reprodução da teologia das igrejas ditas “centrais”.  Então, tive a coragem de fazer uma pergunta, que só confirmaria o que já sabia por intuição: quantos deles frequentavam alguma igreja evangélica?  Maldito empirismo!  Claro, os dados estavam diante de mim, todas as mãos, dos quase vinte, levantadas.  Pasmem, eles não são católicos, são evangélicos!  Nominais, é claro, em sua maioria esmagadora.  Ué?  Existe isso entre evangélicos?  Agora existe meu filho.

Claro, aproveitei a oportunidade, e disparei uma pergunta básica: Se somos aceitos por Deus pelo que fazemos, então qual é o valor do que Jesus fez?  Por que precisamos de Jesus Cristo?  Por que Ele morreu na cruz?  A esta altura, ouve-se aquele barulhinho do “Windows” quando dá um erro... “fam!”.   Pois é, quase ouvi os grilos... então, o silêncio foi interrompido com um corajoso que disse: Ele morreu para perdoar nossos pecados.  Síntese?  Tá bom.

Vamos esclarecer as coisas.  O negócio é o seguinte, você se chega a Deus pelo que você faz ou deixa de fazer. Beleza, uma religião moralista bonitinha.  Aí, quando você pisa na bola, corre pra Jesus e pede o perdão pelo sangue dele.  Depois que você é perdoado, lá vai o crente, mais uma vez, tentando fazer tudo bonitinho, e como em um círculo vicioso, ele vai fracassar, e pronto, sente-se mais uma vez dentro do inferno.   Este é o evangelho da “perifa”, mas também das “centrais”.  Das igrejas dos aglomerados, é verdade, mas também das de classe média.  Uma bela religião de formalismos, aparências, linguagens sem conteúdo, frases reproduzidas e toda esta tranqueira adornada com um adesivo do tipo “Deus é fiel!”.  Uma frase de efeito desprovida de qualquer conteúdo para as pessoas que a ostentam.

Então, tive que abrir o jogo, e comecei a anunciar o evangelho e comecei afirmando: todos nós nos chegamos a Deus por um único mediador, Jesus Cristo.  O que Deus fez ao enviar o seu Filho é gigantesco, e não há nada que possamos fazer, que impressione a Deus mais do que Jesus crucificado.  Nem um de nós pode fazer o que Jesus fez.  Deus só aceita uma obra e uma obediência no universo: aquela que seu filho Jesus Cristo realizou.  Logo, se você quer impressionar a Deus pelo que você faz, já é hora de desistir.  Deus já está impressionado e seus olhos estão fixos e uma única coisa: a obediência de Cristo.  Se você quer ser aceito por Deus, corra pra Jesus!  Abrace a obra de Jesus, e finalmente, acredite que tudo que Ele fez foi suficiente.  Não só para te perdoar, mas para te colocar diante de Deus como filho, igual a Ele.  Somente assim, você receberá o dom do Espírito Santo e terá as condições para obedecer a Deus.  Não movido por algum medo, mas por pura gratidão e vontade de servi-lo.  Certamente, você ainda pecará, mas sentirá repulsa pelo pecado.  Afinal, agora você é filho de Deus, você nasceu de novo, já está salvo, já foi aceito por Deus e o pecado será algo que não lhe pertence mais. 

Então, soltei o desenho da crucificação.  No final, só ouvi as fungadas, crianças esfregando os olhos, e finalmente, fiz uma oração com eles.  Solicitei, que só orassem aqueles que realmente acreditavam  que de fato Jesus Cristo é a única obediência e obra aceita por Deus, e que só há um jeito de uma pessoa ser aceita  por Ele: crer em Jesus, dar crédito à sua obediência.  A questão não é aceitar Jesus, é ser aceito por Deus em Jesus.

Conclusão?  Muitos ditos evangélicos, nunca foram evangelizados.  Muitos que sabem de cor as canções pop do meio evangélico, não sabem o que significa a cruz, Jesus, o Evangelho em todas as suas implicações.  Muita gente vive um tipo de religião moralista, baseada em obras pessoais, e ainda acreditam, em um “jezuizinho”, que só serve pra perdoar pecados eventuais em uma fracassada tentativa de atrair a atenção de Deus por “obras legalistas”.   Definitivamente,  evangélicos centrais e periféricos, precisam ser evangelizados.  Pode acreditar!  Quem sabe assim, os centrais sejam evangelizados pela periferia. Porque o contrário, até agora, não funcionou.
22 de dez. de 2011 | By: @igorpensar

Deus no Exílio


O artigo de nossa autoria "Deus no Exílio" acabou de ser publicado no site da Editora Ultimato.  Uma reflexão sobre a "missão de Deus", cuja expressividade mais significativa encontra-se na encarnação do Verbo, que é Jesus.  Neste período que refletimos sobre os grandes feitos de Deus em Jesus, quando se fez carne em Belém, deveríamos nos lembrar que Deus está em busca de seus filhos no exílio.

7 de fev. de 2011 | By: @igorpensar

Princípios na Missão

Por Igor Miguel

Como trabalhamos diretamente (face-to-face) com crianças e adolescentes que carecem de atenção e processos educativos adicionais, procuramos integrar nossa vocação pedagógica com vocação missionária. Como sei que muitos dos que visitam este blog estão engajados em missões urbanas, missão transcultural, missão integral, transformação comunitária e similares, desejamos compartilhar alguns princípios missiológicos que nos ajudam muito durante os trabalhos que realizamos com crianças/jovens/adolescentes em situação de risco:

1) Se vida transcende vida biológica, se o termo envolve a integralidade da vida humana, tudo que fragmenta, desintegra, violenta, perverte e distorce a vida é morte. Neste sentido, a missão com jovens em situação de risco e em comunidades de periferia envolve o testemunho e a ação da ressurreição: beleza, amor, alegria, sabedoria, plenitude e justiça.

2) Aborde a dura realidade destas comunidades sob uma visão de mundo reformada: criação-queda-redenção-consumação ou seja, quando olho pro rosto de um menino que reproduz a violência de sua família, não vejo uma criança indisciplinada, mas um ser a imagem de Deus (por isso digno do amor) trincado pelos efeitos da queda. Trincado, mas ainda digno do evangelho e da grandeza da ressurreição de Cristo, filho da ira, mas filho de Deus em potencial. Nossa missão por isso é esperançosa, pois pela esperança, sabemos de que alguma forma o que fazemos redundará em glória para Deus na consumação/restauração de todas as coisas. Não posso deixar de amar, pois é criação. Não posso ser utópico, pois há queda. Não posso ser pessimista, pois há esperança.

3) Intervenções comunitárias precisam ser carregadas de intencionalidade educacional. Se há intento pedagógico, há uma antropologia filosófica clara. Ou seja, se o homem é um ser em estado de inacabamento, que tipo de homem desejamos formar nestes adolescentes e jovens? Um homem do consumo? Um homem do conhecimento? Um homem integral? Um homem restituído de sua dignidade como filho de Deus? Sem clareza a respeito de que homem intentamos formar, a intencionalidade educacional fica difusa ou comprometida.

4) Encarnação como princípio missiológico: Se o Verbo de Deus se fez carne em Jesus (Jo 1:14) e se Ele se esvaziou e assumiu forma servil (Fp 3), é um mandamento que todo vocacionado nestas comunidades se revista da linguagem, da realidade cultural e de sua própria humanidade. Sua encarnação é simultaneamente contextualizada e subversiva, pois afeta estruturas pecaminosas e iníquas Encarnação missiológica, significa que não olho de "cima pra baixo", eu desço a montanha como Moisés, com as "tábuas da palavra" em mãos. Missão é tradução, ou nos termos de João Calvino, envolve uma "acomodação" da linguagem a fim de tornar grandes verdades compreensíveis a um público que vive outra realidade cultural. Daí, o vocacionado em comunidades com esta realidade, deve se valer de toda sua criatividade e recursos, para comunicar com clareza a mensagem do Reino em Cristo em toda sua plenitude.

5) A mensagem do Reino é comunicada de forma integral, em algum sentido, a ressurreição é a Nova Criação (N.T. Wright), se assim o é, é inerente ao evangelho: a salvação, cultura, justiça, sabedoria, beleza, plenitude, saúde, educação, responsabilidade ética, cidadania e por aí vai.

6) Amor... amar envolve um princípio de hospitalidade. Um tratamento bíblico de que cada pessoa é um mundo, cada pessoa é um universo em potencial. Amar é romper com o tratamento massificante (tão recorrente em instituições públicas) e ver em cada indivíduo um universo, um mundo próprio e singular. Amor significa derramar sua vida, sua energia, seu tempo, sua disposição, seu calor pelo outro. Esta deve ser uma meta constante...

São princípios dinâmicos, não-abstratos, conectados com a prática, apegados com a rotina de trabalhos de natureza sócio-educativas nestas comunidades.

Que possamos prosseguir neste alvo e perspectiva de que Jesus Cristo é o agente principal de transformação destas vidas e comunidades.
8 de out. de 2010 | By: @igorpensar

A Encarnação e uma Igreja Relevante

Por Igor Miguel

Pra muita gente, a Igreja Local é aquele lugarzinho que todo mundo vai lá, faz uma coreografia de culto e adoração a Deus, ficam em silêncio ouvindo um sermão e depois de alguns tapinhas nos ombros e saudações automáticas, cada um segue seu rumo, e correm para ver se dá tempo de ver o "Fantástico".

Ao admitirmos que Jesus Cristo é o centro e fundamento donde tudo faz sentido, temos que admitir que sua comunidade, chamada por Ele de "corpo", tem uma papel magnífico de estender sua missão e a relevância de sua mensagem através do tempo e do espaço.

O mundo muda, as coisas mudam, a cultura muda, igualmente os desafios de tornar o evangelho relevante também mudam. Amei a definição de meu amigo e historiador José Cristiano, quando conceitua o cristianismo como uma "visão de mundo", um locus, a interface entre a linguagem de Sião (a linguagem dos santos) e a linguagem dos gregos. Lá se acumulam as experiências, o conhecimento, os argumentos, os concílios, os fracassos e acertos, lá estão as impressões que "joios" e "trigos" imprimiram, e é isto que me faz acreditar no cristianismo, como um espaço fértil, donde a Igreja, noiva misteriosa de Cristo, pode se enriquecer e ser enriquecida. Não é porque ele - o cristianismo - é "certinho", unânime, uniforme e "purinho", que me faz o cristianismo um movimento interessante, é justamente por sua capacidade de lidar com a complexidade da cultura.

Não dá para brincarmos de "Igreja", não dá para nos distrairmos dentro de um gueto religioso, não dá. Não dá porque estamos diante de um mundo cheio de questões culturais complexas. Nossos jovens não conseguem nos entender mais, nossa linguagem se tornou massante, hermética, sem sentido. Quando se fala de "Igreja" o mundo responde com as impressões saturadas da linguagem gospel. Definitivamente não dá.

Nos grandes centros, nos caldeirões culturais a coisa ainda é mais grave. Lá a comunidade local não sabe lidar com os movimentos artísticos, com os desafios que nossos jovens encaram na universidade. Nossos pastores não sabem (tirando raras exceções) que suas ovelhas andam se corroendo pela lógica fria, pelos determinismos numéricos, pelos filósofos pós-estruturalistas, pelos marxistas doutrinários. Sem contar, aquelas ovelhas imaturas, que são seduzidas pela ambição de se tornarem "bem sucedidas" como último sentido da vida.

Enquanto algumas comunidades estão preocupadíssimas com movimentos internos, com "possíveis rebeldes" no rebanho, esquecem que suas ovelhas já estão sendo devoradas por dentro, pelos valores deste século. Infelizmente, estes líderes não conhecem mais a música de sua geração, não conhecem as tribos urbanas e a cultura narcisista de seu tempo.

A resposta? Lembre-se, Deus está em missão! Ele se voltou para o mundo e se lançou no meio da história. O Verbo em Carne, Jesus, é Deus dramatizado, é a vontade de Deus em 3D. Com que propósito?
"... a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus." (Ef 3:18-19).
A encarnação é escandalosamente desafiadora. Ela nos adverte que Deus quis se tornar tão conhecido que "apelou". Ele enviou seu Verbo de forma que pudéssemos apreendê-lo. Se Deus virou gente para se tornar conhecido, então, no que deveríamos nos transformar para que a comunicação de Cristo se torne relevante? Paulo responde:
"Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns. Tudo faço por causa do evangelho, com o fim de me tornar cooperador com ele."(I Co 9:22-23).
De alguma forma, o drama da encarnação do verbo, continua pela Igreja. A comunidade batizada (empréstimo de Vanhoozer), a cidade de Deus, agora testemunha aos cidadãos da cidade dos homens, por meio de uma linguagem clara e relevante: Jesus Cristo já tomou os poderosos deste século, tudo e todos estão agora sob seu poder.

Neste sentido, nossa missão muda e o desafio é que, mais e mais, cristãos precisam se tornar engajados, precisam saber circular na cultura, nas artes e na política. Como Daniel, que na corte babilônica, no epicentro da cultura do mundo antigo, não comia das iguarias do Rei, pois tinha uma missão. A missão de Daniel, como a nossa, é sermos jovens, sábios, integrados com Deus, sem nos deixarmos desintegrar pela Babilônia, e lá, desvendar e desnudar, os mistérios, até que Nabucodonozor tenha que admitir:
"Certamente, o vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos reis, e o revelador de mistérios, pois pudeste revelar este mistério." (Dn 2:47-48).
Honestamente, não dá pra ser "crente burro" na atual conjuntura. Do contrário seremos engolidos por este século, destruídos e nossa identidade ficará aos cacos.

Coragem! Jesus Cristo é o Senhor.