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20 de mai. de 2014 | By: @igorpensar

Missão Integral & Entrevista

Compartilho a excelente entrevista dada ao programa Academia em Debate da TV Mackenzie. E logo abaixo, ponderações pessoais a respeito do conteúdo da entrevista.




Missão Integral: ponderações à entrevista de
Jonas Madureira e Filipe Fontes1

Por Igor Miguel2


Acabei de assistir a entrevista do mano e Prof. Jonas Madureira e o Prof. Filipe Fontes disponível neste endereço https://www.youtube.com/watch?v=34PPk-sCNhU. Não sou nenhum especialista em temas teológicos. Como digo, da teologia deleito-me com o que julgo ser fundamental para minha existência e fé em Cristo. Sou obrigado como cristão a dar razão para minha fé e missão. Logo, minha posição aqui é passível de inúmeras objeções ou contra-argumentos, e estou aberto a elas.

Lembrando que Jonas é um amigo de fé e jornada, e sou admirador de seus textos e falas, aprendo muito com ele. Ele sabe disso. Quanto ao Filipe, não o conheço, mas gostei de sua participação na entrevista. De qualquer forma, considerem meus apontamentos aqui fruto de um interesse profundo de aprendizagem mútua. E claro, uma conversa doméstica ao cheiro virtual de um bom café. Sendo assim, trato ideias e não pessoas, até pelo motivo de respeitá-las.

Primeiro, considero a entrevista de boa qualidade. As perguntas levantadas pelo Rev Augustus Nicodemus foram pertinentes e tocaram em aspectos sensíveis no debate a respeito da teologia da missão integral.

Segundo, em geral, a entrevista foi precisa nas objeções apresentadas. Posso dizer que a entrevista é indicadíssima em termos teológicos. Não tenho dúvida de que há uma dependência de ideologias orientadas à esquerda entre os propagadores da teologia da missão integral. Isto a tal ponto, que o termo “missão integral” se tornou, como observado na entrevista, quase um sinônimo de uma espécie de “teologia de esquerda”, ou ainda, uma equivalência evangélica da teologia da libertação. Concordo com a ausência ou falta de clareza metodológicas entre os proponentes da missão integral e que há um certo ufanismo anti-imperialista, traduzido, muitas vezes, em um insistente desejo de elaboração de uma “teologia sul-americana”. Claramente, reproduções, ou no mínimo, reverberações ideológicas revolucionárias.

Além disso, uma objeção forte refere-se à dependência de certa epistemologia sociológica, e seu discurso como interface científica de modo a aproximar uma teologia que lida com questões de natureza social. Eu percebi isso, e não somente eu, que no documento provisório apresentado na recente Consulta do Movimento Lausanne, em Atibaia-SP, havia um tom excessivamente sociológico, quando deveria ser mais teológico. Claro, isto sem desconsiderar as implicações sociológicas da teologia da prosperidade, objeto daquele documento. De qualquer forma, um documento que represente o posicionamento da igreja evangélica brasileira deveria ser elaborado a partir da gramática da igreja, que é fundamentalmente teológica.

Chamo a atenção para o cuidado dos entrevistados em afirmar que há algo aí que a teologia da missão integral detectou que é legítimo, e que em geral, evangelicais históricos e ortodoxos, ignoram. O problema da pobreza deve ser tratado por cristãos de alguma forma. Claro, os encontros de Lausanne eram pra lidar com os rumos da missão no mundo moderno e globalizado, o que implicava também, em certa complexidade missiológica. O mundo tornou-se deveras multifacetado, obviamente, os desafios missionários tornaram-se igualmente complexos. Logo, isto exigia uma definição geral dos rumos da Grande Comissão, principalmente ante os novos desafios, o que incluiria o problema da pobreza.

Também percebo no discurso da teologia da missão integral a busca por um apoio em Lausanne, que não considera seriamente todas as implicações de um “Cristo todo, para o homem todo”. E, ironicamente, às vezes o que é chamado de missão integral acaba sendo uma missão reducionista. Pois ao reconhecer a necessidade de uma missão abrangente, acaba por concentrá-la apenas à dimensão social, o que pode ser mais uma evidência da influência da sociologia materialista histórica. Os entrevistados chamaram a atenção para esta fraqueza.

Agora, minhas observações. Bem, reconheço que a adoção de uma distinção entre missão e evangelismo é consistente. Bom lembrar que o termo “missão” foi elaborado historicamente para descrever aquilo que Deus confiou à Igreja e aos cristãos como tarefa a ser cumprida. Um termo exógeno à revelação que sintetiza uma verdade escriturística: o cristão e a igreja têm uma tarefa a cumprir. Entretanto, sou favorável a uma percepção mais abrangente (não digo em importância, mas em aspectos) do termo “missão”. Guilherme de Carvalho (2009) defende esta distinção também, a missão é abrangente, inclui tudo aquilo que Deus comissionou o novo homem recriado em Cristo e que vive sob seu senhorio: o que abrangeria os mandatos criacionais (religioso, cultural e social), e claro, o anúncio do Evangelho.

Não vou aqui repetir, o que todos deveriam ler: a genealogia da evolução teológica de Lausanne já elaborada e publicada em português, bem como uma proposta teológica alternativa e reformada ao predominante e enviesado discurso da missão integral (ibid., 2009). Não vi ninguém fazendo uma séria objeção ao que me refiro aqui, considerem seriamente os textos mencionados.

Mas, enfim, nesses artigos, o autor demonstra que a evolução do debate sobre a relação evangelismo e ação social passou por várias propostas: desde umas mais fundamentalistas, que insistiam em uma clara distinção, quase que ignorando totalmente o cuidado cristão com os mais pobres; até aqueles em um espectro mais à esquerda (com alguma aproximação de uma teologia mais liberal), que quase fundia o sentido de Evangelho com cuidado com os pobres. O que ao norte seria imediatamente associado ao que é chamado de Evangelho Social.

Por fim há os que preferem um posicionamento mais sóbrio. O que significaria que a missão cristã é abrangente e deve ter em seu escopo o evangelismo. O evangelismo não deveria ser confundido com ação social, mas esta também não deveria ser colocada em tensão com aquela. Antes, deveriam ser concomitantes. Afinal, a fé deve ser acompanhada de obras. O anúncio não deveria estar desassociado do testemunho. Timothy Keller (2013) também trata esta questão de forma bem simples, mas com uma precisão magistral: “o evangelho produz interesse pelo pobre e as obras de justiça dão credibilidade à pregação do evangelho. Em outras palavras, justificação pela fé nos leva a fazer justiça, e fazer justiça leva muitos a buscar a justificação pela fé.” (p.142).

Na entrevista, parece que não ficou clara esta distinção. De qualquer forma, alegar que a única tarefa da igreja, ou seja, sua missão, é exclusivamente “evangelística”, seria ignorar textos bíblicos sérios. Como, por exemplo, aqueles que dizem que Deus tem remido para si um povo “zeloso e de boas obras” (Tt 2:14); que Deus nos criou em Cristo para “boas obras” (Ef 2:10); que as obras do discípulo fazem os homens glorificar a Deus, como ensinado por Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5:16); e finalmente, a conhecida exortação de Tiago a respeito das obras como evidências da fé.

Quando se fala de obras, fala-se de todo mandato adâmico que fora reconstituído na nova humanidade que emerge de Jesus. Temos que cultivar um jardim para a glória de Deus. E isto inclui, apesar de não exclusivamente, o cuidado com o mais vulnerável, como nos ensinou Jesus por meio da parábola do bom samaritano.

No que tange a nossa tradição reformada, esta ênfase abrangente da tarefa cristã, é claramente reconhecida no “amor ao próximo”. Claro que o melhor que podemos oferecer aos homens é a boa-nova, mas ela não deveria ser concorrente ou ameaçadora em relação a outras tarefas implicadas na missão cristã. Que como disse, sou favorável a uma concepção lato sensu.

Assim, repito, deveríamos reconhecer que a missão é integral sim, independente do termo estar deveras intrincado com teologias ideologicamente enviesadas, ainda assim, deveríamos considerar o sentido do termo. Uma missão integral é a tarefa cristã que reconhece que não há dimensão neutra da existência humana. Reduzir a missão à dimensão da justiça social, seria contradizer a natureza integral da missão. Ela toca nesta dimensão, mas também, opera na academia, na ciência, na política, nas artes e em todas estas esferas.

Se reconhecemos que a missão cristã é integral, o fazemos por considerar que Cristo reina integralmente. Se o senhorio de Cristo é o que orienta nossa missão, é bom mencionar que temos subsídio em nossa tradição, em particular a reformada, para uma missiologia integral. Refiro-me, em particular, ao que encontramos em Abraham Kuyper, ou no que chamamos de neocalvinismo. Mas, isto seria outra conversa. Aos mais corajosos, deixo a indicação dos textos: A Missão Integral na Encruzilhada: reconsiderando a tensão no pensamento teológico de Lausanne e O Senhorio de Cristo e a Missão da Igreja na Cultura: a ideia de soberania e sua aplicação (Carvalho, 2009). Pois estou longe de ser o primeiro a defender uma tese missiológica neste sentido.


REFERÊNCIAS

CARVALHO, Guilherme de. A Missão Integral na Encruzilhada: reconsiderando a tensão no pensamento teológico de Lausanne e O Senhorio de Cristo e a Missão da Igreja na Cultura: a ideia de soberania e sua aplicação In.: RAMOS, Leonardo. CAMARGO, Marcel. AMORIM, Rodolfo. Fé Cristã e Cultura Contemporânea: cosmovisão cirstã, igreja local e transformação integral. Viçosa: Ultimato, 2009. p.11-95.

KELLER, Timothy. Justiça Generosa: a graça de Deus e a justiça social. São Paulo: Vida Nova, 2013.

1 Fiz um breve comentário no mural do Facebook do amigo Paulo Dib a respeito do vídeo. Jonas considerou minhas ponderações sinteticamente lá publicadas. Agradeço pela concordância com os pontos lá levantados. Este texto é uma versão expandida.