Mostrando postagens com marcador teísmo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador teísmo. Mostrar todas as postagens
23 de jun. de 2015 | By: @igorpensar

A Dúvida do Crente e a Fé do Cético

É verdade que crentes têm lá suas dúvidas de fé, mas também é verdade que ateístas têm lá suas dúvidas sobre seu ceticismo. 
 
Eu como crente, eventualmente, posso acordar com dúvidas inquietantes a respeito de minhas convicções religiosas. Mas não diminuirei a tensão tornando-me um cético ou ateu. Neste caso, posso acordar com sérias dúvidas a respeito de minha incredulidade. "Vai que o que crê esteja certo..." pensarei. 
 
Porém há uma diferença básica entre o crente e o cético: o primeiro crê, o segundo não quer crer, apesar da permanente inquietação para se crer em alguma coisa. No fundo, o cético vive torcendo para crer e encontrar algo digno de sua confiança. Por isso, testa e resiste a quase tudo, quase nos termos do empreendimento cartesiano de "dúvida sistemática". No fim das contas, ironicamente, é esta dúvida humana (presente no crente e no ateu) que mostra que a fé é radical e inescapável, seja em Deus, na razão, no estado, nas artes ou na ciência.

Não tem jeito gente, depois do naufrágio, todos querem se agarrar aos cacos do barco naufragado. Depois, podemos discutir se este é o jeito mais eficiente de sobreviver neste mar de desespero.

"Quem deseja fugir à incerteza da fé, há de experimentar a incerteza da descrença que, por sua vez, jamais conseguirá resolver sem sombra de dúvida a questão de se, por acaso, a fé não se cobre com a verdade. Somente na recusa revela-se a irrecusabilidade da fé." (Joseph Ratzinger em Introdução ao Cristianismo).
26 de out. de 2010 | By: @igorpensar

Sobrenatural não Existe

Por Igor Miguel

Não sou naturalista, nos termos da física aristotélica, que insiste em tratar as coisas que aí estão como determinadas por leis autônomas, por uma previsibilidade matemática, por uma monotonia auto-determinada. Não creio em natureza, creio em criação. Creio em um Deus que age e opera constantemente no mundo, que decreta por sua palavra cada flor que se abre, o pássaro que cantou perto de minha janela, no beijo que minha esposa me deu, creio em um mundo que é fruto de um verbo constante e eterno. Creio na criação, não como um discurso dos homens, mas como fruto da palavra permanente do Criador:
Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder (Hb 1:3)
Ao negar o natural, nego o sobrenatural. Um sobrenaturalista é um naturalista esporadicamente surpreendido. Quando creio em criação, tudo é fruto de um permanente milagre, tudo é milagroso. Para mim, o pão que chegou em minha mesa é tão milagroso quanto um paralítico que salta de sua cadeira, tudo é dádiva, tudo é digno de gratidão. Um teísta -- como eu -- é aquele que vive em um permanente estado de graça e surpresa, ele se surpreende apenas com o fato de existir, de respirar.

Me assombra ouvir a palavra “sobrenatural” em lábios cristãos, seu uso significa que alguém se dobrou ao secularismo, já não consegue ver o mundo de Deus como criação, mas como invenção, como um mundo animado, por forças matemáticas previsíveis. Ele mesmo se vê em um mundo sem graça, sem dádiva, por isto tem que atrair para seu mundo opaco, algo de fora, como os pagãos sempre fizeram. Por favor, espante-se com o salmista, cante com ele:

Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo passou a existir. (Sl 33:9)

Para o naturalista, tudo é uma questão de previsibilidade matemática, de números que se encontram, de uma realidade aprisionada na lógica da causa e efeito, para um teísta, tudo é um grande espetáculo, uma dramatização constante, de um Deus amorosamente exibido, que se descortina por meio das coisas que foram criadas.

O naturalista desencantou o mundo por não suportar a exigência da fé, por não dar conta do permanente milagre, do permanente decreto divino, não suportou o verbo. O naturalista acusa o teísta de subjetivismo, por firmar sua fé em uma experiência privada, penso que mais que uma acusação, é uma objeção honesta. Entretanto, o que na verdade um teísta, um cristão, experimenta é uma mudança de perspectiva, uma atração à realidade. Mais que uma experiência subjetiva, quando capturado pelo amor de Deus, um cristão é atingido com uma mudança existencial.

Ele começa a ver o mundo para além do mundo. Tudo começa a ficar colorido, ele se nega a aceitar a proposta acinzentada da ciência, ele não consegue ignorar o amor, ele quer um sentido, não se conforma com o discurso de que sua vida se esgotará em um vazio tenebroso.

Como é difícil traduzir para os naturalistas que nossa fé é pensante, mas não somente pensante, pois não se dobra aos reducionismos. Nossa fé desvenda um mundo pulsante e cheio de vida, por isso, ao observarmos as flores e os pássaros, temos a quem dirigir nossas lisonjas, nossa fé exige humildade e gratidão, palavra que os naturalistas abominam.

Não creio no sobrenatural, pois para isto teria que admitir um mundo natural que não é sustentado por Deus, creio em criação, em mundo que aí está por uma constante ação de Deus. Por isto, Ele é digno de toda gratidão, louvor e permanente ações de graças.

Não resisto... tenho que citar G.K. Chesterton novamente:
Mas talvez Deus seja forte o suficiente para exultar na monotonia. É possível que Deus todas as manhãs diga ao sol: "Vamos de novo"; e todas as noites à lua: "Vamos de novo". Talvez não seja uma necessidade automática que torna todas as margaridas iguais; pode ser que Deus crie todas as margaridas separadamente, mas nunca se canse de criá-las. Pode ser que ele tenha um eterno apetite de criança; pois nós pecamos e ficamos velhos, e nosso Pai é mais jovem do que nós. A repetição na natureza pode não ser mera recorrência; pode ser um BIS teatral. O céu talvez peça bis ao passarinho que botou um ovo. (Ortodoxia, p. 63)

24 de mai. de 2010 | By: @igorpensar

Por que não sou ateu?

Por Igor Miguel
"Não há problema em não se acreditar em Deus; o problema é que se acaba sempre acreditando em alguma besteira." (G.K. Chesterton)
Não sou ateu porque não consigo desacreditar no que já se revelou. Não sou ateu, pois ser ateu para mim não é possibilidade. Ser ateu significaria ignorar a extravagância da natureza, seria ignorar a genialidade das partículas mais rudimentares e a profundidade das coisas mais simples. Ser ateu seria ignorar o fato de que existem paradoxos que não se contradizem. Só Deus poderia criar complexidade em coisas aparentemente tão simples, e grandeza em coisas tão modestas.

Não sou ateu pois não posso negar o inegável, não posso negar o descortinado, o revelado, não posso negar minha trajetória existencial. Não posso ser ateu, pois não quero fingir que não vejo o mistério, o grande, o complexo, o inteligente, a harmonia e a transcendência.

Não sou ateu porque Deus está aí mesmo quando toda sofisticação científica se esforçou por negá-lo ou ao menos ignorá-lo. No futuro a guerra não será mais entre ateus e não-ateus, será entre crer em Deus ou nos ídolos. A guerra não será sobre a fé e nunca foi, pois ela sempre esteve lá. Sim! A fé sempre esteve aí do seu lado, ao lado do filósofo e do cientista. Sem uma credulidade mínima, sem uma confiança paradigmática, mesmo que provisória, não haveria os saltos científicos, as revoluções científicas. Sem um mínimo de confiança, não haveria "objetividade" científica. A fé está lá, pois a ciência objetiva é subjetivamente orientada, e o sujeito é crente inevitavelmente.

O homem pode se abster de Deus, mas não pode se abster da fé. Nenhum homem suportaria viver sem um mínimo de confiança em alguma coisa ou alguém. Os homens ficariam aterrorizados se pensassem nas probabilidades de um ônibus capotar na estrada, de um avião cair, de ser atingido por uma bala perdida, de contrair uma doença contagiosa, de herdar um câncer dos antepassados, seria perturbador, se não houvesse um mínimo de fé, para sair de casa, e ignorar as estatísticas, mas confiar no motorista, no piloto, no engenheiro, no médico. Agora, se ele fosse um pouco mais honesto, confiaria em Deus, que está sob todos os cálculos e estatísticas, que é Senhor da proteção e do desastre. Que converge a previsibilidade e a imprevisibilidade a seu serviço, a sua vontade amorosa. Nem sempre compreensível, mas sempre amorosa. Aí reside a fé!

Minha fé não é cientificamente comprovada. Ainda bem! Pois se fosse, não seria fé, seria ciência. Deus não seria Deus, seria mais um objeto científico, mais uma bactérias sob a lente do microscópio. Ele não pode ser "ontologizado" fisicamente, não pode ser quantificado quimicamente, não pode ser sistematizado filosoficamente, pois é pura relação. Isto não significa que Deus seja alguma coisa que só pode ser compreendida misticamente, ao contrário, isto significa que se pode conhecê-lo em relação ao que Ele é. Quando o homem entra em relação com Deus, Deus se revela. Aos que não querem encontrá-lo, Ele se oculta, coloca uma barreira intransponível entre sua revelação e o que o ignora.

Mas, aquele que é minimamente honesto, perguntará, buscará e irá encontrá-Lo. Ele estará lá, obviamente presente, misteriosamente e plenamente existente.
Nada é tão real do que Aquele de onde procede toda realidade. Nada é tão existente do que Aquele de onde emana toda existência.

Não obstante, o encontro não é racionalizável nos termos cartesianos. Ele tem uma racionalidade e lógica próprias, uma outra articulação. Lá, afetividade, racionalidade, espiritualidade, física, química, lógica e mística, convergem para a composição multidisciplinar, integral do homem que se curva boquiaberto ante ao espetáculo de Sua presença:
Não dá para ser ateu.
Pois, o meu ser transcende o ser apenas ateu.
Não dá para ser ateu.
Pois, atoa eu não quero viver.
Não dá para ser ateu.
Pois, o teu deus não pode ser o meu.
Não dá para ser ateu.
Pois, o ateu não é, deixou de ser.
Não dá para ser ateu.
Pois meu ser é no encontro com o "Eu Sou o que Sou".