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19 de dez. de 2013 | By: @igorpensar

Falarás!

"Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te. Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas." (Dt 6:6-9)

O povo de Deus se alimenta de narrativas de fé.  Eventos localizados na história, de fato, mas que também a transcendem.  Somos a família da  memória.  Na liturgia cristã, as Escrituras são abertas e a história da salvação nos é contada.  Ouvimos ali, a partir deste livro antigo, histórias sobre personagens antigos, de um povo pequeno, mas peculiar.  Nossos heróis são reis e guerreiros, mas também, pastores, profetas que cuidavam de gados, pescadores e homens banidos.  A Bíblia nos fala de sábios, legisladores, regentes, prostitutas, viúvas, pobres, donas de casa, soberbos e humildes.  Os personagens bíblicos tornam-se arquétipos psicológicos, traços de personalidade perfeitamente compatíveis com nossa frágil condição humana. Por isso, somos o povo que conta e reconta a existência, deles e nossa.

De fato, quando ouvimos tais histórias ou narrativas da salvação, não temos a dimensão total dos eventos, afinal é um livro e não um registro cinematográfico.  Um livro que precisa ser narrado e que afeta diretamente nossa imaginação.   Há um elemento retórico, poético e imaginativo nas Escrituras.  De acordo com a pedagogia bíblica: "a doçura no falar aumenta a aprendizagem"¹.

Tenho percebido que boa teologia se faz com boa lógica, mas também com bela arquitetura retórica.  Quando lemos Agostinho e mesmo Calvino percebemos que beleza nunca esteve ausente do bom discurso teológico.  Assim, teologia se conecta com beleza e imaginação, e novamente, nos vemos imaginando o mundo a partir de narrativas e homilias que nos afetam a partir da indispensável iluminação do Espírito Santo.

Não é esta exposição permanente das Escrituras que insiste o apóstolo ao jovem presbítero? Sim, Paulo encoraja Timóteo a perseverar na leitura pública das Escrituras².  Prática eternizada em toda estrutura de culto cristão que faça jus ao nome.  A pregação bíblica, herança da liturgia judaica, antiga prática pedagógica que imprime no Povo de Deus, a comunidade eleita, sua identidade, seu lugar no tempo e no espaço.  Somos herdeiros de uma comunidade esperançosa, que traz à memória os atos salvadores de Deus. 

No encontro de Deus com Moisés, o legislador de Israel atreveu-se a perguntar-lhe o nome. Desta forma, obteve como resposta: "Eu Sou o que Sou [...] o Deus de Abraão, Isaque e Jacó" (Ex 3).  Em outras palavras, um Deus que é narrado, contado e recontado na trajetória de seus escolhidos.  Ele não se revela em ídolos estáticos, mas em homens animados por sua imagem e semelhança, transformados de glória em glória, pelo Espírito Santo³.

O ápice da revelação narrada e contada sobre Deus, encarna-se (há um tom dramático aqui) em Jesus Cristo.  Lembra o que foi dito pelo apóstolo?  "Ninguém jamais viu a Deus, por isto, o Filho Unigênito que está no seio do Pai o revelou" (Jo 1:14).  Pois é, me maravilhei quando descobri que a palavra traduzida por "revelou" na versão João Ferreira de Almeida, Revista e Atualizada, tem um sentido retórico-narrativo.  A palavra eksêgeomai [εξηγεομαι] tem o sentido de "narrar", "contar" ou "relatar", de fato, foi isso que Cristo fez.  O Unigênito veio para declamar de forma mais expressiva, por meio de sua encarnação, quem é o Pai.  Esta é a narrativa, o kerygma, a mensagem que nos foi anunciada pela exposição pública do Filho de Deus.  Uma pedagogia radical, para uma obra salvadora igualmente radical.

A partir do Verbo Encarnado, Jesus Cristo, o púlpito cristão tornou-se o local do anúncio, a velha pregação ainda tem sido a grande plataforma de transformação de vidas e comunidades.  Por esta razão ela é tão central para o cristianismo.  Pois é a partir da Palavra que mentes e corações são iluminados pela graça evangélica, escamas caem e corações são elevados ao Deus que se revelou em Jesus.  Entretanto, o sucesso da pregação cristã, sua homilia, encontra-se na centralidade de sua mensagem: Jesus Cristo.  Sem Cristo, o anúncio torna-se retórica vazia, comunica morte.  Entretanto, a partir do Verbo do interior do homem podem "fluir rios de águas vivas" (Jo 7:38), a aridez de um coração alienado pode ser inundado pelo Espírito Santo.

Assim, comunidade de Cristo, que possamos insistir em contar a história de nossa salvação, que nossa imaginação seja afetada pelo anúncio, que sejamos salvos por este Cristo, que se faz presente na narrativa evangélica, como foi dito pelo Apóstolo Paulo:
"Depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa." (Ef 1:13).
____________________
¹ Tradução livre de Pv 16:21 - לַחֲכַם־לֵב יִקָּרֵא נָבֹון וּמֶתֶק שְׂפָתַיִם יֹסִיף לֶֽקַח
² I Tm 4:13
³ II Co 3:18
26 de abr. de 2013 | By: @igorpensar

Defesa Dissertação do Mestrado

Prezados leitores,

Este é um convite aberto a todos que queiram comparecer à defesa de minha dissertação de mestrado, que acontecerá no dia 5/6 no prédio da Administração da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP).   Maiores informações sobre horário e local pode ser acessado aqui: http://www.pos.fflch.usp.br/node/38905

Tema:
Mischlei e Mediação Educacional: uma análise pedagógica de Provérbios de Salomão

Orientador:
Profa. Dra. Ana Szpiczkowski

Banca:
Profs. Drs. Reginaldo Gomes de Araújo (FFLCH - USP) e Mitsuko Aparecida Makino Antunes (PUC-SP).


Abraços,
Igor Miguel





30 de out. de 2011 | By: @igorpensar

Escritura & Tradição por McGrath

Estou impressionado com a clareza e consistência teológica do livro "Paixão pela Verdade" de Alister McGrath.  Devo a alguns escritos de McGrath meu retorno à fé cristã e ao evangelicalismo reformado. Sua perspicácia intelectual, clareza teológica e sensibilidade espiritual, claramente presentes em seus textos, os tornam incrivelmente elucidativos.  


Alister Edgar McGrath é um sacerdote anglicano, teólogo, e apologista cristão.  Atualmente é professor de teologia, ministério e educação no Kings College London onde também é diretor do Centro para Teologia, Religião e Cultura.  Ele foi também professor de Teologia Histórica na Universidade Oxford.   McGrath destaca-se por seu trabalho em teologia histórica, sistemática e cientifica, além de obras apologéticas contra o ateísmo e o anti-religiosismo secular.  Ele possui um DPhil em biofísica molecular e um grau de Doutor em Divindade pela Universidade de Oxford.

Entretanto, o trecho que gostaria de destacar em "Paixão pela Verdade" é o que se refere à relação entre Escrituras e Tradição, que costumeiramente são colocados ou em equivalência de autoridade, como acontece no catolicismo romano, ou em uma relação de rejeição absoluta à tradição, como acontece em formatos radicais de evangelicalismo ou no primitivismo-restauracionista. 
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McGrath, Alister. Paixão pela verdade: a coerência intelectual do evangelicalismo.  São Paulo:  Shedd Publicações, 2007. p.80-81.

Para alguns escritores, a "tradição" tem bastante autoridade.  Tradição seria entendida aqui como o que designa uma doutrina ou crença tradicional, que tem força de autoridade por causa de sua antiguidade.  Contudo, isso pode facilmente degenerar em sentimentalidade não crítica.  A afirmativa "sempre cremos assim" pode significar "sempre estivemos errados".  Como o escritor do terceiro século, Cipriano de Cartago, aludiu, "uma antiga tradição pode ser só um antigo erro".  A tradição deve ser honrada onde pode ser demonstrada como justificada, e rejeitada onde não o pode.  Esta apreciação crítica de tradição foi um elemento integral da Reforma, e baseava-se na crença fundamental de que a tradição era, em última análise, uma interpretação da Escritura que tinha de ser justificada com referência à mesma fonte competente.  

Contudo, a ideia de "tradição" é de importância para o evangelicalismo moderno.  Os evangélicos têm tido sempre a tendência de ler a Escritura como se fossem os primeiros a fazer isso.  Precisamos lembrar que outros já estiveram lá antes de nós, e já a leram antes que nós o fizéssemos.  Esse processo de receber a revelação escritural é "tradição" -- não uma fonte de revelação somada à Escritura, e sim um modo particular de se entender a Bíblia que a igreja cristã tem reconhecido como responsável e confiável.  A Escritura e a tradição não são, pois, para serem vistas como duas fontes alternativas de revelação; em vez disso, são coinerentes.  A Bíblia não pode ser lida como se nunca tivesse sido lida antes.  As hinódias e liturgias das igrejas constantemente nos fazem lembrar que a Escritura já foi lida, avaliada e interpretada no passado.  James I. Packer, um dos mais influentes escritores evangélicos de anos recentes, enfatiza esse ponto:
O Espírito tem estado ativo na igreja desde o início, fazendo o trabalho para o que foi enviado -- guiar o povo de Deus na compreensão da verdade revelada.  A história do trabalho da igreja para entender a Bíblia forma um comentário sobre a Bíblia que não podemos desprezar nem ignorar sem desonrar o Espírito Santo.  Tratar o princípio de autoridade bíblica como uma proibição à leitura e aprendizado do livro de história da igreja não é um erro evangélico, mas um erro anabatista.
14 de ago. de 2008 | By: @igorpensar

Intérpretes do Mundo

Por Igor Miguel

Existem ao menos duas posturas do homem diante do mundo: a ingênua e a hermenêutica. Porém, antes de definir os sujeitos envolvidos nessas duas posições existenciais, vale a pena definir a que "mundo" me refiro.

A palavra mundo acabou por se tornar um termo genérico, do tipo 1001 utilidades. Era de se esperar, que uma palavra com tanto peso, tão universal, tão abrangente, alargaria seu sentido para outras esferas.

Mundo
tem conotações muito específicas de acordo com o jargão que é utilizado. Se tal expressão é usada por geógrafos, astrônomos, filósofos, cientístas sociais, teólogos, psicólogos, matemáticos, biólogos, físicos ou químicos, ela vai se transmutar de acordo com a demanda e a estrutura semântica envolvida em cada uma dessas explicações.

Porém, mundo nesse texto, assume um sentido um tanto multidisciplinar, algo a-paradigmático, talvez. Pensa-se em mundo como a realidade chamada objetiva. O mundo da rotina, do trabalho, das relações sociais, da liturgia, dos ruídos, do diálogo e do monólogo.

Esse mundo de imagens, de cenas, de um enredo caótico, aparentemente desorganizado, alienante. Hora verde, hora cinza, hora negro, hora branco e hora azul. Mundo de luzes e de trevas, de tantos gestos, um palco.

O ingênuo é aquele que passa por isso tudo, sonolento, adormecido, entorpecido e desatento. Amarra-se à rotina, responde a seus empurrões como um gado açoitado por aguilhões. Move-se, mexe-se, desloca-se, alimenta-se e permanece ali, em silêncio, inconsciente.

O mundo para o ingênuo, não é mundo, é um vácuo amorfo, um quadro branco, sem cores, sem vida, apenas aquilo que passa tão rápido que não dá pra ver.

O hermenêuta é um outro sujeito. Homem que lê o mundo (Paulo Freire), que lê a vida, que vê as cores do arco-íris na folha branca. Ele sabe que o óbvio não é tão óbvio assim. O hermenêuta é o intéprete, aquele que decodifica, que ouve as vozes da vida, que procura sentido nos gestos mais banais, que entende o aceno das folhas, discute as frases da vida, recorta sentenças no vento e procura evidências de sua existência.

O hermenêuta aprendeu decriptografia, a arte de quebrar a senha, de burlar a esfera sólida através de suas fissuras. Imagens não são imagens, são recados muito bem dados, e ele sabe ler. O hermenêuta não ouve simplesmente, ele compreende e apreende as entrelinhas, as frases óbvias, resgata da angústia respostas, nem sempre reconfortantes, quase sempre angustiantes. Mas, as lê, sem medo. O único medo que tem é da surdez e da cegueira. O único medo que tem é da ingenuidade, de se vê apático diante de um mundo que precisa ser compreendido, julgado, criticado e pensado.

O ingênuo diz: - Por que ler, se posso ver tudo?
O hermenêuta responde: - Como podes ver, se nem tudo está escrito?