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28 de dez. de 2010 | By: @igorpensar

Ânsia & Idade

Por Igor Miguel

Uma boa dica para o próximo ano: mais discernimento e menos infância espiritual. Discernimento envolve uma habilidade para julgar situações, uma capacidade de avaliar escolhas a partir de valores e princípios adquiridos ao longo da vida.

No início de uma nova década, determinadas escolhas são fundamentais, mas não são fáceis. Refletir sobre sua trajetória, seus vínculos sociais, determinados intercursos de pessoas e espaços que viveu, tudo isso combinado formam um universo com infinitas possibilidades.

A ansiedade é uma disfunção que nos acomete frequentemente. No mundo moderno, quadros de ansiedade são ainda mais recorrentes justamente pela multiplicidade de possibilidades oferecidas.

Entretanto, nós cristãos, oramos o "Pai Nosso" e lá encontramos duas pequenas sentenças:
  • Venha a nós o vosso Reino.
  • Seja feita a vossa vontade.
Duas sentenças, dois pedidos, que carregam nossa vida de esperança e cuidado. Na incerteza da história e do tempo ancoramos nossas vidas na estabilidade da eternidade. Ou nas palavras do autor desconhecido da carta aos Hebreus:
Por isso, Deus, quando quis mostrar mais firmemente aos herdeiros da promessa a imutabilidade do seu propósito, se interpôs com juramento, para que, mediante duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, forte alento tenhamos nós que já corremos para o refúgio, a fim de lançar mão da esperança proposta; a qual temos por âncora da alma, segura e firme e que penetra além do véu... (Hb 6:17-19).
O propósito de Deus é imutável e nossa esperança é que podemos "ancorar" nossas vidas na estabilidade da eternidade. A analogia é interessante. Somos como navios frágeis sobre a instabilidade e imprevisibilidade das ondas, no entanto, nossas vidas estão ancoradas na estabilidade das imutáveis e eternas promessas de Deus.

Quando nossas vidas são capturadas pela graça de Deus em Jesus, nos integramos a Cristo, nossa vida não é mais "nossa", torna-se dEle, daí em diante, toda nossa trajetória existencial orbita sob o senhorio de Jesus. Ele ilumina como sol todos os aspectos de nossa existência, trazendo sentido em meio a obscuridade do pecado e da autonomia dos homens.

No Reino há um Rei soberano, um governante. No Reino nada é acidental, tudo envolve uma complexa agenda que no final glorificará a Deus em Jesus, e sem a glória de Deus, seremos escravizados por ídolos tiranos que persistem em usurpar nossa dignidade como criaturas à imagem de Deus.

No ano novo que se aproxima, ore o "Pai Nosso" com mais calma, mais consciência, invoque o Reino e a Vontade. Desfrute do governo de Deus, encare a dor e a adversidade como efeitos de um reajuste, de peças que se deslocam, para que sua existência se integre à vontade amorosa de Deus Pai que em Jesus no Espírito Santo, tem nos moldado para um fim proveitoso.

Lembre-se: ansiedade é sintoma de um pretenso poder humano sobre o tempo, esperança é lançar-se em confiança a um Deus que governa a história.

6 de jul. de 2010 | By: @igorpensar

Inovadoramente Tradicional

Por Igor Miguel

Sei da tirania da história. Esta coisa de nascermos e nos depararmos com a vida não é brincadeira. Apesar de que nas brincadeiras da infância simulávamos a vida adulta como algo prazeroso, cheio de ludismo e trabalho criativo. A vida adulta, vida que temia quando criança, é cheia de desafios e desatinos, muito pouco lúdica, com ilhas de devaneios.

Ou nos entregamos à filosofia do “deixa a vida me levar” ou admitimos que nossa presença na história tem um desígnio, tem uma causa e um fim de ser. Como nos portaremos diante do tempo que se foi e que virá? O que faremos diante da realidade do hoje?

O “entregar-se” à historicidade, ao tempo, é uma passividade preguiçosa, um suicídio biográfico. Seria como receber um papel em branco e esperar que dele saia espontaneamente alguma obra de arte, algum tipo de rabisco, pelo menos. Talvez, mais interessante seria pensar que esse papel já vem com algum esboço, com alguma escrita, incompleto, tentadoramente inacabado. Irresistível como quando nos entregam um desenho pra colorir e uma caixa de lápis de cor. Deliciosamente tentador.

Não damos conta do inacabamento, não suportamos a “falta” e o “hiato”. Temos um chamado para cultivar o jardim!

Há três tipos de reação diante do mundo. A primeira, aceitar a estabilidade e a estagnação, a confortabilidade dogmática, aprisionada por um determinado gueto cultural. Um estado de permanência no útero materno. A segunda, um salto no escuro, uma vida sem raiz, sem memória, sem tradição, lançado no novo, no relativismo e no vazio. Um estado de orfandade. Ou finalmente, a terceira reação, sermos como ''o escriba versado no reino dos céus, que é semelhante a um pai de família que tira do seu depósito coisas novas e coisas velhas.” [1] Um estado de sabedoria.

Nem estagnação, nem desenraizamento. O desafio é manter uma postura hermenêutica, como um intérprete que sabe lidar com as novas demandas sem perder a memória. Ele sabe tocar no mundo novo sem perder a referência da história. Consegue ler as novas tendências sem perder o frescor dos clássicos.

Não dá para viver o novo sem as ferramentas do antigo. Não dá para ler o mundo sem as letras que a história nos legou. Nem como feto, nem como órfão, apenas como ancião sá
bio pelas mechas brancas.
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[1] Mt 13:52.