Uma das coisa que percebi em minha investigação, principalmente no livro Provérbios de Salomão, também conhecido em hebraico pelo nome Mishlei [משלי], é que o conceito de sabedoria ali apresentado diferenciava em muito da forma moderna e popular da idéia de sabedoria. A primeira definição do termo no Dicionário Aurélio é: "grande conhecimento, erudição, saber, ciência.", curiosamente, não é este o conceito de sabedoria presente entre os antigos judeus.
Chochmá (sabedoria) na Bíblia é um tipo de habilidade específica, que envolve desde de habilidades técnicas como a metalurgia (p.ex. Bezalel que trabalhava com ouro e bronze), a costura (p.ex. as mulheres que faziam roupas sacerdotais e cortinas para o tabernáculo), indo até a gestão, a capacidade administrativa, por exemplo aplicado ao sábio Rei Salomão.
Porém, no livro de Provérbios de Salomão, onde o termo ocorre com mais freqüência, a sabedoria está associada a uma série de princípios éticos de cunho comportamental. De alguma forma, não há uma separação entre o "conhecer" e o "fazer", não há dicotomia entre o "logos" e a "práxis", o que se vê é um conhecimento tácito, tão tácito, que o sábio de provérbios recorre frequentemente à natureza para obter exemplos e analogias para orientar determinados comportamentos. A orientação de que o preguiçoso deveria ir às formigas para aprender a diligência é interessantíssima. De fato o homem socrático obteria tal orientação nos mitos, ou mesmo, na metafísica, ou ainda na transcendência, mas para Salomão, a resposta esta lá na Criação, nas coisas feitas por Deus.
Chochmá tem aspectos multidisciplinares, quando envolve desde o conhecimento técnico, passando pelo comportamento ético, ao conhecimento natural e chegando até a associação rabínica de "sabedoria" à Torá.
Mas, de onde veio a concepção moderna de "sabedoria" ligada ao conhecimento enciclopédico, à performance cognitiva e à algum tipo de conhecimento puramente teórico?
São Tomas de Aquino, considerado o pai da escolástica, introduziu no pensamento europeu a dicotomia entre graça e natureza, separando a esfera metafísica-teológico-espiritual da dimensão natural-material-objetiva. Descartes, mais tarde, foi o responsável por separar (no sopro da teologia tomista) o sujeito que pensa (res cogitans) da coisa extensa (res extensa), ou seja, Descartes separou a mente do corpo, as ideias da natureza, a inteligências das emoções, resultado? Uma ênfase na racionalidade em detrimento da dimensão física e da realidade chamada "objetiva", assim nasce o racionalismo-moderno.
A percepção cartesiana de mundo foi tão eficiente, que até hoje pessoas percebem o mundo ou si mesmas dentro do seguintes esquemas binários: razão/emoção, subjetividade/objetividade, espírito/corpo, metafísico/físico, sobrenatural/natural, teoria/prática e outros pares.
Quando retomamos a percepção bíblico-judaico-cristã de sabedoria, encontramos um modelo pré-moderno e digamos pós-moderno, de superação da percepção de mundo cartesiana. Chochmá é integradora, sabedoria é "saber viver" e não apenas "saber pensar".
O sábio, no sentido bíblico, é alguém integrado com Deus e com a criação, está enraizado na realidade, interage com ela e com os outros seres humanos. O sábio bíblico não é um filósofo grego, não é alguém que vive em um gueto intelectual, em um areópago de devagações metafísicas, é alguém enraizado na vida, nos círculos sociais, na comunidade e na natureza. O sábio articula toda sua integridade humana, em toda sua complexidade (alma, corpo, mente, emoções e intelecto) a serviço da vida e da existência.
A sabedoria hebraica, não é racionalista, naturalista ou materialista, ela não permite reducionismos, é integradora. A sabedoria está com a costureira, o ferreiro, o rei, o guerreiro, a dona-decasa e é o princípio ativo da criação, arquiteta do mundo.
Curiosamente, sob muitas críticas, especialistas classificam diversos tipos de inteligência (como a teoria das inteligências múltiplas de Gardner), esta abordagem é uma tentativa de superação do modelo cartesiano de restringir as habilidades humanas à dimensão da razão, à lógica. Como a história e a experiência demonstram, há pessoas profundamente articuladas no campo da racionalidade, mas são desarticuladas na vida social e nas relações humanas.
A sabedoria bíblica, não permite esta fragmentação, propõe, pode-se dizer uma "inteligência integral", um saber holístico, integrado com a ação, o comportamento e a responsabilidade ética.
Um pergunta final: então por que o mundo ocidental ignora estas fontes? Por que a modernidade é tão resistente à tradição judaico-cristã? Aí, seria necessário outro post!