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15 de fev. de 2013 | By: @igorpensar

Rasguemos a Bíblia? Hã?

Prezados leitores,

Achei um texto no blog da Ana Clara Cabral, filha do Elienai Cabral Jr. brincando com fogo, ou melhor, com a Bíblia.  Refiro-me ao texto intitulado "Rasguemos a Bíblia!" da supracitada autora.

Pois é, pelo título, imagina-se as sandices escritas por causa de expressões cada vez mais "generosas" de cristianismo que encontramos por aí.  Sei que pessoas sofrem abusos, exclusões e julgamentos desproporcionais em nome de uma "fé" legalista e deseducada.  Mas, não é relativizando valores caros para a fé cristã que nos tornaremos mais tolerantes. 

Na verdade, o cristianismo é "intolerante" em algum sentido.  Não toleramos, por exemplo, o pecado.  Isso pode parecer meio hipócrita né?  Mas, não é não, pense direito!  Não toleramos o pecado que reside em nós, em primeira instância, e em nenhum outro ser-humano.  Não suportamos a antropologia de Jacques Rousseau que nascemos todos "bonzinhos", "legaizinhos" ou quase anjos.  Acreditamos na verdade de São Paulo, Agostinho, Lutero e Calvino, que somos todos pecadores, e somos por natureza filhos da ira, não obstante termos sido criados para sermos imagem de Deus. 

A questão é que a denúncia cristã a respeito do pecado não é um julgamento de fariseus hipócritas jogando pedras nos de fora, mas uma denúncia doméstica com fins universais.  Conhecer a Deus, envolve, concomitantemente conhecer a nós mesmo, já dizia o reformador genebrino.  Sendo assim, o que afirmamos é que a condição do gay não é diferente da nossa, eles não tem nenhum privilégio por serem "socialmente excluído".  Cristãos são contra a opressão e a injustiça, mas a opressão e a exclusão social de gays, lésbicas e transgêneros não os santifica, não os coloca de fora da denúncia cristã.  São pecadores, como nós cristãos.  A única exceção, neste caso, é que a "ficha caiu" pra nós, admitimos isto, e corremos pra cruz de Cristo por esta razão.  E convidamos a todos os homens a admitirem a mesma coisa: vocês não são bonzinhos!

Pois bem, fiz um comentário ao texto da Ana por lá, provavelmente será publicado, cito:

Ana Clara,

Li seu texto, teria muita coisa para escrever, dizer e me posicionar.  Mas, respeito seu direito de opinar publicamente, como espero, pelo bem da verdade que o cristianismo nos legou, que tenhamos um pouco de bom senso.  Acho muito cliché e sem bom gosto este lance de relativizar cristianismo para sermos "tolerantes" e “intelectualmente” relevantes.  O cristianismo sempre foi conhecido pelo amor ao pecador, e tinham como expressão máxima deste amor, a denúncia pública do pecado (Jesus não foi tolerante aos pecados de idolatria, corrupção moral, hipocrisia religiosa etc), e o anúncio da boa-nova que acolhe a todos.  Somos todos iguais, preste atenção nisso, somos todos iguais, mas iguais em nossa corrupção, em nossa insistência em sempre fazermos o que é errado.  Vivemos esta tensão de sermos “imagens de Deus”, porém, deformados pela trinca do pecado.  Somos inimigos de Deus, todos nós, gays, trans, héteros, homossexuais e nós cristãos.  A denúncia cristã não é que o homossexual é diferente de nós, exatamente o contrário, eles são exatamente como nós, dignos da mesma exortação que nos levou aos pés da cruz.  O convite cristão é para que se arrependam, como nós o fizemos ou fazemos.  Sinto muito, mas acho que seu texto está curvado diante das pressões culturais da pós-modernidade, você acha “cult” relativizar (rasgar) a Bíblia.  Acha fundamentalista a afirmação politicamente incorreta de uma Verdade.  Agora, sejamos minimamente honestos, e se a Bíblia estiver certa?  Sabe, o cristianismo não é uma religião de crédulos em qualquer besteira, mas céticos quanto a tudo que a cultura discursa.  Não acreditamos em tudo, acreditamos em Deus.  O mundo moderno acredita em tudo, menos em Deus.  Cristãos são céticos de mais, moderninhos são excessivamente crédulos.  E seu Deus nos fez como bonecos do barro? Qual é o problema?  Isto fere sua dignidade?  Desculpe, mas Rousseau estava errado, e Agostinho acertou, somos e nascemos pecadores, todos, indistintamente.  Poema ou história, somos, de fato, algo muito próximo do barro.

É isso aí...

Igor Miguel
11 de jun. de 2012 | By: @igorpensar

Pondé: O Politicamente Incorreto

Por Igor Miguel


Me pediram uma opinião sobre o filósofo em ascensão Luiz Felipe Pondé, ao menos, minha impressão a respeito de seu já não tão recente livro "Guia Politicamente Incorreto da Filosofia"

Pois bem, não me julgo alguém com condições filosóficas de criticá-lo ou analisá-lo.  Tenho amigos que são filósofos profissionais, na formação, vocação e ofício, mas, de fato, esta não é minha formação principal.  Sou um teólogo-educador das periferias e ouso me aventurar na filosofia por causa das exigências do duplo ofício.

Por não querer ser ingênuo no que faço, preciso de parâmetros epistemológicos e pressupostos para que minha tarefa tenha sentido.  Uma pergunta que sempre me sacode relaciona-se ao tipo de sujeito que quero formar, e sem dúvida, não quero promover uma educação que aprisione meus alunos à monótona e alienante falação revolucionária.

Claro, minha pedagogia é ocidental, judaico-cristã, não-progressista e anti-revolucionária, exatamente o tipo de pedagogia que não se adéqua aos paradigmas impostos pelas tendências pós-modernas e materialistas históricas.

Na verdade, como todo educador que passa por uma faculdade de educação neste país, recebi todo "corpus" materialista histórico e pitadas de pós-estruturalismo, de modo que não percebesse outra concepção educacional fora do currículo esquerdista.

Por este motivo, Pondé me chama a atenção, pois apesar da (de)formação nos porões da FFLCH/USP, conseguiu erguer-se do previsível discurso predominantemente naquele ambiente.  O que já é uma virtude.   Me interessa, sua concepção de filosofia "pessimista", que é basicamente uma filosofia do "politicamente incorreto".  Ou como ele diz, entre Rousseau e Hobbes, claro, Hobbes.   

Li o Guia Politicamente Incorreto de Filosofia, teria muita coisa pra dizer, mas direi o que basicamente achei de positivo, e o que seria a "falta" que sinto em sua obra.

O livro é basicamente uma série de ensaios, bem no estilo da coluna que mantém da Folha de São Paulo, porém, com uma tendência um tanto "panfletária".  Não "partidário", mas aquele tino literário com intensão de comunicar ideias para além do olimpo acadêmico.

O foco é acabar com o "politicamente correto".  De fato, nossos hábitos sofreram profunda alteração por causa deste discurso.  Todo mundo tem que ser simpático, ser agradável a todos, manter uma boa impressão pública, mulher tem que trabalhar e ser independente, o negócio é gênero não sexo, tudo é uma construção social, o problema é o burguês e outras "frases prontas", que reproduzimos como se fossem a mais absoluta verdade.  Puro discurso de classe média em ascensão! 

Sua crítica é sempre em tom irônico, e um tanto cínico (apesar de dizer que não o é, coisa de cínico mesmo), uma arma interessante para mostrar que o indivíduo não é um ser tão virtuoso por natureza.  Golpeia repetidamente a auto-ajuda rosseauniana e o otimismo generalizado nas "potencialidades" humanas.  

Dirige-se de forma implacável à pretensão messiânica atribuída aos seres humanos e às instituições sócio-politicamente elaboradas.  De fato, o núcleo da filosofia pessimista de Pondé é a concepção cristã de "depravação total" ou "pecaminosidade humana".  A denúncia do filósofo pernambucano é simples: o homem é fundamentalmente depravado.

Eis o ponto que me agradou.  Enquanto a voz uníssona é de filosofias que afirmam a autonomia humana, a virtude essencial ou as potencialidades individuais, acho que Pondé acertou ao levantar a saia e mostrar nossas vergonhas.  Mas... em parte.

A meu ver, Pondé foi corajoso ao afirmar parte da antropologia (concepção de homem) cristã pré-moderna de "depravação", acho que teve a coragem que poucos cristãos teriam.  Por outro lado, sinto falta da narrativa cristã completa, aquela que afirma a tríade "criação-queda-redenção".  Para Pondé, parece, só há "queda".  Não há qualquer, ou pouca, dignidade primeva em sua filosofia, pois parece não afirmar em nenhum momento que, a deformidade humana não é humana, a depravação é uma trinca, uma perversidade derivada e transmitida pelas gerações.  O humano é naturalmente inclinado a não-ser-humano, desde seu nascimento.  Mas, para o cristão, isto é uma distorção provocada por algum problema primitivo.  Como sei que gosta de G.K. Chesterton, valeria afirmá-lo: o navio naufragou em algum lugar.  Sim, naufragou, só temos os cacos do navio, mas... de um navio, não de uma canoa.

Por outro lado, o discurso cristão não é absolutamente pessimista, nem absolutamente utópico-otimista-romântico, mas esperançoso.  O cristão tem dificuldades com a pretensão humana de instauração autônoma do paraíso na terra, como ambicionou Nimrode, na cidade de Babel.  Por outro lado, age por uma cidade prestes a vir, providenciada por Deus.  O cristão opera pela ressurreição, pela recriação de uma nova humanidade inaugurada em Cristo. Mas, restringe tal missão a Cristo, opera nele, mas evita apropriar-se de tal tarefa.

Senti uma "gap" um hiato na filosofia de Pondé.  Se por uma lado me diverti com a denúncia, em algum sentido bem feita à condição real do homem, faltou preterismo e futurismo, faltou memória e escatologia, há apenas presentismo.  

De qualquer forma, penso que Luiz Felipe Pondé é útil, seu discurso abre as janelas de uma casa abafada e tomada pelo mofo.  Nem que seja para ver a sujeira interna, coisa que ninguém conseguia ver mais.  Após Pondé, sinto coragem, espaço para outras falas, pedagogias e filosofias.  Rompe-se limites impostos pelo "politicamente correto", e finalmente, pode-se pensar em algo para além deste mundo de uma cor só.

Seria muito interessante se Pondé se arriscasse a conhecer calvinistas que são mais do que "puritanos fanáticos" (quase uma reprodução da alegação de "deterministas" de Chesterton).  Calvinistas oferecem uma narrativa mais rica que o pessimismo, e mais enobrecedora do que o romantismo ingênuo.

Fica aí minha impressão sobre o politicamente incorreto (de) Pondé.