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15 de jun. de 2010 | By: @igorpensar

Sabedoria: habilidade integradora

Estarei palestrando junto com os amigos Guilherme Carvalho, Rodolfo Amorim e o convidado Jack McGregor na III Conferência L'Abri Brasil. Que acontecerá nos dias 23-27 de julho.

Segue abaixo uma sinopse do tema que abordarei na ocasião. Participe!

Sabedoria: uma habilidade integradora da realidade.

Conforme o pressuposto neocalvinista, principalmente a crítica epistemológica desenvolvida por Herman Dooyeweerd, a realidade não pode ser reduzida a nenhum de seus aspectos criacionais. A admissão do senhorio absoluto de Cristo sobre o todo da vida é a admissão de que a experiência humana, que passa pelo "coração", deve ser integradora. O que significa uma negação radical a qualquer tipo de reducionismo. Neste sentido, é insustentável o racionalismo, o materialismo, o cientificismo, o psicologismo ou absolutizações similares. Por isso, esta palestra pretende chamar a atenção para o conceito judaico-cristão de sabedoria (hb. hokhmah), que sem dúvida não pode ser confundido com o conceito popular de conhecimento enciclopédico ou mesmo com o cogitas cartesiano. A sabedoria é um tipo de habilidade com fundamento teísta que integra as mais diversas experiências, como as de natureza tácitas, analíticas, afetivas, sociais, cosmonômicas, para um viver integral. A sabedoria é um saber viver, uma vida orientada pelo temor a Deus, daí a predileção das primeiras comunidades cristãs-reformadas por livros bíblicos como os de provérbios.


7 de jun. de 2010 | By: @igorpensar

Dooyeweerd: primeiros passos.

Por Igor Miguel

Revisão 1.0: 09/06/10

Li em 3 dias a versão em português de Twilight of the Western Thought (No Crepúsculo do Pensamento) de Herman Dooyeweerd, traduzido por meus amigos Guilherme Carvalho e Rodolfo Amorim. Na verdade quando comecei, não consegui parar de ler. Motivo? Há mais de 5 anos ando preocupado pela falta de uma referência epistemológica que não estivesse sobre o encanto de uma pretensa neutralidade religiosa da ciência e/ou que fosse reducionista. Dooyeweerd trouxe muita luz neste sentido.

Antes, já vinha tendo algum contato com Dooyeweerd. Primeiro por meu amigo André Tavares, depois em algumas palestras no L'Abri Brasil, textos introdutórios como os publicados no livro Cosmovisão Cristã e Transformação Integral e os textos publicados pela AKET. Não obstante, a leitura de há uns 7 anos atrás, depois por alguns textos em inglês, por palestras em
No Crepúsculo foi definitiva no que tange as minhas prévias e excelentes impressões a respeito da crítica transcendental de Dooyeweerd.

Na verdade, minha leitura de
A New Critique of the Theoretical Thought [cap. I e II e cap. III e IV], a obra da vida de Dooyeweerd, ficou muito melhor. Isto se deve ao fato de que o filósofo holandês se preocupou em sistematizar de forma didática os principais conceitos que trabalha já frontalmente no New Critique. Sem No Crepúsculo, realmente não dá para fazer uma leitura do New Critique. Para dar um exemplo bem simples, vejamos um trecho introdutório do New Critique que traduzo:
Se eu considero a realidade como esta é dada na experiência ordinária pré-teórica, confrontando-a com uma análise teórica, através da qual a realidade aparece dividir-se em vários aspectos modais, então a primeira coisa que me confronta é a indissolúvel inter-relação original entre estes aspectos que são, em um primeiro momento, explicitamente distinguidos na atitude teórica da mente.[1]
Finalmente, posso entender com muito mais profundidade trechos como esse. Vamos interpretá-lo então:

O que Dooyeweerd está dizendo neste trecho é que nós homens, quando olhamos para a realidade ao nosso redor, de forma pré-teórica, ou seja, sem a sofisticação do pensamento racional -- sem as pretensas regras da lógica ou qualquer outro método de apreensão da realidade -- a vemos de forma integrada, como um todo. Em outras palavras, quando olhamos para os fenômenos que estão diante de nós de forma corriqueira, como quando olhamos uma flor, os vemos sem as pretensões da ciência, observamos o fenômeno simplesmente "como" ele aparece para nós. Com o substrato de dados recolhidos desta observação ordinária, podemos analisá-los teoricamente a partir do pensamento crítico. Dessa forma, partimos para uma abstração intencional, analítica e lógica, valendo-se das funções lógicas de comparação, classificação, descrição, etc.

A análise teórica é um recorte, uma delimitação de determinado aspecto da realidade. Ao fazermos uma análise teórica de qualquer fenômeno, nos deparamos com um problema. Na tentativa de separar os vários aspectos com que estes fenômenos nos apresentam, percebemos que estes aspectos estão interconectados, interdependentes, o que perturba qualquer pretensão das ciências especiais de restringirem seu "objeto" ou "fenômeno" científico a determinados aspectos.

Ou seja, o reducionismo é uma resposta parcial a uma contradição constante às ciências especiais ou a qualquer tentativa de isolamento teórico. Este paradoxo é a inter-relação e inter-dependência entre os aspectos modais[2], que deveriam ser traduzidos em transdisciplinaridade quando se abstrai determinados fenômenos.

Porém, a palavra-chave na citação de Dooyeweerd é o termo "original". Originalmente, antes de qualquer tentativa de racionalização ou análise teórica, os fenômenos e seus aspectos estão lá integrados, distintos por alguns atributos, mas ainda assim amarrados uns aos outros por seus aspectos físicos, químicos, biológicos, estéticos e assim por diante. O que significa que um epistemologia não reducionista, deveria fazer seus recortes epistemológicos, consciente de que os aspectos estudados estão intricados em uma malha complexa com outros aspectos de uma dada realidade.

Mais tarde em seus escritos, este fundamento original, este
archê, princípio, será aprofundado e chegar-se-á em um aspecto supra-teórico, que é sempre um motivo religioso.

Não é bacana? Pois é! Estas podem ser as primeiras palavras para o desenvolvimento de uma epistemologia finalmente reformada. Que incrível!
________________
[1] A New Critique of the Theoretical Thought, p.4.
[2] Aspectos Modais: Em Dooyeweerd o termo "modal" é uma referência ao "como" e não ao "que". Ou seja, de que modo, ou como, determinadas coisas são apreendidas pelos sujeitos que as abordam. O pensamento teórico lida com o "como" e não com o "que". Neste aspecto Dooyeweerd parece ter algum dependência da ontologia neo-kantiana de Heidegger.

Upgraded! Creio, logo penso.

Por Igor Miguel

Você se considera uma pessoa upgraded? Uma pessoa upgraded, desculpe-me pelo estrangeirismo inevitável, é uma referência a uma pessoa "atualizada", "antenada", pode-se dizer, "conectada", com as últimas tendências, notícias, fenômenos culturais, problemas climáticos, uma pessoa globalizada ou mesmo, regionalizada.

Por causa da TV, Internet e das ferramentas de fluxo de informação em tempo real como blogs e micro-blogs, é possível manter-se antenado e atualizado a respeito de diversas notícias e novidades culturais.


De fato, o capital-financeiro, vem migrando para o capital-cultural, alguns diriam, que há na verdade uma capitalização de bens-culturais. De qualquer forma, hoje dou mais valor para meus livros do que para a estética de meu apartamento, pode parecer reducionismo mas não é. Apenas me torno um crescente dependente de mecanismos que me mantenham upgraded. Como teólogo ou mesmo educador, para mim é impossível viver off-line ou unpluged (desconectado) das últimas notícias e descobertas científicas.

As ansiedades de uma pessoa upgraded ou que tenta ser (como eu):
  • O desconforto de que algo está acontecendo agora que você ainda não sabe;
  • O desconforto de saber que você ainda não conhece alguma fonte que te levaria a esta informação;
  • O desconforto de, as vezes, não ter as informações que te levariam àquela informação.
Em suma, não alcançamos determinadas informações, pois usamos um mecanismo cognitivo necessário, que tende a eliminar dados irrelevantes daqueles relevantes à nossa visão de mundo. Só nos apropriamos de informações que são atraentes ao nosso repertório. Neste aspecto, a questão da linguagem é fundamental. Ao ler uma obra, um texto, ou acessar determinado conteúdo cultural, nos é exigido uma repertório semântico mínimo, para nos apropriarmos de seu código.

Isso significa que um pessoa upgraded precisa sempre atualizar seu repertório, acumulando mais ferramentas psicológicas ou psicoafetivas para avançar em sua compreensão. Algumas pessoas adicionariam um ponto a mais na listagem das "ansiedades", talvez, o limite de seu "disco rígido", de sua memória, porém, nosso cérebro não funciona desse jeito, ao contrário, ele é expansivo graças a Deus! Lembra do texto?
"Instrui o sábio e ele se tornará mais sábio." (Pv 9:9).
Infelizmente, nós que vivemos em uma terra em que durante muito tempo os "cultos" eram loucos e o "malandro" o virtuoso. Em terras brazilis têm-se o conhecer como algo que pode levar as pessoas a um tipo de estado de demência. Mas, já adianto que não!

Quando estudamos e procuramos entender a produção cultural da humanidade, nós cristão deveríamos fazê-lo sob um princípio supra-teórico (para usar os termos do jurista e filósofo holandês Herman Dooyeweerd), um princípio arquimediano (de archê em grego) que é nossa inclinação e visão religiosa, sem a qual não é possível ter um mínimo de coerência teórica, cai-se fatalmente no niilismo absoluto ou no reducionismo idólatra.

Minha compreensão filosófica e científica do mundo, passa acima de qualquer meta-narrativa, pois submete-se radicalmente em Deus. Honestidade intelectual é admitir que não dá para fazer ciência sob uma pretensa neutralidade religiosa. Já adianto, não vejo qualquer dicotomia entre minha espiritualidade e minha atuação cultural. Ao contrário, Deus me libertou de um cativeiro de ignorância e alienação, hoje consigo ler de kantianos à pós-estruturalistas e discernir o que cheira graça comum do que cheira enxofre.

Um cristão minimamente interessado em viver uma espiritualidade expansiva, integral, deveria se manter minimamente upgraded, se não em breve estará unpluged.