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6 de mai. de 2016 | By: @igorpensar

Lamento e Temor

Conheço minha geração, sei que é inquieta, ela é sensível à injustiça, não suporta a contradição e o abuso de poder. Reconheço que é uma inquietação legítima, eu também não consigo ficar passivo diante de tais contradições. Na maioria das vezes resta-me somente o lamento. Eu lamento crianças cujos pais não podem ajudá-las na tarefa de casa, lamento pelo adolescente que é indisciplinado porque troca "F" com "B". Lamento a criança ou o adolescente abusado pelo namorado da mãe ou pelo próprio pai. Lamento pelo morador de rua que por causa do labirinto de uma pedra de crack ou o alcoolismo não consegue viver mais em família. Eu lamento!

Porém, temo que meu lamento se torne em revolta, e que minha inquietação se torne em puro ressentimento. Temo que meu desconforto se torne em um tipo de autocomiseração ou uma espécie de "salvação pelas obras", para que eu me sinta "moralmente" ou "espiritualmente" melhor do que os outros.

Temo que o pobre seja abstraído de suas idiossincrasias, singularidades, sua humanidade, e seja instrumentalizado por um pietismo sociológico. Temo por um enfraquecimento da centralidade e suficiência do Evangelho, como se o Evangelho não tivesse recursos suficientes para afetar o modo como lidamos com a pobreza e a vulnerabilidade.

Eu temo uma transferência do mal para o que está "lá", de maneira exógena, como se ele não estivesse "aqui", até mesmo em minha medíocre comiseração.

Nossos dias são dias de lamento e temor, compadecimento e prudência. Que nosso frágil senso de justiça não seja sequestrado por uma pulsão de revolta institucional. Que choremos pelo Templo em ruínas, como fez Jeremias, mas que tememos nossa reação. Não caiamos na utopia zelote, pois Cristo abraçou a cruz. E, antes de pensarmos sobre o que "fazer", que nossa alma inquieta descanse no que Cristo fez, pois 'sem Ele nada podemos fazer'.
12 de abr. de 2016 | By: @igorpensar

Conferência SWAP (Natal/RN)

Em Natal/RN


Você já retirou seu ingresso? Não perca tempo, entre em contato com a gente pelo número (84) 99610-0250 e combina a retirada da sua senha.
11 de mar. de 2016 | By: @igorpensar

Cristãos em um Mundo Plural

Vivemos em uma era em que defender uma ideia em relação a outras é quase considerada uma arrogância, uma postura etnocêntrica.  Também é verdade que com relativa frequência, paixões ideológicas, nacionalistas ou religiosas podem ser pouco abertas ao diálogo.  Porém, em tempos de cultura líquida este tem sido um mal menor.  Considere que entramos de cabeça na era da incerteza, qualquer convicção poderá ser execrada facilmente.

Precisamos reconhecer que não vivemos mais à sombra da cristandade.  Agora, sob uma sociedade que se laicizou, temos que aprender a viver em uma cultura que é crescentemente pluralista.  A angústia e a incerteza se intensificam, talvez por este motivo, convicções ainda são importantes.  Não subestime a sede humana por segurança existencial e a necessidade de crenças absolutas.  Infelizmente, esta tem sido uma das razões da adesão ao islamismo radical em ambientes culturalmente secularizados como a Europa pós-cristã, por exemplo.



Então, como ter convicções em um ambiente pluralista? Na pós-modernidade, convicção em si não é um problema, mas é um escândalo quando afeta sua opinião sobre questões de interesse comum ou quando ela é publicizada. Por isso que tanta gente confunde laicidade com secularismo.  O secularismo não permite convicções públicas de origem religiosa, só as autoriza quando reclusas à vida privada ou ao "templo religioso".  O elemento mítico é evidente!  Obviamente que é impossível separar indivíduos de suas convicções ou visão de mundo.  Defender uma "neutralidade confessional" na esfera pública é cair na armadilha secularista.  Para o cristão, ao contrário, sua convicção deve ter o mesmo peso que tinha na pena de C.S. Lewis: "Eu acredito no cristianismo como acredito no sol, não apenas porque o vejo, mas porque por meio dele vejo todo o resto."

A presença pública do cristão deve ser total.  O modo de ser do cristão é um grande testemunho da autenticidade da fé que ele professa.  Em tempos de ceticismo e pluralismo, a vida cristã deve ser encarada também como plataforma apologética.  A defesa verbal da plausibilidade e da veracidade do Evangelho deve ser acompanhada de uma vida autenticamente afetada por essa verdade.  Não estou me referindo apenas a uma vida moralmente correta, o cristianismo é muito mais do que moralismo, refiro-me a um lugar específico onde todo cristão deveria residir: Cristo, este crucificado e ressuscitado.  Situar-se em Cristo é se colocar em uma posição singular, é perceber e agir no mundo a partir do centro de gravidade da história.  Estar e crer em Cristo é imaginar a história e ser colocado no mundo sob a irrefutabilidade da pessoas de Jesus.

O cristianismo não é dono da verdade, ao contrário, a Verdade é que é sua dona.  Tim Keller proclama:  o cristianismo não tem 'um argumento irrefutável, mas uma pessoa irrefutável'.  Por esta razão, o cristão deve se lembrar que o maior interessado na evangelização é o próprio conteúdo da mensagem evangelizadora, Cristo.  Evangelizar é demonstrar que realmente estamos interessados nas dúvidas, angústias e o ceticismo das pessoas, e que temos uma boa nova para lhes contar: "Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo mesmo." (Apóstolo Paulo).

Enfim, consideremos que nosso mundo mudou drasticamente, é verdade, porém o cristianismo sempre foi desafiado a manter seu núcleo ortodoxo intacto na medida que demonstra a relevância de sua fé para as angústias e desafios de seu tempo.  Talvez, mais do que nunca, nós cristãos, somos desafiados a erguermos a verdade evangélica de maneira franca porém dialógica, comprometida e acolhedora, ortodoxa e engajada, e finalmente, relacional mas sempre intencional.  A ironia pode ser que o pluralismo que tantos temem acabe por se tornar uma grande oportunidade para que nosso cristianismo se mostre, mais uma vez, um luzeiro em um mundo onde utopias e grandes projetos civilizatórios fracassaram.
11 de nov. de 2015 | By: @igorpensar

A Missão de Deus [vídeo]


Reflexão que ministramos na Igreja Batista da Lagoinha na Conferência de Missão sobre o tema "A Missão de Deus" no dia 1º de novembro de 2015.

Antes de qualquer missionário anunciar alguma mensagem, Deus está altamente comprometido com a tarefa de se fazer conhecido e de revelar sua própria glória. Tal missão encontra sua expressão máxima na encarnação de Jesus Cristo, que sopra o Espírito sobre os discípulos, e assim, envia a Igreja.


29 de jul. de 2015 | By: @igorpensar

Teologia da Cidade [áudio]

A primeira parte de uma reflexão introdutória a respeito da teologia da cidade.  A relação do cristão, do evangelho e da cultura no contexto urbano.

Parte I 



Parte II
9 de set. de 2014 | By: @igorpensar

Apatia Evangelizadora

A apatia evangelizadora é fruto de uma apatia diante do Evangelho mesmo. Uma falta de reação diante do amor. A única reação ao amor de Deus que nos foi revelado em Cristo é amar. Amar não é uma espécie de experiência emocionalista, é uma pulsão graciosa que nasce de um amor evento, refiro-me à encarnação e à cruz.

O esvaziamento de Cristo, na encarnação, tem implicações missiológicas absurdas. Não há missão sem amor, não há amor sem renúncia, e não há missão sem encarnação. Se Deus se revestiu de nossa humanidade para nos salvar, pelo amor que desfrutamos em Cristo deveríamos nos revestir de avassaladora compaixão. Compaixão que fez Jesus chorar por uma cidade (Jerusalém). Compaixão que fez Paulo perambular por Atenas. Compaixão que nos faz estudar e nos compadecer da cidade, para nela, manifestarmos os benefícios da graça de Deus reveladas em Cristo Jesus.

Evangelizar não é um proselitismo legalista baseado no constrangimento, é comunicar que Deus está amando pecadores dignos de sua indignação. Porém, se este evangelho não alcançou o coração de um "cristão", obviamente, ele nunca evangelizará. Pois o que faz homens e mulheres darem um salto na missão é que foram feridos pelo Evangelho (o amor), por isso, não têm outra opção, amam ardentemente aquele que os salvou, por isso evangelizam.
20 de mai. de 2014 | By: @igorpensar

Missão Integral & Entrevista

Compartilho a excelente entrevista dada ao programa Academia em Debate da TV Mackenzie. E logo abaixo, ponderações pessoais a respeito do conteúdo da entrevista.




Missão Integral: ponderações à entrevista de
Jonas Madureira e Filipe Fontes1

Por Igor Miguel2


Acabei de assistir a entrevista do mano e Prof. Jonas Madureira e o Prof. Filipe Fontes disponível neste endereço https://www.youtube.com/watch?v=34PPk-sCNhU. Não sou nenhum especialista em temas teológicos. Como digo, da teologia deleito-me com o que julgo ser fundamental para minha existência e fé em Cristo. Sou obrigado como cristão a dar razão para minha fé e missão. Logo, minha posição aqui é passível de inúmeras objeções ou contra-argumentos, e estou aberto a elas.

Lembrando que Jonas é um amigo de fé e jornada, e sou admirador de seus textos e falas, aprendo muito com ele. Ele sabe disso. Quanto ao Filipe, não o conheço, mas gostei de sua participação na entrevista. De qualquer forma, considerem meus apontamentos aqui fruto de um interesse profundo de aprendizagem mútua. E claro, uma conversa doméstica ao cheiro virtual de um bom café. Sendo assim, trato ideias e não pessoas, até pelo motivo de respeitá-las.

Primeiro, considero a entrevista de boa qualidade. As perguntas levantadas pelo Rev Augustus Nicodemus foram pertinentes e tocaram em aspectos sensíveis no debate a respeito da teologia da missão integral.

Segundo, em geral, a entrevista foi precisa nas objeções apresentadas. Posso dizer que a entrevista é indicadíssima em termos teológicos. Não tenho dúvida de que há uma dependência de ideologias orientadas à esquerda entre os propagadores da teologia da missão integral. Isto a tal ponto, que o termo “missão integral” se tornou, como observado na entrevista, quase um sinônimo de uma espécie de “teologia de esquerda”, ou ainda, uma equivalência evangélica da teologia da libertação. Concordo com a ausência ou falta de clareza metodológicas entre os proponentes da missão integral e que há um certo ufanismo anti-imperialista, traduzido, muitas vezes, em um insistente desejo de elaboração de uma “teologia sul-americana”. Claramente, reproduções, ou no mínimo, reverberações ideológicas revolucionárias.

Além disso, uma objeção forte refere-se à dependência de certa epistemologia sociológica, e seu discurso como interface científica de modo a aproximar uma teologia que lida com questões de natureza social. Eu percebi isso, e não somente eu, que no documento provisório apresentado na recente Consulta do Movimento Lausanne, em Atibaia-SP, havia um tom excessivamente sociológico, quando deveria ser mais teológico. Claro, isto sem desconsiderar as implicações sociológicas da teologia da prosperidade, objeto daquele documento. De qualquer forma, um documento que represente o posicionamento da igreja evangélica brasileira deveria ser elaborado a partir da gramática da igreja, que é fundamentalmente teológica.

Chamo a atenção para o cuidado dos entrevistados em afirmar que há algo aí que a teologia da missão integral detectou que é legítimo, e que em geral, evangelicais históricos e ortodoxos, ignoram. O problema da pobreza deve ser tratado por cristãos de alguma forma. Claro, os encontros de Lausanne eram pra lidar com os rumos da missão no mundo moderno e globalizado, o que implicava também, em certa complexidade missiológica. O mundo tornou-se deveras multifacetado, obviamente, os desafios missionários tornaram-se igualmente complexos. Logo, isto exigia uma definição geral dos rumos da Grande Comissão, principalmente ante os novos desafios, o que incluiria o problema da pobreza.

Também percebo no discurso da teologia da missão integral a busca por um apoio em Lausanne, que não considera seriamente todas as implicações de um “Cristo todo, para o homem todo”. E, ironicamente, às vezes o que é chamado de missão integral acaba sendo uma missão reducionista. Pois ao reconhecer a necessidade de uma missão abrangente, acaba por concentrá-la apenas à dimensão social, o que pode ser mais uma evidência da influência da sociologia materialista histórica. Os entrevistados chamaram a atenção para esta fraqueza.

Agora, minhas observações. Bem, reconheço que a adoção de uma distinção entre missão e evangelismo é consistente. Bom lembrar que o termo “missão” foi elaborado historicamente para descrever aquilo que Deus confiou à Igreja e aos cristãos como tarefa a ser cumprida. Um termo exógeno à revelação que sintetiza uma verdade escriturística: o cristão e a igreja têm uma tarefa a cumprir. Entretanto, sou favorável a uma percepção mais abrangente (não digo em importância, mas em aspectos) do termo “missão”. Guilherme de Carvalho (2009) defende esta distinção também, a missão é abrangente, inclui tudo aquilo que Deus comissionou o novo homem recriado em Cristo e que vive sob seu senhorio: o que abrangeria os mandatos criacionais (religioso, cultural e social), e claro, o anúncio do Evangelho.

Não vou aqui repetir, o que todos deveriam ler: a genealogia da evolução teológica de Lausanne já elaborada e publicada em português, bem como uma proposta teológica alternativa e reformada ao predominante e enviesado discurso da missão integral (ibid., 2009). Não vi ninguém fazendo uma séria objeção ao que me refiro aqui, considerem seriamente os textos mencionados.

Mas, enfim, nesses artigos, o autor demonstra que a evolução do debate sobre a relação evangelismo e ação social passou por várias propostas: desde umas mais fundamentalistas, que insistiam em uma clara distinção, quase que ignorando totalmente o cuidado cristão com os mais pobres; até aqueles em um espectro mais à esquerda (com alguma aproximação de uma teologia mais liberal), que quase fundia o sentido de Evangelho com cuidado com os pobres. O que ao norte seria imediatamente associado ao que é chamado de Evangelho Social.

Por fim há os que preferem um posicionamento mais sóbrio. O que significaria que a missão cristã é abrangente e deve ter em seu escopo o evangelismo. O evangelismo não deveria ser confundido com ação social, mas esta também não deveria ser colocada em tensão com aquela. Antes, deveriam ser concomitantes. Afinal, a fé deve ser acompanhada de obras. O anúncio não deveria estar desassociado do testemunho. Timothy Keller (2013) também trata esta questão de forma bem simples, mas com uma precisão magistral: “o evangelho produz interesse pelo pobre e as obras de justiça dão credibilidade à pregação do evangelho. Em outras palavras, justificação pela fé nos leva a fazer justiça, e fazer justiça leva muitos a buscar a justificação pela fé.” (p.142).

Na entrevista, parece que não ficou clara esta distinção. De qualquer forma, alegar que a única tarefa da igreja, ou seja, sua missão, é exclusivamente “evangelística”, seria ignorar textos bíblicos sérios. Como, por exemplo, aqueles que dizem que Deus tem remido para si um povo “zeloso e de boas obras” (Tt 2:14); que Deus nos criou em Cristo para “boas obras” (Ef 2:10); que as obras do discípulo fazem os homens glorificar a Deus, como ensinado por Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5:16); e finalmente, a conhecida exortação de Tiago a respeito das obras como evidências da fé.

Quando se fala de obras, fala-se de todo mandato adâmico que fora reconstituído na nova humanidade que emerge de Jesus. Temos que cultivar um jardim para a glória de Deus. E isto inclui, apesar de não exclusivamente, o cuidado com o mais vulnerável, como nos ensinou Jesus por meio da parábola do bom samaritano.

No que tange a nossa tradição reformada, esta ênfase abrangente da tarefa cristã, é claramente reconhecida no “amor ao próximo”. Claro que o melhor que podemos oferecer aos homens é a boa-nova, mas ela não deveria ser concorrente ou ameaçadora em relação a outras tarefas implicadas na missão cristã. Que como disse, sou favorável a uma concepção lato sensu.

Assim, repito, deveríamos reconhecer que a missão é integral sim, independente do termo estar deveras intrincado com teologias ideologicamente enviesadas, ainda assim, deveríamos considerar o sentido do termo. Uma missão integral é a tarefa cristã que reconhece que não há dimensão neutra da existência humana. Reduzir a missão à dimensão da justiça social, seria contradizer a natureza integral da missão. Ela toca nesta dimensão, mas também, opera na academia, na ciência, na política, nas artes e em todas estas esferas.

Se reconhecemos que a missão cristã é integral, o fazemos por considerar que Cristo reina integralmente. Se o senhorio de Cristo é o que orienta nossa missão, é bom mencionar que temos subsídio em nossa tradição, em particular a reformada, para uma missiologia integral. Refiro-me, em particular, ao que encontramos em Abraham Kuyper, ou no que chamamos de neocalvinismo. Mas, isto seria outra conversa. Aos mais corajosos, deixo a indicação dos textos: A Missão Integral na Encruzilhada: reconsiderando a tensão no pensamento teológico de Lausanne e O Senhorio de Cristo e a Missão da Igreja na Cultura: a ideia de soberania e sua aplicação (Carvalho, 2009). Pois estou longe de ser o primeiro a defender uma tese missiológica neste sentido.


REFERÊNCIAS

CARVALHO, Guilherme de. A Missão Integral na Encruzilhada: reconsiderando a tensão no pensamento teológico de Lausanne e O Senhorio de Cristo e a Missão da Igreja na Cultura: a ideia de soberania e sua aplicação In.: RAMOS, Leonardo. CAMARGO, Marcel. AMORIM, Rodolfo. Fé Cristã e Cultura Contemporânea: cosmovisão cirstã, igreja local e transformação integral. Viçosa: Ultimato, 2009. p.11-95.

KELLER, Timothy. Justiça Generosa: a graça de Deus e a justiça social. São Paulo: Vida Nova, 2013.

1 Fiz um breve comentário no mural do Facebook do amigo Paulo Dib a respeito do vídeo. Jonas considerou minhas ponderações sinteticamente lá publicadas. Agradeço pela concordância com os pontos lá levantados. Este texto é uma versão expandida.

11 de abr. de 2014 | By: @igorpensar

Missão Integral: menção honrosa ao redundante

Por Igor Miguel

Já fiz aqui no Facebook uma objeção sobre “alguns discursos” (as aspas são para os que leem apressadamente) que permeiam alguns dos envolvidos com a missão integral.  Agora, permita-me fazer uma menção honrosa.  Bem, vale lembrar que o uso do termo “integral” associado à missão é, em algum sentido, uma redundância necessária.  Uma leitura cuidadosa das Escrituras, e uma visita à história cristã, nos conduzirá à conclusão de que a cristandade não reduzia a “missão” ao “anúncio”.   Mas, incluía o “anúncio” à missão.  E que a missão cristã é anunciar, mas também testemunhar.  

O anúncio é a boa notícia de que os homens estão sendo reconciliados gratuitamente com Deus por meio de Jesus Cristo.  O discipulado, que acontece de forma intricada ao anúncio, instrui o assim chegado à família de Deus que ele acabara de entrar em uma realidade nova.  Que agora, ele vê e vive o mundo real, que sua relação com o mundo e as pessoas dá-se por meio de uma nova cultura.  E, por ser ele do mundo real, e este mundo pecaminoso um mundo fictício, ele viverá tensões culturais titânicas.  Por esta razão, sua mensagem e estilo de vida relacionam-se a realidade que Deus estabeleceu.  Assim, o discípulo torna-se um anunciador, mas também um missionário que atua a partir de uma nova cidadania, que implica em uma ação consistente com a cultura do Reino de Deus.

Neste ponto, coaduno com a redundância do termo “missão integral” (como se fosse possível uma missão cristã que não fosse integral).  No sentido de que a missão cristã é abrangente, aprecia o anúncio do Evangelho, mas também evoca outras tarefas e serviços ligados a nova vida no Reino.  Dentre eles, a luta contra a injustiça e a afirmação da integralidade da vida humana.

O embaixador do Reino olha para a violência urbana, a desigualdade, a impunidade, o estatismo tecnocrata, o individualismo tirânico e se sensibiliza.  Verdade, ele também se angustia, lamenta e se inquieta.  Porém, logo é atingido pela fé, a esperança e o amor que o convocam ao anúncio, mas também, ao testemunho com obras que comunicam o estilo de vida e ordenamento do novo mundo (re)criado em Cristo Jesus.  Neste sentido, a missão é definitivamente integral.  Pois, não há nenhum aspecto do mundo ou da vida humana que Deus não tenha reavisto em Cristo na cruz.  'Ele tem reconciliado todas as coisas consigo mesmo' (Cl 1:20).
29 de set. de 2013 | By: @igorpensar

Conheça o Povos & Línguas

O Programa Povos & Línguas é uma iniciativa interdenominacional engajada na promoção da cultura missionária e no despertamento de vocacionados para a grande comissão.  Neste episódio foi tratado o trabalho missionário brasileiro na Suazilândia, um pequeno país africano, localizado próximo a Moçambique e África do Sul.   Participamos deste vídeo, como vocês podem ver na parte final, com uma reflexão sobre a grande comissão.  O programa é sempre exibido na TV pela Rede Super e todos os vídeos ficam disponíveis na íntegra no YouTube.


17 de mar. de 2013 | By: @igorpensar

Bento XVI: ortodoxia e missão

Por Igor Miguel

Li algumas palavras do gigante da teologia reformada Herman Bavinck (1854-1921).  Ele fez importantes críticas ao catolicismo romano, principalmente naqueles pontos divergentes com a fé reformada.  Ainda assim, ele insistia que cristãos reformados não podem se esquecer que o catolicismo romano ainda é cristianismo, e que devemos estar atentos, em termos teológicos, ao que é produzido por eles:

"Protestantes são muitas vezes menos conscientes do que eles tem em comum com Roma, do que aquilo que os separa." (Bavinck apud Wit, 2011, p. 47).
Nestes tempos de especulações a respeito da declaração de renúncia do atual papa Bento XVI, e expectativas conservadoras à respeito da eleição do atual Papa Francisco I, achei uma pérola que fornece muitos "insights" quanto às tensões, que nós cristãos protestantes nos deparamos na missão. 

Refiro-me ao conceito de "missão integral"Sabe-se da frase clássica que está associada ao Movimento de Lausanne: "Cristo todo, para o homem todo."  A "missão integral" considera que a mensagem do Evangelho não tem implicação meramente individual, mas afeta a vida como um todo, incluindo a cultura, a vida e a sociedade.  Quando se retoma a grandeza da missão nestes termos, a expressão "missão integral" se torna um oximoro, afinal é inerente à missão sua integralidadeCristo inaugurou uma nova humanidade nele, e os que se ligam a ele desfrutam dos sinais antecipatórios de uma vida integralmente renovada.
 
Comumente se faz uma separação entre "missão integral" e "ortodoxia doutrinária".  Em parte, isto se deve à influência da "Teologia Latina", uma versão da Teologia da Libertação [alguns não concordarão] entre alguns protestantes da Ibero-América, engajados na missão integral.  Por este motivo, é muito comum a associação imprecisa entre "missão integral"  e "marxismo".  Por outro lado, há os que defendem que é possível fazer missão integral sem a ideologia revolucionária [estou entre estes].  

Uma das produções mais relevantes em língua portuguesa no sentido de integrar ortodoxia doutrinária e missão foi a revisão de Lausanne  realizada por Guilherme de Carvalho¹ no livro "Fé Cristã e Cultura"²A proposta é que a Missão Integral não pode ser orientada por uma teologia minimalista, antes deve se basear em uma clara posição doutrinária.  A propósito, foi exatamente este "minimalismo" que abriu o precedente para a penetração de uma mentalidade esquerdista na recente missiologia protestante.

Mas, então, qual é a tradição dentro da fé cristã reformada que poderia fornecer uma alternativa que integre "ortodoxia" e "missiologia"?  Um caminho possível seria aquele que se encontra na tradição neo-calvinista, associada ao nome de Abraham Kuyper (1837-1920).  Como este é um tema cuja discussão já é tratada no capítulo do livro mencionado, sugiro aos interessados que o consulte.


De fato, não é só a Missão Integral entre evangélicos que sofre esta tensão interna, o mesmo vem sendo experimentado entre católicos há alguns anos.  Em termos gerais, há uma polaridade entre católicos socialmente engajados e aqueles conservadoramente ortodoxos.   O primeiro grupo alega que o segundo é insensível à pobreza e ao sofrimento dos oprimidos, já os últimos, afirmam que os primeiros abraçaram uma ideologia não-cristã para fundamentar sua missão.

A propósito, muitos sabem das antigas tensões teológicas entre o Papa Bento XVI, na ocasião Joseph Ratzinger cardeal e prefeito da Congregação pela Doutrina da Fé, e Leonardo Boff, este expoente da Teologia da Libertação.  Como resultado, Ratzinger elaborou um importante documento, publicado em 6 de agosto de 1984, intitulado: Instruções sobre alguns aspectos da "Teologia da Libertação".


Confesso, que em termos gerais, o texto do documento apresenta importantes contrapontos teológicos àquela teologia conhecida como "da libertação".  E fiquei pensando como poderia ser útil considerar os argumento no texto para o enriquecimento do debate "missão" e "ortodoxia", também no contexto protestante, mesmo sabendo que este não era o propósito de Ratzinger.   Penso isto, pois em geral, os mesmos problemas encontrados na teologia da Missão Integral de inclinação marxista são aqueles da Teologia da Libertação.

Compartilho uma das sentenças encontrada na conclusão do documento de Bento XVI:
"A preocupação pela pureza da fé não subsiste sem a preocupação de dar a resposta de um testemunho eficaz de serviço ao próximo e, em especial, ao pobre e ao oprimido, através de uma vida teologal integral."
A conclusão emerge de um argumento simples:  o cristianismo sempre foi, desde a era apostólica, sensível aos menos favorecidos.  O cristianismo foi responsável por grandes instituições de acolhimento e restituição da dignidade humana.  Creches, escolas, hospitais e orfanatos estão entre as diversas instituições fundadas por cristãos, sejam católicos ou protestantes.  Para ele, não é necessário recorrer a uma ideologia não-cristã, baseada no mito do progresso, em uma visão ingênua do homem, na libertação pela violência, o dogma da luta de classes, e claro, na negação de Deus, para orientar a tarefa cristã aos menos privilegiados. Aceitar algum tipo de marxismo envolveria a relativização de aspectos doutrinários caros ao cristianismo.   A solução seria retomar a antiga sensibilidade cristã à injustiça, e assim, não abrir mão da fé cristã ortodoxa.

Enfim penso que o atual Papa Francisco I, segue mais ou menos a mesma orientação:  cuidado com os pobres e oprimidos (parte do ethos franciscano, não obstante ser ele jesuíta), sem a tentação do progressismo-liberal.  Há uma esforço ulterior no sentido de integrar ambas facetas (missão e a ortodoxia*) da fé cristã .  Evangélicos engajados na tarefa junto aos menos favorecidos, como eu e outros, sentem o mesmo problema.  E devemos tomar o mesmo cuidado.   Afinal, quando um cristão ama um pobre autenticamente, a glória não pode ser de Marx, mas  de Cristo. Ao menos, é isto que aprendemos quando olhamos, mesmo que timidamente, para a longa história do cristianismo.



_________
*Claro que o que chamo de ortodoxia aqui, são aqueles pontos convergentes entre a ortodoxia católica romana e protestante.   Principalmente aqueles que ferem profundamente a ética judaico-cristã.


Referências

Wit, Willen J. On the Way to the Living God : a cathartic reading of Herman Bavinck and An Invitation to Overcome the Plausibility Crisis of ChristianityAmsterdã: VU University Press, 2011.
5 de mar. de 2012 | By: @igorpensar

Igreja, Exílio e Redenção (Prezi)

Apresentação da palestra que ministramos no IV Congresso Cristianismo Autêntico sobre o tema "Igreja, Exílio e Redenção".

22 de dez. de 2011 | By: @igorpensar

Deus no Exílio


O artigo de nossa autoria "Deus no Exílio" acabou de ser publicado no site da Editora Ultimato.  Uma reflexão sobre a "missão de Deus", cuja expressividade mais significativa encontra-se na encarnação do Verbo, que é Jesus.  Neste período que refletimos sobre os grandes feitos de Deus em Jesus, quando se fez carne em Belém, deveríamos nos lembrar que Deus está em busca de seus filhos no exílio.

10 de out. de 2011 | By: @igorpensar

Missão Integral & Missionalidade

Disponibilizo aqui a apresentação (em formato Prezi) de minha aula na Escola de Teologia e Vida Cristã do L'Abri , o conteúdo está todo disponível aí, basta ir passando os enquadramentos com as setas.

7 de fev. de 2011 | By: @igorpensar

Princípios na Missão

Por Igor Miguel

Como trabalhamos diretamente (face-to-face) com crianças e adolescentes que carecem de atenção e processos educativos adicionais, procuramos integrar nossa vocação pedagógica com vocação missionária. Como sei que muitos dos que visitam este blog estão engajados em missões urbanas, missão transcultural, missão integral, transformação comunitária e similares, desejamos compartilhar alguns princípios missiológicos que nos ajudam muito durante os trabalhos que realizamos com crianças/jovens/adolescentes em situação de risco:

1) Se vida transcende vida biológica, se o termo envolve a integralidade da vida humana, tudo que fragmenta, desintegra, violenta, perverte e distorce a vida é morte. Neste sentido, a missão com jovens em situação de risco e em comunidades de periferia envolve o testemunho e a ação da ressurreição: beleza, amor, alegria, sabedoria, plenitude e justiça.

2) Aborde a dura realidade destas comunidades sob uma visão de mundo reformada: criação-queda-redenção-consumação ou seja, quando olho pro rosto de um menino que reproduz a violência de sua família, não vejo uma criança indisciplinada, mas um ser a imagem de Deus (por isso digno do amor) trincado pelos efeitos da queda. Trincado, mas ainda digno do evangelho e da grandeza da ressurreição de Cristo, filho da ira, mas filho de Deus em potencial. Nossa missão por isso é esperançosa, pois pela esperança, sabemos de que alguma forma o que fazemos redundará em glória para Deus na consumação/restauração de todas as coisas. Não posso deixar de amar, pois é criação. Não posso ser utópico, pois há queda. Não posso ser pessimista, pois há esperança.

3) Intervenções comunitárias precisam ser carregadas de intencionalidade educacional. Se há intento pedagógico, há uma antropologia filosófica clara. Ou seja, se o homem é um ser em estado de inacabamento, que tipo de homem desejamos formar nestes adolescentes e jovens? Um homem do consumo? Um homem do conhecimento? Um homem integral? Um homem restituído de sua dignidade como filho de Deus? Sem clareza a respeito de que homem intentamos formar, a intencionalidade educacional fica difusa ou comprometida.

4) Encarnação como princípio missiológico: Se o Verbo de Deus se fez carne em Jesus (Jo 1:14) e se Ele se esvaziou e assumiu forma servil (Fp 3), é um mandamento que todo vocacionado nestas comunidades se revista da linguagem, da realidade cultural e de sua própria humanidade. Sua encarnação é simultaneamente contextualizada e subversiva, pois afeta estruturas pecaminosas e iníquas Encarnação missiológica, significa que não olho de "cima pra baixo", eu desço a montanha como Moisés, com as "tábuas da palavra" em mãos. Missão é tradução, ou nos termos de João Calvino, envolve uma "acomodação" da linguagem a fim de tornar grandes verdades compreensíveis a um público que vive outra realidade cultural. Daí, o vocacionado em comunidades com esta realidade, deve se valer de toda sua criatividade e recursos, para comunicar com clareza a mensagem do Reino em Cristo em toda sua plenitude.

5) A mensagem do Reino é comunicada de forma integral, em algum sentido, a ressurreição é a Nova Criação (N.T. Wright), se assim o é, é inerente ao evangelho: a salvação, cultura, justiça, sabedoria, beleza, plenitude, saúde, educação, responsabilidade ética, cidadania e por aí vai.

6) Amor... amar envolve um princípio de hospitalidade. Um tratamento bíblico de que cada pessoa é um mundo, cada pessoa é um universo em potencial. Amar é romper com o tratamento massificante (tão recorrente em instituições públicas) e ver em cada indivíduo um universo, um mundo próprio e singular. Amor significa derramar sua vida, sua energia, seu tempo, sua disposição, seu calor pelo outro. Esta deve ser uma meta constante...

São princípios dinâmicos, não-abstratos, conectados com a prática, apegados com a rotina de trabalhos de natureza sócio-educativas nestas comunidades.

Que possamos prosseguir neste alvo e perspectiva de que Jesus Cristo é o agente principal de transformação destas vidas e comunidades.