Lamento e Temor
Porém, temo que meu lamento se torne em revolta, e que minha inquietação se torne em puro ressentimento. Temo que meu desconforto se torne em um tipo de autocomiseração ou uma espécie de "salvação pelas obras", para que eu me sinta "moralmente" ou "espiritualmente" melhor do que os outros.
Temo que o pobre seja abstraído de suas idiossincrasias, singularidades, sua humanidade, e seja instrumentalizado por um pietismo sociológico. Temo por um enfraquecimento da centralidade e suficiência do Evangelho, como se o Evangelho não tivesse recursos suficientes para afetar o modo como lidamos com a pobreza e a vulnerabilidade.
Eu temo uma transferência do mal para o que está "lá", de maneira exógena, como se ele não estivesse "aqui", até mesmo em minha medíocre comiseração.
Nossos dias são dias de lamento e temor, compadecimento e prudência. Que nosso frágil senso de justiça não seja sequestrado por uma pulsão de revolta institucional. Que choremos pelo Templo em ruínas, como fez Jeremias, mas que tememos nossa reação. Não caiamos na utopia zelote, pois Cristo abraçou a cruz. E, antes de pensarmos sobre o que "fazer", que nossa alma inquieta descanse no que Cristo fez, pois 'sem Ele nada podemos fazer'.
Conferência SWAP (Natal/RN)
Cristãos em um Mundo Plural
Precisamos reconhecer que não vivemos mais à sombra da cristandade. Agora, sob uma sociedade que se laicizou, temos que aprender a viver em uma cultura que é crescentemente pluralista. A angústia e a incerteza se intensificam, talvez por este motivo, convicções ainda são importantes. Não subestime a sede humana por segurança existencial e a necessidade de crenças absolutas. Infelizmente, esta tem sido uma das razões da adesão ao islamismo radical em ambientes culturalmente secularizados como a Europa pós-cristã, por exemplo.
Então, como ter convicções em um ambiente pluralista? Na pós-modernidade, convicção em si não é um problema, mas é um escândalo quando afeta sua opinião sobre questões de interesse comum ou quando ela é publicizada. Por isso que tanta gente confunde laicidade com secularismo. O secularismo não permite convicções públicas de origem religiosa, só as autoriza quando reclusas à vida privada ou ao "templo religioso". O elemento mítico é evidente! Obviamente que é impossível separar indivíduos de suas convicções ou visão de mundo. Defender uma "neutralidade confessional" na esfera pública é cair na armadilha secularista. Para o cristão, ao contrário, sua convicção deve ter o mesmo peso que tinha na pena de C.S. Lewis: "Eu acredito no cristianismo como acredito no sol, não apenas porque o vejo, mas porque por meio dele vejo todo o resto."
A presença pública do cristão deve ser total. O modo de ser do cristão é um grande testemunho da autenticidade da fé que ele professa. Em tempos de ceticismo e pluralismo, a vida cristã deve ser encarada também como plataforma apologética. A defesa verbal da plausibilidade e da veracidade do Evangelho deve ser acompanhada de uma vida autenticamente afetada por essa verdade. Não estou me referindo apenas a uma vida moralmente correta, o cristianismo é muito mais do que moralismo, refiro-me a um lugar específico onde todo cristão deveria residir: Cristo, este crucificado e ressuscitado. Situar-se em Cristo é se colocar em uma posição singular, é perceber e agir no mundo a partir do centro de gravidade da história. Estar e crer em Cristo é imaginar a história e ser colocado no mundo sob a irrefutabilidade da pessoas de Jesus.
O cristianismo não é dono da verdade, ao contrário, a Verdade é que é sua dona. Tim Keller proclama: o cristianismo não tem 'um argumento irrefutável, mas uma pessoa irrefutável'. Por esta razão, o cristão deve se lembrar que o maior interessado na evangelização é o próprio conteúdo da mensagem evangelizadora, Cristo. Evangelizar é demonstrar que realmente estamos interessados nas dúvidas, angústias e o ceticismo das pessoas, e que temos uma boa nova para lhes contar: "Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo mesmo." (Apóstolo Paulo).
Enfim, consideremos que nosso mundo mudou drasticamente, é verdade, porém o cristianismo sempre foi desafiado a manter seu núcleo ortodoxo intacto na medida que demonstra a relevância de sua fé para as angústias e desafios de seu tempo. Talvez, mais do que nunca, nós cristãos, somos desafiados a erguermos a verdade evangélica de maneira franca porém dialógica, comprometida e acolhedora, ortodoxa e engajada, e finalmente, relacional mas sempre intencional. A ironia pode ser que o pluralismo que tantos temem acabe por se tornar uma grande oportunidade para que nosso cristianismo se mostre, mais uma vez, um luzeiro em um mundo onde utopias e grandes projetos civilizatórios fracassaram.
A Missão de Deus [vídeo]
Antes de qualquer missionário anunciar alguma mensagem, Deus está altamente comprometido com a tarefa de se fazer conhecido e de revelar sua própria glória. Tal missão encontra sua expressão máxima na encarnação de Jesus Cristo, que sopra o Espírito sobre os discípulos, e assim, envia a Igreja.
Teologia da Cidade [áudio]
Parte I
Parte II
Apatia Evangelizadora
Missão Integral & Entrevista
Missão Integral: menção honrosa ao redundante
Conheça o Povos & Línguas
Bento XVI: ortodoxia e missão
Li algumas palavras do gigante da teologia reformada Herman Bavinck (1854-1921). Ele fez importantes críticas ao catolicismo romano, principalmente naqueles pontos divergentes com a fé reformada. Ainda assim, ele insistia que cristãos reformados não podem se esquecer que o catolicismo romano ainda é cristianismo, e que devemos estar atentos, em termos teológicos, ao que é produzido por eles:
"Protestantes são muitas vezes menos conscientes do que eles tem em comum com Roma, do que aquilo que os separa." (Bavinck apud Wit, 2011, p. 47).
Refiro-me ao conceito de "missão integral". Sabe-se da frase clássica que está associada ao Movimento de Lausanne: "Cristo todo, para o homem todo." A "missão integral" considera que a mensagem do Evangelho não tem implicação meramente individual, mas afeta a vida como um todo, incluindo a cultura, a vida e a sociedade. Quando se retoma a grandeza da missão nestes termos, a expressão "missão integral" se torna um oximoro, afinal é inerente à missão sua integralidade. Cristo inaugurou uma nova humanidade nele, e os que se ligam a ele desfrutam dos sinais antecipatórios de uma vida integralmente renovada.
Uma das produções mais relevantes em língua portuguesa no sentido de integrar ortodoxia doutrinária e missão foi a revisão de Lausanne realizada por Guilherme de Carvalho¹ no livro "Fé Cristã e Cultura"². A proposta é que a Missão Integral não pode ser orientada por uma teologia minimalista, antes deve se basear em uma clara posição doutrinária. A propósito, foi exatamente este "minimalismo" que abriu o precedente para a penetração de uma mentalidade esquerdista na recente missiologia protestante.
Mas, então, qual é a tradição dentro da fé cristã reformada que poderia fornecer uma alternativa que integre "ortodoxia" e "missiologia"? Um caminho possível seria aquele que se encontra na tradição neo-calvinista, associada ao nome de Abraham Kuyper (1837-1920). Como este é um tema cuja discussão já é tratada no capítulo do livro mencionado, sugiro aos interessados que o consulte.
A propósito, muitos sabem das antigas tensões teológicas entre o Papa Bento XVI, na ocasião Joseph Ratzinger cardeal e prefeito da Congregação pela Doutrina da Fé, e Leonardo Boff, este expoente da Teologia da Libertação. Como resultado, Ratzinger elaborou um importante documento, publicado em 6 de agosto de 1984, intitulado: Instruções sobre alguns aspectos da "Teologia da Libertação".
Confesso, que em termos gerais, o texto do documento apresenta importantes contrapontos teológicos àquela teologia conhecida como "da libertação". E fiquei pensando como poderia ser útil considerar os argumento no texto para o enriquecimento do debate "missão" e "ortodoxia", também no contexto protestante, mesmo sabendo que este não era o propósito de Ratzinger. Penso isto, pois em geral, os mesmos problemas encontrados na teologia da Missão Integral de inclinação marxista são aqueles da Teologia da Libertação.
Compartilho uma das sentenças encontrada na conclusão do documento de Bento XVI:
"A preocupação pela pureza da fé não subsiste sem a preocupação de dar a resposta de um testemunho eficaz de serviço ao próximo e, em especial, ao pobre e ao oprimido, através de uma vida teologal integral."A conclusão emerge de um argumento simples: o cristianismo sempre foi, desde a era apostólica, sensível aos menos favorecidos. O cristianismo foi responsável por grandes instituições de acolhimento e restituição da dignidade humana. Creches, escolas, hospitais e orfanatos estão entre as diversas instituições fundadas por cristãos, sejam católicos ou protestantes. Para ele, não é necessário recorrer a uma ideologia não-cristã, baseada no mito do progresso, em uma visão ingênua do homem, na libertação pela violência, o dogma da luta de classes, e claro, na negação de Deus, para orientar a tarefa cristã aos menos privilegiados. Aceitar algum tipo de marxismo envolveria a relativização de aspectos doutrinários caros ao cristianismo. A solução seria retomar a antiga sensibilidade cristã à injustiça, e assim, não abrir mão da fé cristã ortodoxa.
Enfim penso que o atual Papa Francisco I, segue mais ou menos a mesma orientação: cuidado com os pobres e oprimidos (parte do ethos franciscano, não obstante ser ele jesuíta), sem a tentação do progressismo-liberal. Há uma esforço ulterior no sentido de integrar ambas facetas (missão e a ortodoxia*) da fé cristã . Evangélicos engajados na tarefa junto aos menos favorecidos, como eu e outros, sentem o mesmo problema. E devemos tomar o mesmo cuidado. Afinal, quando um cristão ama um pobre autenticamente, a glória não pode ser de Marx, mas de Cristo. Ao menos, é isto que aprendemos quando olhamos, mesmo que timidamente, para a longa história do cristianismo.
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*Claro que o que chamo de ortodoxia aqui, são aqueles pontos convergentes entre a ortodoxia católica romana e protestante. Principalmente aqueles que ferem profundamente a ética judaico-cristã.
Referências
Wit, Willen J. On the Way to the Living God : a cathartic reading of Herman Bavinck and An Invitation to Overcome the Plausibility Crisis of Christianity. Amsterdã: VU University Press, 2011.
Igreja, Exílio e Redenção (Prezi)
Deus no Exílio
Missão Integral & Missionalidade
Princípios na Missão
Como trabalhamos diretamente (face-to-face) com crianças e adolescentes que carecem de atenção e processos educativos adicionais, procuramos integrar nossa vocação pedagógica com vocação missionária. Como sei que muitos dos que visitam este blog estão engajados em missões urbanas, missão transcultural, missão integral, transformação comunitária e similares, desejamos compartilhar alguns princípios missiológicos que nos ajudam muito durante os trabalhos que realizamos com crianças/jovens/adolescentes em situação de risco:
1) Se vida transcende vida biológica, se o termo envolve a integralidade da vida humana, tudo que fragmenta, desintegra, violenta, perverte e distorce a vida é morte. Neste sentido, a missão com jovens em situação de risco e em comunidades de periferia envolve o testemunho e a ação da ressurreição: beleza, amor, alegria, sabedoria, plenitude e justiça.
2) Aborde a dura realidade destas comunidades sob uma visão de mundo reformada: criação-queda-redenção-consumação ou seja, quando olho pro rosto de um menino que reproduz a violência de sua família, não vejo uma criança indisciplinada, mas um ser a imagem de Deus (por isso digno do amor) trincado pelos efeitos da queda. Trincado, mas ainda digno do evangelho e da grandeza da ressurreição de Cristo, filho da ira, mas filho de Deus em potencial. Nossa missão por isso é esperançosa, pois pela esperança, sabemos de que alguma forma o que fazemos redundará em glória para Deus na consumação/restauração de todas as coisas. Não posso deixar de amar, pois é criação. Não posso ser utópico, pois há queda. Não posso ser pessimista, pois há esperança.
3) Intervenções comunitárias precisam ser carregadas de intencionalidade educacional. Se há intento pedagógico, há uma antropologia filosófica clara. Ou seja, se o homem é um ser em estado de inacabamento, que tipo de homem desejamos formar nestes adolescentes e jovens? Um homem do consumo? Um homem do conhecimento? Um homem integral? Um homem restituído de sua dignidade como filho de Deus? Sem clareza a respeito de que homem intentamos formar, a intencionalidade educacional fica difusa ou comprometida.
4) Encarnação como princípio missiológico: Se o Verbo de Deus se fez carne em Jesus (Jo 1:14) e se Ele se esvaziou e assumiu forma servil (Fp 3), é um mandamento que todo vocacionado nestas comunidades se revista da linguagem, da realidade cultural e de sua própria humanidade. Sua encarnação é simultaneamente contextualizada e subversiva, pois afeta estruturas pecaminosas e iníquas Encarnação missiológica, significa que não olho de "cima pra baixo", eu desço a montanha como Moisés, com as "tábuas da palavra" em mãos. Missão é tradução, ou nos termos de João Calvino, envolve uma "acomodação" da linguagem a fim de tornar grandes verdades compreensíveis a um público que vive outra realidade cultural. Daí, o vocacionado em comunidades com esta realidade, deve se valer de toda sua criatividade e recursos, para comunicar com clareza a mensagem do Reino em Cristo em toda sua plenitude.
5) A mensagem do Reino é comunicada de forma integral, em algum sentido, a ressurreição é a Nova Criação (N.T. Wright), se assim o é, é inerente ao evangelho: a salvação, cultura, justiça, sabedoria, beleza, plenitude, saúde, educação, responsabilidade ética, cidadania e por aí vai.
6) Amor... amar envolve um princípio de hospitalidade. Um tratamento bíblico de que cada pessoa é um mundo, cada pessoa é um universo em potencial. Amar é romper com o tratamento massificante (tão recorrente em instituições públicas) e ver em cada indivíduo um universo, um mundo próprio e singular. Amor significa derramar sua vida, sua energia, seu tempo, sua disposição, seu calor pelo outro. Esta deve ser uma meta constante...
São princípios dinâmicos, não-abstratos, conectados com a prática, apegados com a rotina de trabalhos de natureza sócio-educativas nestas comunidades.Que possamos prosseguir neste alvo e perspectiva de que Jesus Cristo é o agente principal de transformação destas vidas e comunidades.



