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17 de jun. de 2016 | By: @igorpensar

Resposta ao Frei Martin sobre Orlando

Uma resposta ao Frei James Martin
sobre o massacre em Orlando
Elliot Milco


Na última terça-feira, o jornalista jesuíta e editor-geral do America, Frei James Martin, publicou um vídeo no Facebook sobre o recente massacre em Orlando. Em seu vídeo, ele expressa seu desalento com as reações dos bispos católicos americanos não porque estes fracassaram em expressar tristeza, revolta e solidariedade para com os que estão sofrendo, mas porque não direcionaram (com exceção de Blaise Cupich, de Chicago) suas condolências explicitamente à Comunidade LGBT.

Preste bem atenção: a queixa de Martin não é por qualquer falta de empatia ou solidariedade, mas pela linguagem que os bispos escolheram para identificar o sofrimento. “A todos aqueles que foram afetados” (Arcebispo Kurtz) não é suficiente. “O povo de Orlando” também não é suficiente. Precisamos ficar com o grupo identitário cujos membros foram principalmente afetados, pois eles não foram alvos nem como habitantes de Orlando nem como transeuntes casuais, mas como membros desse grupo identitário.

O vídeo do Frei Martin é um ótimo exemplo de sua completa compaixão e cuidado com as palavras. Ele diz o que quer dizer e, como sempre, deixa claro que realmente quer dizer o que diz. Contudo, ele está errado, e acho que sua declaração é capciosa e desprovida de caridade para com os bispos em questão.

O que significa ser “gay” ou “LGBT”? Esta pergunta poderia ser respondida de muitas maneiras diferentes: de acordo com a preferência sexual, comportamento, orientação, identidade, psicologia, biologia, estilo de vida etc. Entretanto, não pode haver nenhuma dúvida de que, no momento, o rótulo “LGBT” e seus componentes representam mais do que simplesmente um dado sobre as disposições, estilos de vida ou constituições biológicas de indivíduos variados. Eles representam uma ideologia política e antropológica altamente desenvolvida, que faz fortes reivindicações sobre a natureza humana e o desejo, a moralidade, a estrutura familiar e o uso apropriado do corpo.

Só para esclarecer, todo e qualquer indivíduo que se identifique com qualquer um dos rótulos que se enquadram no “LGBT” é digno do nosso amor, empatia e solidariedade em sua busca (com todos os cristãos) por verdade, justiça e felicidade eterna. Mas o que compartilhamos com nossos irmãos, por causa da nossa humanidade comum, não invalida o que nos divide em termos de nossas escolhas e crenças sobre felicidade, justiça e verdade.

E assim, aqui está o problema: a Igreja Católica e a Comunidade LGBT possuem entendimentos divergentes acerca da natureza humana, da identidade pessoal, do uso apropriado do corpo e dos requisitos para a felicidade. Como Frei Martin corretamente observa, os católicos tratam a Comunidade LGBT como “diferente” – não porque a igreja deseja excluir os membros dessa Comunidade da misericórdia de Cristo, da admissão à igreja ou da consequente participação dos sacramentos (ao contrário, esta é uma das nossas grandes esperanças), mas porque as crenças, práticas, opiniões políticas e costumes propostos pela Comunidade LGBT são fundamentalmente hostis ao fim principal do homem.

Aqueles que estão no outro lado reconhecem a linha divisória perfeitamente bem. É por isso que os defensores da estrutura da família tradicional são, consequentemente, “intolerantes” aos seus olhos. É por isso que discordar das demandas políticas da Ideologia de Gênero e seus atuais usos linguísticos é punido com tanta severidade. O que é, portanto, que o Frei Martin está requerendo ao repreender os bispos por não expressarem solidariedade pela Comunidade LGBT, ou pelos “nossos irmãos e irmãs LGBT”, como fez o Arcebispo Cupich? Ele está requerendo, perceba isso ou não, que os bispos reconheçam e endossem tacitamente as identidades sexuais promovidas pela Comunidade LGBT – identidades associadas fundamentalmente à ideologia de gênero promovida pela Comunidade.

Isto, naturalmente, seria profundamente enganoso da parte dos bispos, uma vez que a Igreja não pode endossar tal ideologia. Seria também um fracasso evangelístico e um fracasso de caridade. A missão da Igreja, no que se refere à Comunidade LGBT, é opor-se à fetichização da identidade de gênero. O dever dos bispos é dizer à população LGBT que eles são conhecidos e amados como mais do que simplesmente o protótipo de um símbolo sexual.

Frei Martin diz que os gays são “invisíveis” na Igreja. Por um lado, ele está certo – a Igreja, como Cristo, recusa-se a confundir a ilusão do pecado e da ideologia com a realidade das pessoas que ela encontra. O que ela enxerga é simplesmente cada filho de Deus: sofrendo, esperando, ansiando por remissão, criado para a possibilidade da união eterna com Deus.

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Fonte: First Things.
Tradução de Leonardo Bruno Galdino.

Elliot Milco é subeditor do First Things.  
30 de jun. de 2015 | By: @igorpensar

Casamento: seu status não depende do estado

Encontrei algumas objeções a ampla defesa que temos feito no sentido de que "o casamento não deve sua existência ao estado". Quando digo nós, refiro-me a meu texto recente sobre o assunto, as postagens do Guilherme de Carvalho[1][2] e do Rodolfo Amorim.

Mas, destaco uma das objeções que li aqui no Facebook, publicado por Eliel Vieira: 
“Casamento, portanto, não é algo 'sagrado', 'ontológico' (como li esta semana num texto o-choro-é-livre de algum cristão fundamentalista) ou 'metafísico'. É algo civil, secular, laico, que deve ser regulado pela constituição, não por interpretações da Bíblia. O argumento de que "o casamento é uma instituição milenar que precede a existência do Estado e, portanto, não deve ser regulado por este" é raso e cheio de problemas. Exercer punição a quem comete delitos também é algo que precede a existência do Estado como o conhecemos, e este tem o poder e o dever de criar leis que punam criminosos. Sendo o casamento portanto uma instituição civil, secular e laica, o direito a ele deve ser acessível a todos homens e mulheres - heterossexuais ou não - que queiram resguardar seus direitos e deveres em relação à vida conjunta com seu parceiro ou parceira. Se vão se divorciar na semana seguinte ao casamento isso não é da nossa conta.”
Bem, aqui vai minha contra-objeção: dizer que o casamento assumiu um status civil, ou seja, um reconhecimento estatal, é muito diferente de dizer que o casamento deva sua existência ou deva ser redefinido pelo estado.  Pois, obviamente, o casamento antes de ser um contrato civil, mesmo em culturas poligâmicas, é um pacto de comprometimento moral e união assimétrica (macho-fêmea), e isto, desde tempos imemoriais. 

Até Levi-Strauss seria útil aqui, basta dar uma olhada em seu livro “Estruturas Elementares do Parentesco” pra sacar. Não há registro de um pacto de compromisso moral ritualizado – antropologicamente identificado – entre pessoas do mesmo sexo em nenhuma cultura do mundo.  As exceções históricas estão dentro do estado moderno. 

Mesmo que a prática homossexual exista antes do estado moderno, ela deve ser tratada como um fenômeno cultural distinto do casamento. Por quê? Porque não tem assimetria, o binarismo macho-fêmea, não há alteridade (a união com a diferença), o que enfim, impossibilita a exogamia (Lévi-Strauss), ou seja, a expansão da "espécie humana". Casamento é antropologicamente outra coisa, um outro fenômeno.

Mesmo a profunda pesquisa de James Neill em seu livro “The Origins and Role of Same-Sex Relations in Human Societies”, fica evidente, que os raros casos em que a “união homossexual” era ritualizada, as intenções culturais eram diferentes daquelas do casamento.

Bem, apesar do fundamento biológico, o casamento tem um “telos” (um propósito) que transcende a dimensão e as pulsões biológicas (como vem asseverando Guilherme de Carvalho). Pois, sua função é criar uma estrutura moral básica tendo por fim a procriação e a formação da família (independente de eventuais fracassos). 

Pode-se alegar: “o casamento não é mais esta união com pretensões morais, por causa da possibilidade anulação quando o 'amor' (lê-se afeto) acaba.” Mas esta mudança de status do casamento (sua anulação por falta de 'amor') dá-se na instância civil, por causa de pressões oriundas das revoluções afetivas que remetem à reação romântica ao racionalismo no século XVIII, ao freudismo e as revoluções sexuais entre os anos 60-80. Mesmo biblicamente, há exceções extraordinárias, que permitem a anulação ou o divórcio.   Mas, novamente, isto em nada deveria comprometer o status histórico e/ou ontológico do casamento: seu fundamento biológico (união entre macho e fêmea) e sua finalidade moral (constituição da família)¹.  -- como Herman Dooyeweerd é útil aqui! -- 

A afirmação de que o “casamento não deve sua existência ao estado” não tem nenhuma tensão com o fato de o estado reconhecer o valor “civil” desta instituição (justamente para garantir os direitos civis inerentes a tal união).  Porém reduzir o sentido de casamento apenas ao caráter civil é cair em uma armadilha secular.  A pegadinha tem dado respaldo, inclusive, para o projeto da militância LGBT em instrumentalizar o poder público (no caso dos EUA, em particular, o poder judiciário) para dar um outro arranjo, definição e status ontológico para o casamento, diferente, daquela cultural e historicamente consagrada.

Veja como é bizarro: desde tempos inadatáveis o casamento se funda em uniões assimétricas (macho e fêmea) e um pacto moral. Porém, agora, em pleno século XXI, o estado moderno vai para além do reconhecimento civil e assume para si o poder de regular e redefinir o status ontológico do casamento. Este é um salto escandalosamente bizarro, uma ingerência pretensiosa, e está claro que é um tipo de abuso de estado.

Enfim, quero reafirmar que o que está em jogo não é uma luta fundamentalista pela defesa da família, mas uma luta por uma instituição que já se mostrou forte o suficiente para manter o tecido social mesmo em tempos em que o direito civil e o estado não existiam.  O casamento não é só pré-estatal é supra-estatal, mas caminhamos para o que Charles Taylor denomina de "atomismo social", um fenômeno típico em contextos de alta secularização.   Afirmamos a individualidade, a vontade subjetiva e enfraquecemos os vínculos comunitários. Por esta razão, é muito, mas muito estranho ver gente alegadamente cristã defendendo a secularização e a entrega do casamento e, consequentemente, da família ao "deus estado".

"Mas Igor, não vai citar nenhum versículo bíblico?" Não, hoje não.
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¹Claro que há pessoas casadas que nunca terão filhos, porém, como bem assevera Scruton, um casal sem filhos honra o status moral do casamento, mesmo sem tê-los.